Liderança, Cultura organizacional
3 minutos min de leitura

Trabalho em crise: engajamento global de colaboradores caiu 20%

A crise do trabalho não é de esforço - é de estrutura. Este artigo mostra que nunca se investiu tanto em produtividade, e nunca o trabalho pareceu tão insustentável.
CEO da Lecom, Tiago é especialista em Gestão de Projetos na FGV e formado em Sistemas da Informação pela UNESP, onde também se especializou em Gestão Empresarial.

Compartilhar:

Nunca houve tanto investimento em inteligência artificial, automação, produtividade e transformação digital. Falamos tanto sobre eficiência operacional, aceleração de resultados e alta performance. Ainda assim, o trabalho nunca pareceu tão emocionalmente desgastante. O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, mostrou que o engajamento global dos trabalhadores caiu para 20% em 2025, o menor nível desde 2020. 

Em 2022, esse índice havia atingido 23%. Desde então, o mundo corporativo entrou em um movimento contínuo de deterioração da experiência de trabalho. O impacto estimado já chega a aproximadamente US$ 10 trilhões em perda de produtividade no mundo, algo equivalente a cerca de 9% do PIB global.  Isso é um sinal de esgotamento operacional das organizações.

O trabalho precisa ser reorganizado para ser mais eficiente, e as lideranças têm papel central nisso

As empresas foram pressionadas a acelerar. O problema é que poucas conseguiram equilibrar essa aceleração com uma revisão séria sobre como o trabalho estava sendo organizado, distribuído, gerenciado e sustentado.

O resultado é um modelo corporativo que continua cobrando crescimento contínuo, mas frequentemente devolve sobrecarga contínua. 

O dado da Gallup confirma, em escala global, algo que já vinha sendo sentido dentro das empresas há algum tempo e o ponto mais preocupante seja que esse desgaste já não está apenas nas equipes operacionais, ele também chegou nas lideranças.

Um dos achados mais importantes do relatório é que a piora recente do engajamento foi puxada principalmente pelos gestores. Entre 2024 e 2025, o engajamento dos líderes caiu de 27% para 22%. Desde 2022, a queda acumulada chegou a nove pontos percentuais. 

Os gestores ocupam hoje uma posição quase impossível dentro de muitas organizações. Eles precisam entregar resultados crescentes, absorver mudanças constantes, conduzir transformação digital, adaptar operações à IA, lidar com cortes, sustentar cultura organizacional, manter times engajados e ainda funcionar como estabilizadores emocionais da empresa.

Nesse cenário, a liderança intermediária virou um ponto crítico da gestão, e quando esse elo se desgasta, o impacto se espalha rapidamente. Isto é, quando os líderes começam a operar exaustos, pressionados e emocionalmente drenados, o restante da organização inevitavelmente sente os efeitos. 

Automação e IA não deveriam servir para acelerar pessoas, mas sim para aliviar a sobrecarga do trabalho e consequentemente aumentar a produtividade de forma sustentável.

É aqui que a conversa sobre tecnologia precisa amadurecer.

Talvez uma das maiores distorções do debate atual sobre inteligência artificial seja a ideia de que tecnologia existe apenas para fazer as pessoas produzirem mais rápido. O  maior valor da automação pode estar justamente em remover desperdício operacional e aliviar o peso desnecessário do trabalho.

Isso significa automatizar tarefas repetitivas, eliminar retrabalho, reduzir burocracias improdutivas, organizar fluxos, dar mais clareza à operação, reduzir o peso administrativo sobre as lideranças e liberar tempo para atividades que exigem pensamento crítico, acompanhamento humano e tomada de decisão.

Esse deveria ser o papel mais relevante da tecnologia dentro das empresas: não simplesmente comprimir ainda mais o tempo e a energia das pessoas, mas tornar o trabalho mais viável, mais inteligente e mais sustentável.

Mais do que uma crise de motivação, o cenário atual aponta para uma necessidade urgente de reorganização do trabalho. Isso passa por rever fluxos excessivamente complexos, reduzir retrabalho, aliviar a sobrecarga da liderança e construir estruturas mais sustentáveis para sustentar crescimento, inovação e adaptação contínua.

No fim, o dado da Gallup traz um alerta importante: o problema do trabalho hoje não é apenas de produtividade. É também de sustentabilidade humana. E empresas que não entenderem isso correm o risco de continuar buscando performance em estruturas cada vez mais sobrecarregadas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Centauros corporativos: quem está no controle da inteligência?

Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Cláusula de raio: proteção legítima ou barreira à concorrência?

Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo