User Experience, UX, Inovação & estratégia
6 minutos min de leitura

Tudo que aprendi sobre a gestão da nova hotelaria nos últimos cinco anos

Mais conectado, informado e exigente, o consumidor de hoje compara sua experiência de hospedagem com os melhores serviços que encontra em qualquer setor. Em um mercado cada vez mais competitivo, o futuro dos hotéis dependerá da combinação entre inovação, eficiência e de pessoas que tenham a capacidade de criar experiências memoráveis
Diretor de Operações dos Hotéis Mabu. Ao longo da carreira, também atuou em diversas posições na Atlantica Hospitality International e BHG – Brazil Hospitality Group

Compartilhar:

Nos últimos cinco anos, a hotelaria mudou mais do que talvez tenhamos percebido. Mudaram o comportamento do hóspede, a relação com o trabalho, a velocidade das decisões, os canais de venda, a tecnologia e, principalmente, a forma de enxergar a operação.

Antes, uma boa gestão hoteleira era frequentemente associada à capacidade de manter uma operação eficiente, controlar custos, garantir ocupação e entregar um bom serviço. Esses fundamentos continuam absolutamente necessários. O que mudou foi a velocidade e a complexidade com que precisamos fazer tudo isso.

A pandemia foi um divisor de águas. Primeiro, porque obrigou o setor a sobreviver em um cenário de demanda praticamente interrompida. Depois, porque a retomada revelou um consumidor diferente, mais digital, mais informado e também mais exigente. O hóspede passou a comparar a experiência do hotel não apenas com outros hotéis, mas com a melhor experiência que encontra em qualquer outro setor.

Os números mostram que a hotelaria brasileira recuperou força. Segundo dados do FOHB e da HotelInvest, Curitiba encerrou 2024 com 68% de ocupação, diária média de R$ 314 e RevPAR de R$ 214, crescimento de 6,8% em relação ao ano anterior. No primeiro semestre de 2026, os hotéis acompanhados pelo FOHB na cidade chegaram a 65,64% de ocupação, com diária média de R$ 342,68 e RevPAR de R$ 225,29.

Em janeiro de 2026, a amostra nacional do FOHB, formada por 570 hotéis e mais de 88 mil unidades habitacionais, registrou crescimento de 2,1% na ocupação, 8,3% na diária média e 10,5% no RevPAR na comparação anual.

Esses números são importantes, mas contam apenas uma parte da história. O principal aprendizado dos últimos anos está menos nos indicadores finais e mais na forma como chegamos a eles.

Da intuição à gestão baseada em dados

Uma das principais transformações foi a profissionalização da tomada de decisão. Revenue Management, inteligência comercial, previsão de demanda e análise de comportamento deixaram de ser ferramentas restritas a grandes redes e passaram a fazer parte da rotina operacional.

Hoje, administrar um hotel significa acompanhar muito mais do que quantos apartamentos estão ocupados. É preciso entender quem está chegando, por que está chegando, quanto está disposto a pagar, por qual canal fez a reserva, qual é o seu comportamento durante a hospedagem e qual a possibilidade de voltar.

O dado deixou de ser um relatório produzido depois da operação. Ele passou a ser instrumento para antecipá-la.

Isso muda inclusive a cultura de gestão. Uma decisão comercial tomada hoje pode alterar a ocupação de amanhã. Uma alteração na programação de um destino pode mudar a demanda de um fim de semana. Um evento pode transformar completamente a curva de preços de determinado período.

O gestor hoteleiro passou a precisar pensar como operador, comerciante e analista ao mesmo tempo.

Tecnologia para melhorar a hospitalidade  e não para substituí-la

Outro equívoco seria imaginar que a transformação digital da hotelaria significa simplesmente automatizar processos.

A tecnologia precisa resolver problemas reais. Precisa melhorar a experiência do hóspede e ser uma aliada do operador para otimizar a operação e gerar dados nesta experiência.

Check-in digital, sistemas integrados, inteligência artificial, automação de processos, ferramentas de relacionamento e análise de dados fazem sentido quando tornam a operação mais eficiente e, principalmente, quando permitem que o profissional dedique mais tempo ao hóspede.

Uma pesquisa da Deloitte mostra que 81% dos hoteleiros colocam o aumento da produtividade dos funcionários entre suas prioridades, enquanto 49% apontam a integração de soluções de inteligência artificial como prioridade tecnológica.

Isso demonstra uma mudança importante de perspectiva: a tecnologia deixou de ser apenas investimento em infraestrutura. É investimento em produtividade.

Mas existe uma fronteira que a hotelaria não pode ultrapassar. A hospitalidade continua sendo uma atividade essencialmente humana.

Um algoritmo pode identificar uma preferência. Um sistema pode antecipar uma demanda. Uma ferramenta pode agilizar uma solicitação. Mas é o profissional que percebe quando um hóspede está cansado, quando uma família precisa de atenção especial ou quando uma situação exige sensibilidade.

A tecnologia deve retirar o atrito da operação para devolver tempo às pessoas.

O sorriso jamais será substituído.

O maior desafio continua sendo gente

Talvez nenhuma transformação dos últimos cinco anos tenha sido tão complexa quanto a gestão de pessoas.

A hotelaria é intensiva em mão de obra. Não existe experiência memorável sem pessoas preparadas para entregá-la.

Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho mudou. As novas gerações têm expectativas diferentes sobre carreira, liderança, flexibilidade, desenvolvimento e propósito profissional. A retenção passou a ser tão importante quanto o recrutamento.

A Deloitte aponta que 82% dos trabalhadores consideram felicidade e engajamento fatores importantes para a produtividade. O mesmo levantamento chama atenção para a elevada rotatividade na hotelaria. Isso exige uma mudança no papel da liderança.

O gestor de hoje não pode ser apenas aquele que cobra o cumprimento de procedimentos. Precisa desenvolver pessoas, comunicar com clareza, dar autonomia, formar sucessores e criar ambientes em que a equipe entenda por que aquilo que faz é importante.  Na hotelaria, a experiência do cliente começa antes do cliente chegar. Começa na experiência de quem trabalha no hotel.

Outro aprendizado dos últimos anos foi que eficiência e hospitalidade não são conceitos opostos.  Durante muito tempo, havia uma falsa escolha: ou se investia em experiência, ou se buscava eficiência operacional. Hoje sabemos que uma boa gestão precisa fazer as duas coisas simultaneamente.

Processos mais inteligentes reduzem desperdícios, evitam retrabalho e dão previsibilidade. Indicadores permitem identificar gargalos. Tecnologia ajuda a organizar informações. Treinamento aumenta a autonomia das equipes.

Tudo isso cria uma operação mais preparada para aquilo que realmente importa: receber bem.

O desafio está em não transformar eficiência em uma experiência fria.

O clima na equipe precisa ser o pilar na satisfação da equipe. Ninguém trabalha apenas por dinheiro. O propósito e a alegria é que motiva cada um a sair de casa e tratar bem o hóspede e seus colegas.

O hóspede não quer perceber a complexidade da operação. Ele quer que tudo funcione. E, quando algo não funciona, quer encontrar alguém preparado para resolver.

O hóspede também mudou

Nos últimos anos, a jornada do consumidor se tornou mais fragmentada e digital, começando nas redes sociais, passando por plataformas de reservas, avaliações e canais próprios dos hotéis, e continuando durante e após a hospedagem.

Nesse cenário, o hotel deixou de ser apenas o local da estada e passou a fazer parte de uma jornada mais ampla, exigindo uma gestão focada em toda a experiência do cliente.

Com um mercado turístico em crescimento e uma concorrência cada vez maior pela atenção do consumidor, os próximos anos exigirão gestores capazes de transformar dados em decisões, tecnologia em produtividade e processos e pessoas em experiências melhores.

O hotel, portanto, deixou de ser apenas o lugar onde a hospedagem acontece. Ele passou a fazer parte de uma jornada muito maior.

O turismo brasileiro vive um momento importante. O WTTC projetou para 2025 uma contribuição de US$ 167,6 bilhões do setor de Viagens e Turismo para a economia brasileira, além de 8,2 milhões de empregos.

Há mercado, demanda e oportunidades.

No fim, a tecnologia pode mudar a forma como administramos um hotel. Os dados podem mudar a forma como tomamos decisões. O consumidor pode mudar suas expectativas.

Mas uma coisa permanece: hospitalidade ainda começa e termina  com pessoas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Tudo que aprendi sobre a gestão da nova hotelaria nos últimos cinco anos

Mais conectado, informado e exigente, o consumidor de hoje compara sua experiência de hospedagem com os melhores serviços que encontra em qualquer setor. Em um mercado cada vez mais competitivo, o futuro dos hotéis dependerá da combinação entre inovação, eficiência e de pessoas que tenham a capacidade de criar experiências memoráveis

O SaaSpocalypse chegou? Talvez a pergunta esteja errada.

A pergunta tem aparecido cada vez mais nas reuniões de orçamento. O desafio é que a resposta raramente está no código. Mais do que anunciar o fim do SaaS, a nova onda tecnológica está redefinindo onde o valor do software realmente está, quem o captura e quais capacidades as organizações escolherão desenvolver ou contratar.

O cérebro é um velcro para críticas e um teflon para elogios

Um erro pesa mais do que dez acertos! A ciência mostra que experiências negativas exercem um impacto desproporcional sobre nosso comportamento. Nas organizações, essa tendência pode fazer com que líderes se tornem especialistas em apontar falhas e deixem invisíveis os comportamentos que fortalecem resultados, aprendizado e colaboração.

O líder como jardineiro: a vantagem competitiva que cresce como um jardim

Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

O prêmio do julgamento na era da inteligência abundante

Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Inovação & estratégia
3 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a pergunta mais importante já não é qual solução de IA adotar, mas quem está definindo os limites, os objetivos e as regras de uso dessa tecnologia dentro da organização.

Erick Rezende - Diretor de Delivery na Cognitivo AI

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
2 de setembro de 2026 14H00
À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services

6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Marketing & growth
2 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Bruno Almeida - CEO da US Media

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 15H00
Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução