Inovação & estratégia
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Um mundo que muda mais rápido do que nossa capacidade de acompanhar

A aceleração da destruição criativa deixou de ser um conceito abstrato e passou a atravessar o cotidiano profissional, exigindo menos apego à estabilidade e mais capacidade de adaptação, recombinação e reinvenção contínua.
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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Eu voltei do SXSW com a cabeça cheia de referências, com nomes para os meus incômodos e com uma sensação difícil de ignorar. Não foi uma ideia isolada de uma palestra específica, nem um insight pontual que se dissolve quando a rotina volta ao normal. Foi uma percepção construída ao longo de diferentes conversas, conteúdos e, principalmente, reforçada por algo que já vinha se manifestando no cotidiano. A diferença é que, ao conectar esses pontos, fica evidente que estamos vivendo um momento em que a destruição criativa deixou de ser um conceito teórico e passou a ser uma experiência prática, recorrente e, muitas vezes, desconfortável.

Ao longo dos últimos anos, nos acostumamos a associar transformação a grandes movimentos corporativos, iniciativas estratégicas ou à adoção de novas tecnologias. Mas a realidade atual desloca essa percepção para um nível muito mais próximo. A destruição criativa, conceito formulado por Joseph Schumpeter, sempre descreveu a dinâmica pela qual novos modelos substituem os antigos, impulsionando ciclos de crescimento e inovação. O que mudou não foi o conceito em si, mas a sua escala e velocidade. Se antes esse processo era percebido em setores inteiros ao longo de décadas, hoje ele acontece dentro de funções, atividades e competências, em intervalos cada vez mais curtos, tornando-se perceptível no cotidiano de qualquer profissional minimamente atento.

Essa mudança se revela em situações aparentemente simples, mas que carregam implicações profundas e, muitas vezes, difíceis de encarar. Profissionais altamente qualificados passam a questionar sua produtividade ao se depararem com ferramentas que executam, em minutos, tarefas que antes demandavam horas. Equipes inteiras revisitam processos desenhados recentemente e que já se mostram ineficientes diante de novas possibilidades tecnológicas. A percepção de valor, historicamente associada à experiência acumulada e ao domínio técnico, começa a migrar para a capacidade de adaptação, de leitura de contexto e de combinação inteligente entre conhecimento humano e capacidade computacional. Não se trata de uma substituição direta, mas de uma reconfiguração do que significa gerar impacto.

Esse deslocamento, no entanto, não ocorre de forma neutra. Ele tensiona estruturas internas, tanto nas organizações quanto nos indivíduos – e essa tensão, nas pessoas, é a que vejo como mais difícil de lidar. Durante muito tempo, a construção de carreira esteve baseada em uma lógica relativamente linear, na qual o aprofundamento em uma área específica aumentava progressivamente a relevância profissional. A aceleração da destruição criativa rompe essa linearidade ao introduzir descontinuidades frequentes, nas quais competências consolidadas podem perder parte de sua aplicabilidade em um intervalo de tempo muito menor do que o esperado. Esse fenômeno não elimina a importância da experiência, mas altera a forma como ela precisa ser mobilizada, exigindo um nível de atualização e recombinação que nem sempre é trivial.

É nesse ponto que a dificuldade se torna mais evidente. A resistência à mudança raramente está relacionada à rejeição da inovação em si, mas à tentativa de preservar coerência em um ambiente que se torna progressivamente mais instável. Quando aquilo que sustentava a identidade profissional começa a se deslocar, a reação natural é buscar referências conhecidas, prolongar modelos que ainda funcionam parcialmente e adiar decisões que implicam o abandono de práticas consolidadas. No entanto, a lógica da destruição criativa não oferece esse tipo de transição confortável. Ela exige escolhas antecipadas, muitas vezes contraintuitivas, em que o que precisa ser deixado para trás ainda não apresenta sinais claros de esgotamento.

Nesse momento, essa dinâmica é amplificada pela inteligência artificial, que introduz um novo tipo de ruptura ao avançar sobre atividades cognitivas. Diferentemente de ciclos anteriores, em que a automação estava concentrada em tarefas físicas ou repetitivas, a IA amplia sua atuação para áreas que envolvem análise, síntese e produção de conteúdo, alterando significativamente a relação entre esforço e resultado. Isso não apenas aumenta a produtividade, mas redefine expectativas, criando novos parâmetros de desempenho que rapidamente se tornam referência. O impacto disso não é apenas operacional, mas psicológico, ao gerar uma sensação contínua de defasagem entre o que se sabe fazer e o que passa a ser possível fazer.

Compreender esse processo não elimina o desconforto, mas altera a forma como ele é interpretado. Quando a destruição criativa é vista apenas como ameaça, a tendência é a paralisia ou a reação defensiva. Quando ela é compreendida como parte estrutural do sistema, abre-se espaço para uma postura mais ativa, baseada na observação contínua de onde o valor está sendo criado e de quais capacidades estão se tornando centrais. Isso exige uma mudança de foco: sair da preservação do que foi construído para a construção deliberada do que ainda precisa emergir.

Nessa situação, a maturidade não está em antecipar todas as mudanças – algo inviável diante da velocidade atual -, mas em desenvolver repertório para reconhecer padrões, testar novas abordagens e ajustar rotas com maior frequência. A destruição criativa deixa de ser um evento pontual e passa a ser um fluxo contínuo, no qual a capacidade de adaptação não pode ser acionada apenas em momentos de crise, mas precisa ser incorporada como parte do funcionamento cotidiano.

O que vem à tona, portanto, não é apenas uma transformação tecnológica, mas uma mudança na forma como indivíduos e organizações se relacionam com o próprio conceito de estabilidade. A ideia de um estado consolidado, em que processos, competências e modelos permanecem válidos por longos períodos, perde força diante de um ambiente em que a substituição é constante. Isso não implica instabilidade permanente no sentido negativo, mas uma nova lógica de equilíbrio, baseada na capacidade de se reconfigurar sem ruptura total.

Ao olhar para o presente com essa lente, fica evidente que a destruição criativa não é um fenômeno a ser evitado, mas um processo a ser compreendido. E, sobretudo, a ser vivido com maior consciência. Porque, mais do que determinar quais tecnologias vão prevalecer ou quais empresas vão liderar os próximos ciclos, ela define como cada profissional vai precisar, ao longo da sua trajetória, revisitar, ajustar e reconstruir a forma como gera valor em um mundo que não para de se reinventar.

Estamos deixando de ser profissionais que acumulam conhecimento para nos tornarmos profissionais que precisam, constantemente, redefinir como geram valor. E isso, quando você aceita, não te paralisa, te posiciona.

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Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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