Nunca houve tanto investimento em inteligência artificial, automação, produtividade e transformação digital. Falamos tanto sobre eficiência operacional, aceleração de resultados e alta performance. Ainda assim, o trabalho nunca pareceu tão emocionalmente desgastante. O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, mostrou que o engajamento global dos trabalhadores caiu para 20% em 2025, o menor nível desde 2020.
Em 2022, esse índice havia atingido 23%. Desde então, o mundo corporativo entrou em um movimento contínuo de deterioração da experiência de trabalho. O impacto estimado já chega a aproximadamente US$ 10 trilhões em perda de produtividade no mundo, algo equivalente a cerca de 9% do PIB global. Isso é um sinal de esgotamento operacional das organizações.
O trabalho precisa ser reorganizado para ser mais eficiente, e as lideranças têm papel central nisso
As empresas foram pressionadas a acelerar. O problema é que poucas conseguiram equilibrar essa aceleração com uma revisão séria sobre como o trabalho estava sendo organizado, distribuído, gerenciado e sustentado.
O resultado é um modelo corporativo que continua cobrando crescimento contínuo, mas frequentemente devolve sobrecarga contínua.
O dado da Gallup confirma, em escala global, algo que já vinha sendo sentido dentro das empresas há algum tempo e o ponto mais preocupante seja que esse desgaste já não está apenas nas equipes operacionais, ele também chegou nas lideranças.
Um dos achados mais importantes do relatório é que a piora recente do engajamento foi puxada principalmente pelos gestores. Entre 2024 e 2025, o engajamento dos líderes caiu de 27% para 22%. Desde 2022, a queda acumulada chegou a nove pontos percentuais.
Os gestores ocupam hoje uma posição quase impossível dentro de muitas organizações. Eles precisam entregar resultados crescentes, absorver mudanças constantes, conduzir transformação digital, adaptar operações à IA, lidar com cortes, sustentar cultura organizacional, manter times engajados e ainda funcionar como estabilizadores emocionais da empresa.
Nesse cenário, a liderança intermediária virou um ponto crítico da gestão, e quando esse elo se desgasta, o impacto se espalha rapidamente. Isto é, quando os líderes começam a operar exaustos, pressionados e emocionalmente drenados, o restante da organização inevitavelmente sente os efeitos.
Automação e IA não deveriam servir para acelerar pessoas, mas sim para aliviar a sobrecarga do trabalho e consequentemente aumentar a produtividade de forma sustentável.
É aqui que a conversa sobre tecnologia precisa amadurecer.
Talvez uma das maiores distorções do debate atual sobre inteligência artificial seja a ideia de que tecnologia existe apenas para fazer as pessoas produzirem mais rápido. O maior valor da automação pode estar justamente em remover desperdício operacional e aliviar o peso desnecessário do trabalho.
Isso significa automatizar tarefas repetitivas, eliminar retrabalho, reduzir burocracias improdutivas, organizar fluxos, dar mais clareza à operação, reduzir o peso administrativo sobre as lideranças e liberar tempo para atividades que exigem pensamento crítico, acompanhamento humano e tomada de decisão.
Esse deveria ser o papel mais relevante da tecnologia dentro das empresas: não simplesmente comprimir ainda mais o tempo e a energia das pessoas, mas tornar o trabalho mais viável, mais inteligente e mais sustentável.
Mais do que uma crise de motivação, o cenário atual aponta para uma necessidade urgente de reorganização do trabalho. Isso passa por rever fluxos excessivamente complexos, reduzir retrabalho, aliviar a sobrecarga da liderança e construir estruturas mais sustentáveis para sustentar crescimento, inovação e adaptação contínua.
No fim, o dado da Gallup traz um alerta importante: o problema do trabalho hoje não é apenas de produtividade. É também de sustentabilidade humana. E empresas que não entenderem isso correm o risco de continuar buscando performance em estruturas cada vez mais sobrecarregadas.




