Estratégia, Cultura organizacional
6 minutos min de leitura

Uma empresa também pode praticar Yoga? O que os Yamas podem revelar sobre sistemas, políticas e decisões organizacionais

Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?
Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa. Desde 2000 atua em educação executiva e corporativa, palestras e mentoria para alta gestão. Professor da FGV e do Einstein em temas ligadas a liderança. Dedica-se a integrar o desenvolvimento humano e a consciência às práticas de gestão. É autor dos livros (1) Conexão em Ação: os 10 princípios do Yoga que transformam a sua liderança e (2) Competências Atemporais: 35 lições para o desenvolvimento pessoal e profissional.

Compartilhar:

Há organizações que possuem códigos de ética impecáveis, valores inspiradores nas paredes e discursos consistentes sobre respeito, confiança e valorização das pessoas. Ainda assim, convivem tranquilamente com políticas, processos e decisões que contradizem boa parte daquilo que afirmam defender.

Nem sempre existe má-fé. Às vezes, ninguém decidiu conscientemente agir de maneira injusta. Como se diz, “o buraco é mais embaixo” quando o sistema aprendeu a produzir incoerências que as pessoas passaram a considerar normais.

Uma regra existe, mas sua exceção vira rotina. Uma política promete determinada prática, mas a operação funciona melhor de outra maneira. Uma decisão financeiramente conveniente acaba transferindo custos para quem tem menos poder de negociação. Um indicador pode estimular comportamentos que contradizem os próprios valores corporativos. E, aos poucos, aquilo que seria considerado inadequado em uma relação passa a ser aceito quando ganha o nome de “processo”, “política” ou “necessidade do negócio”.

Não basta ter líderes éticos dentro de sistemas que produzem decisões antiéticas.

Foi pensando nisso que voltei aos Yamas e Niyamas – princípios descritos há mais de dois mil anos nos Yoga Sutras de Patanjali que abordo em meu livro Conexão em Ação: os 10 princípios do Yoga que transformam a sua liderança e que estão muito além da prática física normalmente associada ao Yoga.

Enquanto os cinco Yamas tratam essencialmente de nossa relação com o outro, os outros cinco Niyamas abordam as disciplinas intimas consigo mesmo. Tradicionalmente, são princípios para a vida humana. Mas há uma pergunta que merece ser feita: o que aconteceria se os utilizássemos também como lentes para observar nossas organizações?

Neste artigo, vou me concentrar nos Yamas. Sua principal função é nos ajudar a examinar a ética dos sistemas que construímos e sustentamos.

Ahimsa: quando o sistema produz violência sem precisar de pessoas violentas

Ahimsa é o primeiro princípio ético e costuma ser traduzido como não violência. Sua dimensão, entretanto, é muito mais ampla. Trata-se de reduzir o sofrimento que nossas ações produzem sobre os outros.

Nas organizações, costumamos procurar a violência nas pessoas: o chefe agressivo, o colega abusivo, a liderança tóxica. Mas existem formas de violência que não precisam de um agressor claramente identificável.

Metas impossíveis podem ser violentas. Processos deliberadamente burocráticos podem ser violentos. Ambientes que naturalizam jornadas excessivas podem ser violentos. Sistemas de avaliação que colocam pessoas permanentemente umas contra as outras podem produzir sofrimento mesmo quando todos os gestores envolvidos se consideram pessoas respeitosas.

Esse talvez seja um dos grandes desafios de Ahimsa aplicado às organizações: reconhecer que sistemas também produzem sofrimento eque boas intenções individuais não são suficientes para neutralizar estruturas ruins.

Satya: quando aquilo que está escrito deixa de ser verdade

Satya é o compromisso com a verdade. Nas organizações, talvez sua manifestação mais importante seja a coerência.

Toda empresa possui uma espécie de verdade declarada: seus valores, políticas, normas, compromissos e códigos de conduta. O problema começa quando outra verdade se instala silenciosamente no cotidiano. É o conhecido “oficialmente é assim, mas na prática funciona de outro jeito”. O famoso “jeitinho”

Quando uma norma estabelece uma coisa e a organização tolera sistematicamente outra, não estamos diante apenas de um problema operacional. Estamos diante de uma ruptura de Satya.

Políticas organizacionais são promessas e uma organização quando estabelece regras precisa decidir se pretende cumpri-las. Se determinada norma deixou de fazer sentido, que seja discutida, revista e comunicada com transparência. E o que corrói a confiança nas relações não é necessariamente mudar uma regra, mas manter uma regra no papel enquanto outra governa a realidade.

Asteya: existem muitas maneiras de tomar aquilo que não nos pertence

Asteya significa não roubar ou não tomar aquilo que não nos pertence.

Uma interpretação superficial poderia limitar esse princípio à apropriação material. Mas organizações podem se apropriar de recursos muito mais amplos e significativos do que dinheiro. Apropriam-se do tempo, disponibilidade, energia, atenção e, às vezes, até do descanso.

Quando uma empresa exige disponibilidade permanente sem reconhecê-la, transfere riscos unilateralmente para fornecedores, prolonga obrigações além do combinado ou utiliza sua posição de poder para impor condições que dificilmente seriam aceitas em uma relação equilibrada.

Nem tudo aquilo que pode ser imposto deveria ser imposto. Essa distinção é fundamental porque poder contratual e legitimidade ética não são exatamente a mesma coisa.

Existem decisões perfeitamente defensáveis em uma planilha e profundamente questionáveis quando observadas pela perspectiva das relações que produzem.

Brahmacharya: o exercício do poder também precisa de moderação

Este princípio é frequentemente associado à moderação e ao uso consciente da energia. Nas organizações, talvez possamos interpretá-lo como uma pergunta sobre o uso do poder, pois toda organização possui algum poder sobre seus diferentes públicos: empregados, fornecedores, parceiros, clientes e comunidades. Empresas maiores possuem naturalmente mais capacidade de estabelecer condições do que indivíduos ou organizações menores.

A questão não é eliminar essa assimetria, pois ela faz parte das relações econômicas. A grande questão é o que fazemos com ela.

Uma organização pode ter poder para impor determinada condição a um stakeholder e, ainda assim, decidir não o fazer.

Brahmacharya nos lembra que maturidade não está em exercer todo o poder disponível, mas em saber quanto poder uma situação realmente exige.

Talvez isso também seja governança.

Aparigraha: a dificuldade de não reter

Aparigraha é o princípio do não apego e da não possessividade.

É especialmente provocativo quando levado para um ambiente econômico estruturado justamente em torno da acumulação, da proteção de recursos e da busca permanente por resultados.

Empresas precisam gerar resultados. Precisam preservar caixa, administrar riscos e garantir sustentabilidade econômica. Nada disso está em discussão.

A questão aparece quando a preservação dos próprios interesses acontece sistematicamente pela transferência do custo para outros participantes da relação. Reter recursos, informações, decisões ou autonomia pode ser confortável para quem ocupa posições de poder. Mas toda retenção produz alguma consequência em outro ponto do sistema.

Aparigraha talvez nos convide a uma pergunta pouco habitual nas reuniões executivas: quanto daquilo que estamos protegendo para nós está sendo pago por outra pessoa?

No final, são sempre as pessoas

Uma empresa não pratica Yoga. Pessoas praticam. Organizações são “sistemas vivos”, mas não possuem consciência, compaixão ou senso de justiça. Pessoas possuem.

Peter Senge nos lembra que as “organizações só aprendem por meio de indivíduos que aprendem e que, sem aprendizagem individual, não existe aprendizagem organizacional”. Talvez possamos levar essa reflexão também para a conduta ética.

Sistemas, políticas e processos são construções humanas. Carregam escolhas, prioridades e formas de compreender as relações. E por isso, podem ser questionados e transformados.

Os Yamas não dão respostas para a gestão, descoladas da realidade. Eles oferecem critérios para quem toma as decisões.

E talvez seja essa a contribuição mais interessante do Yoga para as organizações: antes de perguntar quais valores uma empresa possui, observar em quais valores as decisões humanas estão se apoiando na prática. Tudo de bom!

Compartilhar:

Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa. Desde 2000 atua em educação executiva e corporativa, palestras e mentoria para alta gestão. Professor da FGV e do Einstein em temas ligadas a liderança. Dedica-se a integrar o desenvolvimento humano e a consciência às práticas de gestão. É autor dos livros (1) Conexão em Ação: os 10 princípios do Yoga que transformam a sua liderança e (2) Competências Atemporais: 35 lições para o desenvolvimento pessoal e profissional.

Artigos relacionados

Sua empresa precisa de um cargo ou de uma competência?

Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

O que CEOs e CFOs realmente avaliam nas reuniões de orçamento

Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

Quando a geopolítica entra pela porta da empresa

Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
26 de agosto de 2026 14H00
A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

Claudia Cavallini - Psicóloga, psicanalista e professora convidada da HSM

8 minutos min de leitura
Marketing & growth, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de agosto de 2026 08H00
Freelancers, consultores, creators e pequenas agências estão redesenhando a lógica de crescimento no marketing digital. Em vez de ampliar estruturas, apostam em tecnologia para expandir capacidade, ganhar eficiência e aumentar resultados. O desafio agora não é apenas fazer mais em menos tempo, mas construir operações capazes de escalar com inteligência, previsibilidade e qualidade.

Renan Caixeiro - Cofundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de agosto de 2026 14H00
O artigo mostra que inovação não é um destino nem um grande projeto isolado, mas um processo contínuo de testar hipóteses, aprender com evidências e evoluir com intenção estratégica.

Thomas Rebergue - Chief Business Officer da GINGA

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
25 de agosto de 2026 08H00
O artigo demonstra que a criatividade deixa de ser atributo exclusivo da inovação e passa a ocupar um papel central na capacidade das organizações de compreender problemas complexos e construir soluções que gerem valor no longo prazo.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up, futurista e especialista em sustentabilidade e live marketing.

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, User Experience, UX
24 de agosto de 2026 14H00
A antiga disputa entre e-commerce e lojas físicas perdeu sentido. O consumidor atual transita naturalmente entre ambientes digitais e presenciais, esperando uma experiência única, integrada e sem atritos. O artigo mostra por que o sucesso no varejo já não depende da força de um canal específico, mas da capacidade de conectar dados, tecnologia, atendimento e conveniência para construir jornadas fluidas e relevantes em todos os pontos de contato com a marca.

André Seibel - CEO do Circuito de Compras

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
24 de agosto de 2026 08H00
Existe uma crença silenciosa nas empresas de que profissionais experientes precisam ter opinião sobre tudo e discordar de quase todos. O problema é que posicionamento não é sinônimo de oposição. Neste artigo, o autor provoca uma reflexão sobre como a necessidade de marcar território pode comprometer relacionamentos, confiança e crescimento na carreira, e por que profissionais verdadeiramente influentes são aqueles que contribuem para a qualidade das decisões, independentemente de quem trouxe a ideia para a mesa.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
23 de agosto de 2026 13H00
As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Rui Piranda - Sócio-fundador da ForALL

4 minutos min de leitura
Marketing & growth
23 de agosto de 2026 08H00
Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

Evandro Monteiro - CEO da Origami Marketing e Eventos.

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de agosto de 2026 14H00
Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Caio Navarro - Fundador e CEO da consultoria Hand

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo