Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
4 minutos min de leitura

Todo mundo está automatizando o trabalho júnior: Quem irá formar os próximos sêniores?

À medida que a IA assume tarefas operacionais, surge um risco silencioso: como formar profissionais capazes de supervisionar o que nunca aprenderam a fazer?
Cofounder da Leapy. Matheus foi jovem aprendiz e egresso da rede pública de ensino, é graduado em Administração pela Unesp e participou do Ignite, programa de formação empreendedora de Stanford. Trabalhou por seis anos na Movile, investidora por trás do iFood, onde também fundou e liderou por dois anos a Fundação 1Bi, iniciativa social que impacta mensalmente mais de 150 mil jovens da rede pública. Atualmente é cofundador e líder de produto e receita da Leapy, empresa que viabiliza a contratação, formação e gestão de jovens aprendizes, transformando o cumprimento da Lei da Aprendizagem em um investimento estratégico para a formação de talentos.

Compartilhar:

Existe uma ideia que se tornou quase um consenso nas conversas sobre inteligência artificial nas empresas. A narrativa é simples: a IA automatiza tarefas operacionais e repetitivas, enquanto as pessoas se concentram no que apenas os humanos podem fazer: definir estratégias, revisar decisões e supervisionar sistemas.

No papel, parece um arranjo elegante. A tecnologia faz o trabalho pesado e os humanos assumem um papel mais nobre. Nesse raciocínio, a inteligência artificial não substitui pessoas, ela as eleva. Mas existe uma pergunta incômoda escondida nesse modelo: como alguém aprende a supervisionar um trabalho que nunca precisou fazer?

Esse dilema já apareceu em outros setores altamente automatizados. Na aviação, por exemplo, segundo análise publicada por Persinos (2024) na Aviation Today, à medida que os sistemas automáticos passaram a conduzir grande parte do voo, o papel dos pilotos mudou de executores para supervisores. O problema é que, quanto menos os pilotos praticavam o controle manual da aeronave, mais difícil se tornava assumir o comando quando algo saía do previsto. Assim, quanto mais confiável o sistema automático se tornava, menos experiência prática o humano acumulava.

Algo parecido começa a surgir nas empresas com o avanço da inteligência artificial. A Pesquisa de Desenvolvedores do Stack Overflow de 2025 revelou um dado que ilustra bem essa questão: embora 84% dos desenvolvedores utilizem ferramentas de IA, 46% deles desconfiam da precisão dos resultados gerados. A tecnologia acelera a produção, mas pode reduzir a profundidade do aprendizado quando elimina as etapas em que as pessoas desenvolvem a intuição técnica.

Muitas tarefas que antes eram executadas por profissionais em início de carreira estão sendo automatizadas. No curto prazo, isso parece uma ótima notícia: a tecnologia reduz custos, aumenta a produtividade e libera as pessoas para atividades mais estratégicas. O problema é que essas posições de entrada sempre tiveram uma função importante dentro das organizações. Elas eram o espaço onde as pessoas aprendiam o trabalho. Foi ali que gerações de profissionais cometeram erros, desenvolveram intuição técnica e construíram repertório para assumir decisões mais complexas no futuro.

Formar talentos deixa de ser opcional

Quando a estratégia se limita a contratar profissionais experientes e reduzir a entrada de talentos em início de carreira, a empresa pode até ganhar produtividade no curto prazo, mas compromete o fluxo natural de formação que sustenta o negócio no longo prazo e gera riscos previsíveis.

O primeiro é a escassez estrutural. Em pouco tempo, simplesmente não haverá profissionais sêniores suficientes no mercado para atender a todas as empresas que estão tentando contratá-los. Todo profissional experiente precisou construir essa experiência em algum lugar e, ao eliminar as posições de entrada, estamos interrompendo exatamente esse fluxo.

Ligado a isto, o segundo efeito é o custo. À medida que a oferta de especialistas diminui, contratar profissionais prontos tende a ficar cada vez mais caro, o que diminui a competitividade das empresas que deles dependem.

Por fim, existe o risco para a inovação e a qualidade. Sem profissionais mais jovens dominando os fundamentos do trabalho, as equipes perdem a capacidade de entender profundamente as tecnologias que utilizam e de lidar com falhas complexas dos próprios sistemas automatizados.

Mesmo assim, contratar de fora em vez de formar dentro de casa continua sendo a escolha predominante nas empresas, quase sempre sustentada pelo mesmo argumento: “não dá tempo de formar.”

E, de fato, não dá. Pelo menos não se continuarmos tentando formar profissionais da mesma forma que fizemos nas últimas décadas. O modelo tradicional de desenvolvimento foi desenhado para um mundo em que o trabalho mudava de forma menos acelerada: competência atestada por cursos universitários, treinamentos para toda a empresa nos “dias de treinamento”, certificações e trilhas iguais para todos. Hoje, quando as tecnologias evoluem em ritmo exponencial, esse modelo simplesmente não acompanha a velocidade das mudanças.

É nesse ponto que o papel do RH começa a mudar de forma estrutural. Durante muito tempo, o desenvolvimento profissional foi tratado como um complemento. Agora, ele passa a ser parte central da estratégia de negócios. Em vez de perguntar apenas quantas pessoas contratar, as empresas precisam começar a perguntar quais capacidades precisam desenvolver internamente para sustentar o crescimento nos próximos anos.

Isso significa abandonar a lógica de carreiras rígidas e passar a operar com modelos baseados em competências – ou skills – em que o aprendizado acontece no próprio fluxo de trabalho.

Nesse modelo, o desenvolvimento deixa de ser episódico e passa a ser contínuo. Profissionais mais jovens entram nas organizações aprendendo ao lado das tecnologias que irão supervisionar no futuro, evoluindo progressivamente em trilhas de competências específicas. A própria inteligência artificial pode ajudar nesse processo, mapeando lacunas de habilidades, sugerindo caminhos de desenvolvimento e acompanhando a evolução das pessoas ao longo do tempo.

Não se trata de frear a automação ou preservar tarefas manuais artificialmente. A questão é garantir que o processo de aprendizado continue existindo dentro dela.

Porque, no fim das contas, sistemas complexos continuam dependendo de pessoas capazes de entendê-los, e essas pessoas não surgem prontas no mercado. Elas precisam ser formadas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Administrar um restaurante e uma multinacional é mais parecido do que parece

Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional – planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente – são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

O engajamento não nasce das pessoas. Nasce do ambiente.

Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Aprendi que até no Japão as mulheres conseguem quebrar regras

Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Inovação & estratégia, User Experience, UX
2 de julho de 2026 14H00
A digitalização do pós-obra pode transformar operações, reduzir custos e fortalecer a experiência do cliente no setor imobiliário. Este artigo mostra que as construtoras podem transformar o momento da entrega das chaves em inteligência, eficiência e vantagem competitiva.

Jean Ferrari - CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
2 de julho de 2026 08H00
Seu maior risco digital pode estar no bolso do seu colaborador. Este artigo revela por que a gestão da frota móvel deixou de ser uma questão operacional e passou a ser uma decisão estratégica de segurança e eficiência.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de julho de 2026 15H00
A liderança centrada no controle está perdendo espaço. Este artigo mostra como a capacidade de desenvolver autonomia será o principal diferencial das organizações do futuro.

Marcelo Neri - CEO, Mentor Executivo, Palestrante Internacional e Escritor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
1º de julho de 2026 08H00
Muito além do debate entre humano e IA, este artigo expõe o verdadeiro problema do atendimento moderno: não é quem responde, mas quem tem poder para decidir, e por que a falta de autoridade na ponta continua destruindo experiências e confiança.

Átila Persici Filho - COO da Bolder, Professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação

8 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
30 de junho de 2026 15H00
A partir dos sinais do Web Summit Rio 2026, este artigo mostra como a saúde mental deixou de ser benefício periférico para se tornar uma variável crítica de negócio, impactando investimento, regulação e a própria sustentabilidade das empresas.

Weber Stival - Fundador e CEO da Unolife.

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de junho de 2026 08H00
A NR-1 mudou a regra: cuidar da saúde mental agora exige gestão. Este artigo mostra como a nova norma transforma riscos psicossociais em variável estratégica, exigindo das empresas organização, método e accountability na gestão do ambiente de trabalho.

Erich Silva - COO e Head de Talentos da Lecom

3 minutos min de leitura
Liderança
29 de junho de 2026 16H00
Ao revisitar a história de Francisco Serrão, este artigo propõe uma inversão rara na lógica da liderança contemporânea: talvez a verdadeira coragem não esteja em continuar a todo custo, mas da capacidade de definir limites.

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de junho de 2026 08H00
Ao contrastar o poder das big techs ocidentais com a força industrial e estrutural do Oriente, este artigo amplia a leitura sobre inovação e revela que o futuro da economia global não será definido por empresas isoladas, mas pela interação entre ecossistemas tecnológicos interdependentes.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de junho de 2026 15H00
Com Sérgio Frangioni e a Blanver como pontos de observação, o terceiro artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira investiga como decisões empresariais, PDPs, IFAs e produção local podem aproximar inovação farmacêutica da vida concreta dos pacientes.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

13 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de junho de 2026 08H00
Diante de um cenário de sobrecarga crescente no trabalho, este artigo mostra que o problema não está apenas no volume, mas na forma como o trabalho é organizado, e apresenta caminhos práticos para redesenhá-lo com mais significado, autonomia e energia.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo