Estratégia
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Tratar o Governo como cliente é o erro que trava as govtechs

O problema das govtechs não é a burocracia - é tratar o governo como cliente quando ele deveria ser parceiro.
Gerente de Marketing da Dome Ventures, primeira Venture Builder GovTech do Brasil. Atua há mais de 10 anos nas áreas de comunicação, marketing, inovação e transformação digital, com experiência em tecnologia, startups e setor público. Lincoln é especialista em planejamento estratégico, posicionamento digital, gestão de equipes, conteúdo, eventos e relacionamento com startups e parceiros do ecossistema govtech. Mentor e facilitador em programas de inovação, empreendedorismo e impacto público, como o Green Sampa e o Programa Impulso Regional. Já atuou em projetos de customer experience, automação, pesquisa de mercado e desenvolvimento de produtos digitais. Ele é Mestre em Comunicação pela UFPB e graduado em Direito pela UEPB.
Gerente de Inovação da Dome Ventures, primeira Venture Builder GovTech do Brasil. Atua no ecossistema de inovação, startups e transformação digital, com experiência em desenvolvimento de negócios, inovação aberta e conexão entre startups e setor público. Luiz é líder veterano do InovAtiva Brasil, maior programa de aceleração de startups da América Latina, além de já ter atuado como Líder de Comunidade e Agente do programa; Community Leader do Sururu Valley e da Move, iniciativas voltadas ao fortalecimento do ecossistema de inovação em Alagoas. Ele também possui experiência em consultoria para micro e pequenas empresas, com foco em gestão, inovação e estratégia digital. Graduado em Administração pelo Centro Universitário Cesmac e MBA em Marketing Digital pela Universidad Austral, Argentina.

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O mercado global de govtech deixou de ser promessa para se consolidar como uma das principais frentes de transformação da iniciativa pública. Segundo estimativas do Fórum Econômico Mundial, o setor pode gerar até US$ 9,8 trilhões em valor público até 2034. No Brasil, o cenário é igualmente avançado. O país atingiu nota 0,986 no GovTech Maturity Index de 2025, do Banco Mundial, posicionando-se entre os mais maduros do mundo em soluções digitais. Ainda assim, há uma contradição evidente: apesar do avanço institucional e do volume crescente de investimentos, poucas startups conseguem escalar de forma consistente. O problema costuma ser atribuído à burocracia, às licitações complexas ou à lentidão do Estado. Mas essa explicação, embora conveniente, é superficial. Um dos principais erros das govtechs brasileiras está na forma como enxergam o governo: como cliente, e não como parceiro de produto.

Tratar o governo como cliente implica replicar uma lógica tradicional de venda B2B. O modelo é baseado em contratos pontuais, processos de compra formais e produtos relativamente padronizados. Nesse formato, a startup desenvolve uma solução, participa de uma licitação e tenta encaixar sua tecnologia em uma demanda previamente definida. O resultado, na maioria dos casos, é um desalinhamento entre produto e realidade pública, ciclos de venda longos e baixa capacidade de retenção.

O setor público, no entanto, opera sob uma lógica completamente distinta. Diferentemente de empresas privadas, onde a decisão de compra é centralizada e a implementação tende a ser mais direta, governos lidam com múltiplos decisores, restrições legais, controle institucional e mudanças frequentes de gestão. Mais do que adquirir software, o Estado precisa incorporar soluções que resistam a processos administrativos, auditorias e variações políticas. Isso transforma a venda em algo mais complexo, pois não se trata apenas de entregar tecnologia, mas de viabilizar mudança operacional.

É nesse ponto que surge a diferença entre fornecedor e parceiro. Govtechs que lidam com o governo como parceiro buscam participar de forma ativa no contexto, entender o problema real da gestão pública e população, têm a pesquisa e inteligência de dados como base forte da construção das soluções e as desenvolvem de forma reiterada. Em vez de adaptar o cliente à solução, adaptam o produto ao problema real do contexto público. Essa abordagem exige mais tempo e maior proximidade institucional, mas aumenta significativamente as chances de escala e permanência.

A dificuldade de muitas startups está justamente no choque entre expectativas. De um lado, empresas que buscam crescimento rápido e soluções replicáveis. De outro, governos que demandam adaptação, previsibilidade e conformidade. Quando essas lógicas não se encontram, o resultado é previsível, há frustração dos dois lados, contratos isolados e baixa continuidade. Os dados reforçam que o entrave não está na falta de demanda. Com a digitalização avançando e mais da metade dos orçamentos de TI públicos direcionados à modernização, existe espaço e recursos disponíveis. O desafio é de integração, coordenação e, principalmente, modelo de relacionamento.

Algumas empresas já começam a romper esse padrão ao atuar como co-desenvolvedoras de soluções públicas, e não apenas fornecedoras. São essas que conseguem navegar melhor a complexidade institucional e transformar contratos em plataformas de longo prazo. No fim, o desafio das govtechs não é apenas lidar com a burocracia, mas compreender a natureza do próprio mercado em que atuam. No setor público, o produto não se entrega pronto, mas se constrói junto.

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