Dossiê HSM

Unidos por uma causa

Visão de longo prazo. Foco na gestão. Compromisso com a transformação. O que revelam experiências de colaboração que já fizeram a diferença nas áreas da educação e da saúde
Jornalista, autora de Petrobras: Uma história de orgulho e vergonha e vencedora do Prêmio Jabuti de Reportagem e Documentário em 2017.

Compartilhar:

A orientação chocou, inicialmente, as merendeiras de um grupo de escolas municipais de Teresina, no Piauí: além de preparar as refeições dos estudantes, elas deveriam pesar a comida que os alunos jogavam no lixo na hora do recreio. A tarefa foi repetida por alguns dias em algumas escolas da rede no final de 2018. Alguns funcionários ficaram contrariados, no primeiro momento. Acharam que o próximo passo seria a redução dos alimentos. De acordo com o economista Kleber Montezuma, secretário municipal de educação na época, o objetivo era outro. “Queríamos entender por que os alunos devolviam a comida. Se tinham servido em excesso ou se o problema era o sabor, o preparo dos alimentos ou até mesmo a apresentação, porque, dependendo do aspecto da comida, a criança não come mesmo”, afirma Montezuma. Depois da experiência da pesagem, a Secretaria levou duas chefs de cozinha a uma das escolas para que elas preparassem a merenda com exatamente os mesmos ingredientes utilizados pelas funcionárias da prefeitura.

O projeto de repaginar a merenda das 213 escolas da rede de Teresina foi paralisado em 2020 com o fechamento das escolas pela pandemia. O que interessa aqui, porém, é a abordagem do problema (o desperdício da merenda) pelo gestor público (a Secretaria de Educação) com foco na qualidade do serviço prestado à população. Desde 2017, Teresina é a capital brasileira com a melhor nota no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) nas séries do ensino fundamental. A média dos estudantes de 4º e 5º anos do ensino fundamental na rede municipal subiu de 3,8 em 2005 para 7,3 em 2019. A título de comparação, a média dos estudantes das mesmas séries na capital paulista passou de 4,3 para 6,3 no mesmo período.

No 8º e 9º anos do fundamental, a nota média dos estudantes de Teresina foi de 3,2 para 5,6 – ante 3,9 para 4,9 em São Paulo. Aqui, vale um parêntesis: Montezuma foi secretário municipal na capital piauiense por quatro vezes, sendo três delas na pasta da educação, sempre acompanhando o prefeito Firmino Filho, que comandou Teresina por quatro mandatos, o primeiro iniciado em 1997 e o último finalizado em dezembro de 2020 (Firmino faleceu em abril de 2021).

Ao longo desse período, a Secretaria de Educação trabalhou em parceria com várias organizações especializadas em educação – entre elas, o Instituto Ayrton Senna, o Instituto Qualidade no Ensino, a Fundação Lemann e o Instituto Alfa e Beto. Com essas, o objetivo foi qualificar os professores e os diretores, melhorar a gestão da escola e o material didático. Já o caso da pesagem da merenda foi uma das inúmeras ações realizadas entre a Secretaria de Educação e a ONG Comunitas, especializada em gestão pública e com a qual a Prefeitura de Teresina trabalha em parceria desde 2013. “Procuramos ajuda de fora, porque queríamos ganhar eficiência, mas tínhamos batido no teto: não conseguiríamos melhorar os serviços com os recursos que tínhamos, tanto financeiros quanto de gestão”, afirma Montezuma. “Precisávamos ter outros ângulos de visão para problematizar os nossos processos.”

## Governança compartilhada
A parceria com a Comunitas fez parte de um programa de eficiência realizado em todas as secretarias de Teresina. O trabalho incluiu a formação de um comitê de governança com empresários e executivos, que passaram a se reunir com todos os secretários. Nas reuniões, os secretários apresentavam os desafios de suas pastas, os recursos de que dispunham e os resultados que vinham alcançando. Os representantes do setor privado questionavam, criticavam e apresentavam sugestões. Todas as secretarias tinham metas de redução de custos, mas com o desafio de não perder qualidade do serviço. Houve mudança do sistema de vigilância em parte das escolas, substituição de lâmpadas por modelos mais econômicos e até a ideia da balança da merenda.

“A continuidade do grupo político, claro, é fator relevante para as transformações, para o bem e para o mal”, afirma Washington Bonfim, ex-secretário de planejamento e coordenação de Teresina, e responsável pela parceria com a Comunitas. Segundo ele, a evolução só acontece se a liderança estiver realmente comprometida com o processo de transformação. “O benefício das parcerias entre governos, empresas e terceiro setor é imenso, mas o líder do lado do setor público tem de estar disposto a trabalhar com transparência, com questionamentos, porque é preciso abrir as informações para os parceiros”, diz.

O Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch – M’Boi Mirim, inaugurado em 2008, na zona sul de São Paulo, é um exemplo de parceria público-privada, envolvendo o terceiro setor, que já dura 13 anos. A Prefeitura de São Paulo é responsável pelo aporte dos recursos financeiros, mas toda a gestão do dinheiro, dos funcionários, materiais e equipamentos é feita pelo Hospital Israelita Albert Einstein, em parceria com o Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” (Cejam), entidade filantrópica com experiência na administração de programas de saúde. O hospital atende moradores principalmente do Jardim Ângela e Jardim São Luís, dois dos bairros mais carentes da capital.

Esse tipo de parceria público-privada mantém praticamente todos os equipamentos de saúde da Prefeitura de São Paulo, mas a qualidade varia muito. No M’Boi Mirim, chega a atrair moradores de regiões distantes da cidade, como aconteceu com Daniel Nunes, de 31 anos, que mora em Pirituba, a quase 60 quilômetros do hospital. Nunes, que é professor de artes marciais, procurou o M’Boi Mirim em janeiro de 2020, por indicação de alunos que são médicos no Einstein. Yazmin, sua filha, na época com dois anos, vinha passando mal havia uma semana, sem que os médicos do convênio conseguissem resolver o problema. “Foi uma surpresa conhecer o hospital, o atendimento, a limpeza. Descobri que o atendimento de lá, que é público, é melhor que o particular”, diz Nunes. A criança tinha pedras na vesícula, fez tratamento por quase um ano e foi operada em fevereiro.

## Experimentação e inovação
Entre os vários arranjos possíveis de colaboração de impacto social está a parceria entre setor público e o terceiro setor, especificamente as Organizações Sociais (OSs), modalidade usada no caso do M’Boi Mirim, e que foi criada na reforma administrativa do ex-ministro Bresser Pereira, na década de 1990. “No Reino Unido, país que é líder em reforma gerencial do Estado, esse tipo de parceria serviu como um campo de experimentação, inovação e de flexibilização das regras de contratação pública para que os serviços alcançassem melhores resultados”, afirma Regina Pacheco, professora e coordenadora do mestrado profissional em gestão e políticas públicas da FGV EAESP. Por reforma gerencial, ela explica, entenda-se a administração pública com foco na qualidade do serviço prestado à população.

Uma das vantagens do modelo é dar aos órgãos públicos a flexibilidade e a agilidade de contratação de profissionais, materiais e equipamentos com os quais os gestores privados estão mais habituados. Pelo contrato de gestão do M’Boi Mirim, os funcionários trabalham em regime CLT e não é permitido, por exemplo, que haja buracos na escala de médicos, um clássico de hospitais que dependem de concursos públicos. Os equipamentos também têm prazo para ser consertados ou substituídos: assim que apresentam defeito. Isso só é possível porque os contratos de manutenção ou aquisições não seguem as burocracias das licitações públicas.

“Para que esse tipo de projeto dê certo, o agente público tem de se dotar de capacidades para conseguir se utilizar do modelo”, diz Pacheco, da FGV. Em outras palavras, ele precisa saber o que quer, como pedir, saber medir o serviço que vai contratar, acompanhar os resultados e medi-los. “Não existe parceria que dê certo sem o setor público ter capacidade de gerenciá-la. Fora que a flexibilidade tem de ser acompanhada de transparência, com prestação de contas.” Caso contrário, vai tudo por água abaixo, haja vista os casos de corrupção envolvendo OSs no Rio de Janeiro. “Quando é bem gerenciado dá certo. Quando não é, dá em desvio de recursos, corrupção, baixa qualidade de serviço. Mas isso não é um problema do modelo, mas das pessoas, dos gestores, dos governantes, que têm objetivos escusos e utilizam qualquer modelo para atingi-los.”

No caso do M’Boi Mirim, a parceria vem dando certo e atravessando gestões de partidos adversários. A decisão de tirar o hospital do papel ocorreu em 2005, durante a gestão José Serra (PSDB). A inauguração veio três anos depois, quando o prefeito era Gilberto Kassab (na época do DEM e atual PSD). Oito anos depois, em 2016, a capacidade do centro cirúrgico foi ampliada de seis para dez salas de cirurgia, durante a administração do petista Fernando Haddad. Em abril de 2020, o hospital ganhou 100 novos leitos para pacientes com covid-19, chegando a 514, e se tornou uma das maiores estruturas da América Latina dedicada ao tratamento da doença. A nova ala foi construída em um mês em uma parceria entre a Prefeitura e as empresas Ambev, Gerdau e o Hospital Israelita Albert Einstein. Após a pandemia, os leitos serão incorporados à operação regular do M’Boi Mirim, o que é importante para adequar o hospital à grande demanda regular de atendimento.

Compartilhar:

Artigos relacionados

2026 é o ano da disciplina com propósito

À medida que inovação e pressão por resultados se intensificam, disciplina com propósito torna-se o eixo central da liderança capaz de conduzir – e não apenas reagir.

2026 após o hype de 2025: Menos discurso, mais critério em IA

Não é uma previsão do que a IA fará em 2026, mas uma reflexão com mais critério sobre como ela vem sendo usada e interpretada. Sem negar os avanços recentes, discute-se como parte do discurso público se afastou da prática, especialmente no uso de agentes e automações, transformando promessas em certezas e respostas em autoridade.

Cultura organizacional
8 de janeiro de 2026
Diversidade não é jogo de aparências nem disputa por cargos. Empresas que transformam discurso em prática - com inclusão real e estruturas consistentes - não apenas crescem mais, crescem melhor

Giovanna Gregori Pinto - Executiva de RH e fundadora da People Leap

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de janeiro de 2026
E se o maior risco estratégico para 2026 não for uma decisão errada - mas uma boa decisão tomada com base em uma visão de mundo desatualizada?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

8 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
6 de janeiro de 2025
Com a reforma tributária e um cenário econômico mais rigoroso, 2026 será um divisor de águas para PMEs: decisões de preço deixam de ser operacionais e passam a definir a sobrevivência do negócio.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de janeiro de 2026
Inovar não é sinônimo de começar do zero. A lente da exaptação revela como ideias e recursos existentes podem ser reaproveitados para gerar soluções transformadoras - da biologia às organizações contemporâneas.

Manoel Pimentel - Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
2 de janeiro de 2026
Em 2026, não será a IA nem a velocidade que definirão as empresas líderes - será a inteligência coletiva. Marcas que ignorarem o poder das comunidades femininas e colaborativas ficarão para trás em um mundo que exige empatia, propósito e inovação humanizada

Ana Fontes - Fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República - CDESS.

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de janeiro de 2026
O anos de 2026 não será sobre respostas prontas, mas sobre líderes capazes de ler sinais antes do consenso. Sensibilidade estratégica, colaboração intergeracional e habilidades pós-IA serão os verdadeiros diferenciais para quem deseja permanecer relevante.

Glaucia Guarcello - CEO da HSM, Singularity Brazil e Learning Village

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de dezembro de 2025
Segurança da informação não começa na tecnologia, começa no comportamento. Em 2026, treinar pessoas será tão estratégico quanto investir em firewalls - porque um clique errado pode custar a reputação e a sobrevivência do negócio

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

2 minutos min de leitura
ESG
30 de dezembro de 2025
No dia 31 de dezembro de 2025 acaba o prazo para adesão voluntária às normas IFRS S1 e S2. Se sua empresa ainda acha que tem tempo, cuidado: 2026 não vai esperar. ESG deixou de ser discurso - é regra do jogo, e quem não se mover agora ficará fora dele

Eliana Camejo - Conselheira de Administração pelo IBGC e Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Aprendizado
30 de dezembro de 2025
Crédito caro, políticas públicas em transição, crise dos caminhões e riscos globais expuseram fragilidades e forçaram a indústria automotiva brasileira a rever expectativas, estratégias e modelos de negócio em 2025

Bruno de Oliveira - Jornalista e editor de negócios do site Automotive Business

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de dezembro de 2025
Automação não é sobre substituir pessoas, mas sobre devolver tempo e propósito: eliminar tarefas repetitivas é a chave para engajamento, retenção e uma gestão mais estratégica.

Tiago Amor - CEO da Lecom

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança