Estratégia
3 minutos min de leitura

Tratar o Governo como cliente é o erro que trava as govtechs

O problema das govtechs não é a burocracia - é tratar o governo como cliente quando ele deveria ser parceiro.
Gerente de Marketing da Dome Ventures, primeira Venture Builder GovTech do Brasil. Atua há mais de 10 anos nas áreas de comunicação, marketing, inovação e transformação digital, com experiência em tecnologia, startups e setor público. Lincoln é especialista em planejamento estratégico, posicionamento digital, gestão de equipes, conteúdo, eventos e relacionamento com startups e parceiros do ecossistema govtech. Mentor e facilitador em programas de inovação, empreendedorismo e impacto público, como o Green Sampa e o Programa Impulso Regional. Já atuou em projetos de customer experience, automação, pesquisa de mercado e desenvolvimento de produtos digitais. Ele é Mestre em Comunicação pela UFPB e graduado em Direito pela UEPB.
Gerente de Inovação da Dome Ventures, primeira Venture Builder GovTech do Brasil. Atua no ecossistema de inovação, startups e transformação digital, com experiência em desenvolvimento de negócios, inovação aberta e conexão entre startups e setor público. Luiz é líder veterano do InovAtiva Brasil, maior programa de aceleração de startups da América Latina, além de já ter atuado como Líder de Comunidade e Agente do programa; Community Leader do Sururu Valley e da Move, iniciativas voltadas ao fortalecimento do ecossistema de inovação em Alagoas. Ele também possui experiência em consultoria para micro e pequenas empresas, com foco em gestão, inovação e estratégia digital. Graduado em Administração pelo Centro Universitário Cesmac e MBA em Marketing Digital pela Universidad Austral, Argentina.

Compartilhar:

O mercado global de govtech deixou de ser promessa para se consolidar como uma das principais frentes de transformação da iniciativa pública. Segundo estimativas do Fórum Econômico Mundial, o setor pode gerar até US$ 9,8 trilhões em valor público até 2034. No Brasil, o cenário é igualmente avançado. O país atingiu nota 0,986 no GovTech Maturity Index de 2025, do Banco Mundial, posicionando-se entre os mais maduros do mundo em soluções digitais. Ainda assim, há uma contradição evidente: apesar do avanço institucional e do volume crescente de investimentos, poucas startups conseguem escalar de forma consistente. O problema costuma ser atribuído à burocracia, às licitações complexas ou à lentidão do Estado. Mas essa explicação, embora conveniente, é superficial. Um dos principais erros das govtechs brasileiras está na forma como enxergam o governo: como cliente, e não como parceiro de produto.

Tratar o governo como cliente implica replicar uma lógica tradicional de venda B2B. O modelo é baseado em contratos pontuais, processos de compra formais e produtos relativamente padronizados. Nesse formato, a startup desenvolve uma solução, participa de uma licitação e tenta encaixar sua tecnologia em uma demanda previamente definida. O resultado, na maioria dos casos, é um desalinhamento entre produto e realidade pública, ciclos de venda longos e baixa capacidade de retenção.

O setor público, no entanto, opera sob uma lógica completamente distinta. Diferentemente de empresas privadas, onde a decisão de compra é centralizada e a implementação tende a ser mais direta, governos lidam com múltiplos decisores, restrições legais, controle institucional e mudanças frequentes de gestão. Mais do que adquirir software, o Estado precisa incorporar soluções que resistam a processos administrativos, auditorias e variações políticas. Isso transforma a venda em algo mais complexo, pois não se trata apenas de entregar tecnologia, mas de viabilizar mudança operacional.

É nesse ponto que surge a diferença entre fornecedor e parceiro. Govtechs que lidam com o governo como parceiro buscam participar de forma ativa no contexto, entender o problema real da gestão pública e população, têm a pesquisa e inteligência de dados como base forte da construção das soluções e as desenvolvem de forma reiterada. Em vez de adaptar o cliente à solução, adaptam o produto ao problema real do contexto público. Essa abordagem exige mais tempo e maior proximidade institucional, mas aumenta significativamente as chances de escala e permanência.

A dificuldade de muitas startups está justamente no choque entre expectativas. De um lado, empresas que buscam crescimento rápido e soluções replicáveis. De outro, governos que demandam adaptação, previsibilidade e conformidade. Quando essas lógicas não se encontram, o resultado é previsível, há frustração dos dois lados, contratos isolados e baixa continuidade. Os dados reforçam que o entrave não está na falta de demanda. Com a digitalização avançando e mais da metade dos orçamentos de TI públicos direcionados à modernização, existe espaço e recursos disponíveis. O desafio é de integração, coordenação e, principalmente, modelo de relacionamento.

Algumas empresas já começam a romper esse padrão ao atuar como co-desenvolvedoras de soluções públicas, e não apenas fornecedoras. São essas que conseguem navegar melhor a complexidade institucional e transformar contratos em plataformas de longo prazo. No fim, o desafio das govtechs não é apenas lidar com a burocracia, mas compreender a natureza do próprio mercado em que atuam. No setor público, o produto não se entrega pronto, mas se constrói junto.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O engajamento não nasce das pessoas. Nasce do ambiente.

Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Aprendi que até no Japão as mulheres conseguem quebrar regras

Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Da produção à curadoria: a nova lógica da relevância digital

O avanço dos vídeos curtos, dos criadores digitais e da inteligência artificial transformou a forma como consumimos informação e entretenimento. O desafio das empresas agora não é apenas alcançar audiências, mas construir confiança, interpretar comportamentos e criar experiências capazes de permanecer na memória das pessoas.

Por que todos os líderes começaram a soar iguais?

A autenticidade virou commodity quando todo mundo aprendeu a soar autêntico do mesmo jeito. Este artigo explora como voz, vivência e consistência podem se tornar os principais diferenciais para líderes que desejam construir influência e confiança de forma genuína.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de julho de 2026 08H00
Enquanto o sonho do hexa mobilizou milhões de brasileiros, outro fenômeno também ganhou força fora dos gramados. Este artigo discute como o avanço das apostas online está influenciando a relação dos jovens com dinheiro, educação e carreira, e por que empresas e líderes não podem ignorar seus efeitos sobre o futuro do trabalho.

Rodrigo Santos - Psicólogo e tutor educacional na Leapy

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
10 de julho de 2026 14h00
O futuro dos caminhões no Brasil será multienergético, e a engenharia nacional terá papel decisivo nessa transformação. Este artigo mostra por que a transição energética do transporte de cargas dependerá da combinação entre múltiplas fontes de energia, inovação tecnológica e soluções adaptadas à realidade do país.

Eduardo Oliveira - Diretor de Engenharia da IVECO para a América Latina

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Liderança
10 de julho de 2026 08H00
Da Kodak aos desafios da economia digital, a história dos negócios mostra que organizações raramente fracassam por um único erro. Elas perdem relevância quando insistem em estratégias, processos e crenças que deixaram de responder às transformações do mercado.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Inovação & estratégia, Liderança
9 de julho de 2026 15H00
O maior risco da sucessão não é a troca de comando. É deixar para depois. Este artigo mostra por que a continuidade dos negócios depende menos dos herdeiros e mais da preparação, da governança e da capacidade de construir o próximo ciclo de crescimento.

Pedro Fenati Bicalho - Sócio da FC Partners

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
9 de julho de 2026 08H00
A inteligência artificial já consegue executar boa parte do trabalho operacional. O que ela ainda não faz é dar sentido, construir confiança e imaginar futuros. Este artigo mostra por que o verdadeiro gargalo das empresas deixou de ser tecnológico e passou a ser a forma como lideram, colaboram e tomam decisões.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
8 de julho de 2026 15H00
A inteligência artificial deixou de ser um projeto da área de tecnologia e passou a fazer parte da rotina de todas as áreas da empresa. O problema é que, em muitos casos, sua adoção avança mais rápido do que os mecanismos de segurança, compliance e governança capazes de sustentá-la.

Rodrigo Hülsenbeck - CEO da Premiersoft

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
8 de julho de 2026 08H00
A maior vulnerabilidade da era da IA pode não estar nos profissionais juniores, mas nos cargos criados para coordenar fluxos e transmitir informações. O que acontece quando a tecnologia passa a fazer isso melhor, mais rápido e mais barato?

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

4 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
7 de julho de 2026 14H00
Entre Polônia e Brasil, teatro e negócios, cultura e estratégia, a autora propõe uma reflexão instigante sobre pertencimento, inteligência cultural e a capacidade, cada vez mais rara, de pensar com independência em um mundo saturado de narrativas.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

15 minutos min de leitura
Liderança
7 de julho de 2026 08H00
As mulheres brasileiras nunca estudaram tanto nem estiveram tão qualificadas para ocupar posições de decisão. Este artigo discute por que a desigualdade de representação persiste e como educação, networking e visibilidade continuam sendo fundamentais para transformar preparo em oportunidade.

Luiza Helena Trajano - Presidente do Conselho do Magazine Luiza e Presidente do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
6 de julho de 2026 16H00
Enquanto o networking superficial busca visibilidade, as conexões que realmente transformam carreiras nascem da credibilidade construída em projetos, desafios e relações pautadas pela confiança.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo