Empreendedorismo

Um negócio escalável no interior do Brasil

Fora do eixo, um ex-frentista empreende uma franquia que cresce em alta velocidade com base em aprendizado
Augusto é Diretor de Relações Institucionais do Instituto Four, Coordenador da Lifeshape Brasil, Professor convidado da Fundação Dom Cabral, criador da certificação Designer de Carreira e produtor do Documentário Propósito Davi Lago é coordenador de pesquisa no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC-SP, professor de pós-graduação na FAAP e autor best-seller de obras como “Um Dia Sem Reclamar” (Citadel) e “Formigas” (MC). Apresentador do programa Futuro Imediato na Univesp/TV Cultura

Compartilhar:

Ponta Grossa, no interior do Paraná, é uma cidade de 350 mil habitantes conhecida pelas formações rochosas raras do Parque Estadual de Vila Velha e costuma frequentar o noticiário nacional principalmente por fatos raros, como o de que, em 2013, teve um ganhador da Mega-Sena que não foi retirar seu prêmio. Porém também é uma cidade que vem produzindo casos empresariais raros, como aprendi, recentemente, quando tive a oportunidade de visitar a sede da Odonto Excellence. Essa rede de clínicas odontológicas populares, fundada em 2010, é uma franquia que vem crescendo num ritmo impressionante – uma unidade nova a cada 72 horas –, são 1.200 unidades espalhadas por 20 Estados do Brasil, incluindo algumas capitais, e até fora das fronteiras, em Angola, em Portugal e no Paraguai.

A empresa é um bem-vindo caso de empreendedorismo interiorano típico, baseado em agressividade comercial e conhecimento do cliente, como o Magazine Luiza, e com gestão financeira responsável na retaguarda. Porém o que mais me chamou a atenção, e que vale compartilhar com os leitores de__ HSM Management__, é a sofisticação de alguns conceitos que a direcionam, ainda mais quando ficamos sabendo que seu fundador e CEO, Oséias Gomes, tem origem humilde: é filho de agricultores que foi trabalhar em um posto de gasolina e depois ser office boy de agência de banco. Oséias Gomes tem aquela capacidade de aprendizado que o século 21 nos pede para ter, que deveria ser a meta de todos nós.

O contexto ajuda, não há dúvida. Segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), franquias no segmento de saúde tendem a ocupar cada vez mais espaço no franchising nos próximos 30 anos. Encontrei um dado de 2021 até o terceiro trimestre, segundo o qual o setor de franquias deveria crescer 9% em 2021 sobre 2020 e o o segmento de saúde, beleza e bem-estar (onde se incluem as clínicas odontológicas), ao lado do segmento de casa e construção, apresentavam os desempenhos mais robustos, porque tinham registrado alta também em 2020 sobre 2019. Outra tendência, que a ABF, é o movimento de interiorização das franquias. Das 11 cidades que mais cresceram no cenário do franchising, apenas 4 não eram do interior, o que demonstra a busca de menores investimentos (custos de aluguel, marketing e mão de obra menores em comparação com as capitais) e maior competitividade (devido a uma concorrência mais baixa). Porém saber fazer a leitura do contexto também requer sofisticação.

Conversei com alguns colaboradores e o RH, visitei uma clínica onde conversei com o franqueado e um cliente que estava sendo atendido, e falei com o próprio Oséias. Ainda neste mês de fevereiro, o fundador da Odonto Excellence deve lançar seu segundo livro – Negócio Escalável, pela editora Gente. Identifico em seu trabalho toques das empresas exponenciais de Salim Ismail, das estratégias da base da pirâmide de C.K. Prahalad, da economia data-driven de que Thomas Davenport fala há 20 anos na __HSM Management__.

Acho que entendi, ao menos em parte, como funciona a capacidade de aprendizado do Oséias. Quando a gente tem um output específico pretendido, como resolver um problema de negócio específico, a gente busca os inputs específicos (soluções para o problema específico) para aplicá-los. Quando você tem outputs adicionais pretendidos, mais amplos, como escrever um livro sobre gestão, você consegue abrir mais e disciplinar mais a busca de inputs (de conhecimento, no caso) e vai processando-os e sistematizando-os também com disciplina. E, em vez de agir reativamente a um problema imediato , você passa a ser proativo em seu negócio. Esse é um processo de aprendizado poderoso – ensinar para aprender. Oséias escreve livros e vai constantemente se reinventando e criando novos diferenciais para continuar fazendo a diferença sobre a concorrência.

A seguir, pontuo algumas características que me chamaram a atenção:

__Empresa que aprende__. Parece-me que Oseias criou um sistema onde de fato a empresa vive o lifelong learning, o aprendizado pela vida inteira. Durante o período de trabalho os colaboradores tiram uma hora por dia para dedicar ao clube da leitura, com grupos de cinco a seis pessoas cada um dos colaboradores, trazem o resumo do dia anterior para falar com o restante das pessoas e trocam ideias de como colocar na prática. A empresa tem dentro de suas instalações, aula de espanhol para todo o time em turmas, inicial ao avançado (pelo jeito, a expansão latino-americana está só começando). Semanalmente existe o treinamento onde o próprio CEO capacita os franqueados.

Além disso, há uma universidade corporativa com treinamento para todas funções administrativas da franqueadora e também os treinamentos gerenciais para cada uma das funções existentes nas unidades franqueadas – e, segundo o CEO, esse é um dos grandes diferenciais.

Por último, a Odonto Excellence promove um encontro mensal com seis franqueados – eles se inscrevem e são selecionados para participar desse encontro, bem concorrido, porque ali trazem os desafios de suas unidades e recebem mentoria para resolvê-los e para alavancar seus negócios de modo geral.

__Empresa data-driven__. Sabemos que ter dados não é o que faz uma empresa ser orientada pelos dados, e sim tomar decisão com base nos dados. A Odonto Excellence desenvolveu um sistema de software proprietário que permite à gestão ter acesso a qualquer informação da empresa em tempo real, seja um dado do administrativo ou um dado específico de cada unidade. Com esse sistema, ele consegue monitorar os principais indicadores e metas cruciais para o negócio, quebra essa meta para cada individuo da organização e vai acompanhando – e decidindo no meio do caminho mudanças necessárias para a meta ser efetivamente alcançada.

Tem um detalhe aqui que me parece crucial, que Oseias dividiu em seu primeiro livro, Gestão Fácil: para os dados serem úteis de verdade, as empresas precisam ter a coragem de se desligar dos dados desimportantes, meramente burocráticos. O erro das empresas, segundo o fundador e CEO da Odonto Excellence, é criar muita burocracia desnecessária dificultando que o que é realmente importante seja acompanhado.

Dados, vale lembrar, também são fonte de aprendizado.

__Empresa comercialmente agressiva, B2B e B2B__. A agressividade nas vendas de franquias e na captura e atendimento do cliente final contribui muito para o crescimento exponencial. Falando primeiro do cliente final, nenhuma empresa é perfeita, é claro, mas nas clínicas da franquia o cliente faz o orçamento e decide como efetuar o pagamento, em quantas parcelas. E há um sistema de indicação segundo o qual cliente que trouxer novos clientes ganha prêmios e isenção do pagamento de algumas de suas parcelas, o que garante que o negócio continue crescendo. Isso faz com que as unidades estejam sempre vendendo novos tratamentos.

No B2B, o time de expansão usa essa máquina de aquisição de clientes do B2C, que eles dizem ver mais como máquina de geração de valor, como argumento de venda de novas.

INICIEI ESSE TEXTO dizendo que Oseias Gomes foi office boy de agência bancária e você deve ter se perguntado sobre como ele empreendeu. O ponta-grossense fez uma carreira em banco, onde se tornou gerente de negócios, onde teve empresas odontológicas entre os clientes. Com sua experiência, abriu uma consultoria que focou esse mercado e, quando identificou o gargalo de gestão e comercial que havia ali, resolveu empreender ele mesmo.

Compartilhar:

Augusto é Diretor de Relações Institucionais do Instituto Four, Coordenador da Lifeshape Brasil, Professor convidado da Fundação Dom Cabral, criador da certificação Designer de Carreira e produtor do Documentário Propósito Davi Lago é coordenador de pesquisa no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC-SP, professor de pós-graduação na FAAP e autor best-seller de obras como “Um Dia Sem Reclamar” (Citadel) e “Formigas” (MC). Apresentador do programa Futuro Imediato na Univesp/TV Cultura

Artigos relacionados

Todo fim de ano, o passado se reelege no seu orçamento

Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

A AGI já chegou? E se Ray Kurzweil estiver certo há mais tempo do que imaginávamos?

As declarações recentes dos líderes da OpenAI e da NVIDIA reacenderam uma das discussões mais importantes da era digital: a Inteligência Artificial Geral já é uma realidade? Ao conectar os avanços mais recentes da IA às previsões feitas por Ray Kurzweil décadas atrás, o artigo explora não apenas a evolução da tecnologia, mas também o desafio humano, organizacional e social de acompanhar uma transformação que pode estar acontecendo mais rápido do que imaginávamos.

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Cultura organizacional
25 de agosto de 2026 08H00
O artigo demonstra que a criatividade deixa de ser atributo exclusivo da inovação e passa a ocupar um papel central na capacidade das organizações de compreender problemas complexos e construir soluções que gerem valor no longo prazo.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up, futurista e especialista em sustentabilidade e live marketing.

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, User Experience, UX
24 de agosto de 2026 14H00
A antiga disputa entre e-commerce e lojas físicas perdeu sentido. O consumidor atual transita naturalmente entre ambientes digitais e presenciais, esperando uma experiência única, integrada e sem atritos. O artigo mostra por que o sucesso no varejo já não depende da força de um canal específico, mas da capacidade de conectar dados, tecnologia, atendimento e conveniência para construir jornadas fluidas e relevantes em todos os pontos de contato com a marca.

André Seibel - CEO do Circuito de Compras

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
24 de agosto de 2026 08H00
Existe uma crença silenciosa nas empresas de que profissionais experientes precisam ter opinião sobre tudo e discordar de quase todos. O problema é que posicionamento não é sinônimo de oposição. Neste artigo, o autor provoca uma reflexão sobre como a necessidade de marcar território pode comprometer relacionamentos, confiança e crescimento na carreira, e por que profissionais verdadeiramente influentes são aqueles que contribuem para a qualidade das decisões, independentemente de quem trouxe a ideia para a mesa.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
23 de agosto de 2026 13H00
As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Rui Piranda - Sócio-fundador da ForALL

4 minutos min de leitura
Marketing & growth
23 de agosto de 2026 08H00
Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

Evandro Monteiro - CEO da Origami Marketing e Eventos.

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de agosto de 2026 14H00
Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Caio Navarro - Fundador e CEO da consultoria Hand

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Bem-estar & saúde, Marketing & growth
22 de agosto de 2026 07H00
Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

Mayara Marcon - Head de Marketing na Lightsweet

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
21 de agosto de 2026 18H00
Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Rose Kurdoglian - Fundadora da RK Mentoring Hub

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de agosto de 2026 14H00
À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
21 de agosto de 2026 08H00
Por que a metáfora mais repetida do momento também é a mais mal compreendida pelas lideranças

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução