“Vai, Brasil!”
Essa foi uma das frases mais ouvidas por ocasião dos jogos da Copa.
Mas, mais uma vez, o Brasil não foi.
Como acontece em praticamente todas as edições do torneio, o país parou para acompanhar a Seleção, torcer, discutir escalações, compartilhar expectativas e reviver a esperança de mais um título. Em um país apaixonado por futebol, poucos eventos geram tamanho nível de envolvimento emocional, mobilização e sentimento de pertencimento. Durante os noventa minutos de uma partida decisiva, diferenças políticas, sociais, econômicas e ideológicas são temporariamente colocadas de lado. Milhões de brasileiros passam a compartilhar o mesmo objetivo, a mesma esperança e a mesma torcida.
Então, eu me pergunto: por que esse notável fenômeno não se reproduz com a mesma intensidade em outras esferas da sociedade? Imaginem se tivéssemos essa paixão obstinada para cobrar uma educação de ponta, para construir uma visão estratégica capaz de atravessar governos e gerações ou para destravar a nossa produtividade e tecnologia. Imaginem se torcêssemos pelo futuro do país com a mesma garra com que torcemos pela Seleção.
Mais do que os resultados dentro de campo, grandes competições esportivas costumam nos oferecer um espelho. Elas revelam nossa capacidade de mobilização coletiva, nossa disposição para acreditar em um projeto comum e o quanto somos capazes de nos unir em torno de um objetivo.
É justamente nesse ponto que o futebol nos provoca a refletir sobre o país que desejamos construir.
O Brasil possui uma extraordinária riqueza e diversidade cultural, étnica e regional. Possui uma das maiores biodiversidades do planeta, uma matriz energética privilegiada, abundância de recursos naturais, um agronegócio competitivo, uma posição geográfica estratégica e um povo reconhecido pela criatividade e adaptabilidade.
Diante de tantas vantagens, por que ainda patinamos para transformar potencial em desenvolvimento, produtividade, inovação e prosperidade? Talvez a primeira resposta doa, mas seja cultural: não fomos educados para pensar no longo prazo. Crescemos imediatistas. Existe, também, a urgência de compreender as transformações em curso, ler cenários com precisão e traçar estratégias para um amanhã complexo e competitivo que já bate à porta.
E essa lição de casa não diz respeito apenas aos governos. Ela é de todos nós. Começa dentro das nossas empresas, nas mesas dos conselhos, nas universidades, nas instituições e na própria sociedade. Para enxergar esse panorama completo, a verdadeira “big picture” do nosso lugar no mundo, o ponto de partida precisa ser um mergulho profundo no tabuleiro onde o jogo real é jogado: a geopolítica e a geoeconomia.
Desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, esses temas deixaram de ser mero “noticiário internacional” e passaram a figurar como fatores de risco que afetam diretamente o fluxo de caixa, o custo das matérias-primas e o acesso a mercados globais. Hoje, com as tensões envolvendo potências como os Estados Unidos e o Irã, novas tarifas norte-americanas e a aguardada ratificação do acordo entre União Europeia e Mercosul, o assunto virou debate obrigatório. Virou até conversa de bar.
Está evidente que as relações internacionais passam por profundas transformações. A busca por segurança energética, autonomia tecnológica e resiliência das cadeias de suprimentos está redesenhando fluxos comerciais, produtivos e de investimentos. Novos blocos de influência surgem, alianças históricas são revistas e a competição por recursos estratégicos se intensifica, reorganizando o poder e as cadeias globais de valor.
Além disso, as maiores economias do mundo têm tornado suas doutrinas e prioridades cada vez mais explícitas. Ao expressarem seus posicionamentos, enviam sinais claros não apenas aos seus cidadãos, mas também a parceiros comerciais, investidores, fornecedores e concorrentes.
Nesse contexto, o maior perigo para as organizações é a ruptura aliada à instabilidade. As empresas podem sofrer com a quebra nas cadeias de suprimentos e a consequente escassez de insumos estratégicos. Podem, também, ficar vulneráveis a sanções econômicas, barreiras técnicas e alfandegárias, tarifas punitivas, subsídios governamentais e práticas de dumping. Esse conjunto de fatores resulta em aumento de custos, perda de competitividade e, no limite, exclusão de mercados.
Mas há o outro lado da moeda: um horizonte repleto de oportunidades para a indústria, o agronegócio e o setor de serviços. Este momento singular de reorganização das cadeias globais de valor está provocando mudanças estruturais relevantes, consolidando tendências como nearshoring, reshoring e friendshoring.
Como em todo rearranjo de forças, surgem espaços para novos players. A busca de governos e grandes corporações por segurança, despertada pela pandemia, que escancarou fragilidades do sistema, cria mercados valiosos. Soma-se a isso a crescente disputa global por energia, minerais críticos, alimentos e tecnologias estratégicas.
Embora o Brasil não seja um beneficiário clássico do nearshoring, possui atributos ideais para estratégias de friendshoring e segurança de abastecimento. Nossa tradição diplomática de neutralidade, somada à abundância de recursos naturais, à matriz energética limpa e à liderança no agronegócio, nos posiciona como um parceiro estratégico evidente.
Para aproveitar essa oportunidade, entretanto, será fundamental fortalecer relacionamentos, ampliar a confiabilidade operacional e garantir a continuidade do fornecimento. A lógica tradicional do menor custo vem sendo substituída pela valorização da resiliência e da regionalização produtiva. Como vetor essencial de desenvolvimento e prosperidade, o comércio internacional viabiliza o acesso a insumos e tecnologias, impulsiona a escala de produção e atrai investimentos. Essa dinâmica gera um ciclo virtuoso de empregos, fomenta a inovação e eleva o padrão de qualidade e a competitividade.
Nesse sentido, o comércio exterior brasileiro foi recentemente remodelado para atender padrões internacionais, por meio do Acordo de Facilitação de Comércio da Organização Mundial do Comércio (OMC). Ferramentas e metodologias atuais asseguram previsibilidade e produtividade às operações de importação e exportação.
Paralelamente, diversos Regimes Aduaneiros Especiais, como Entreposto Aduaneiro, Drawback, RECOF, Admissão Temporária, Zonas de Processamento de Exportação, além do Programa OEA (Operador Econômico Autorizado), oferecem facilidades logísticas e benefícios financeiros capazes de reduzir custos e aumentar a competitividade.
Outro aspecto que merece atenção diz respeito às Trading Companies, que passarão por mudanças significativas com a Reforma Tributária. A principal vantagem histórica associada à arbitragem de ICMS perderá relevância com o novo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), desenhado para extinguir a guerra fiscal e deslocar a tributação para o destino do consumo.
Com isso, a decisão de utilizar uma trading deixa de ser predominantemente fiscal e assume um caráter estratégico, integrando-se à arquitetura da cadeia de suprimentos e à gestão de riscos. Vale a pena investigar esse recurso. Ressalto, contudo, que esses mecanismos não substituem uma estratégia mais ampla de competitividade internacional. Devem ser compreendidos como instrumentos de apoio, e não como a estratégia em si.
Voltando ao Brasil que todos desejamos para o futuro, há algo que me preocupa de forma particular: a velocidade com que transformamos conhecimento em produtividade real. Trata-se de um dos maiores gargalos das nossas organizações.
Habitualmente, citamos os desafios de atrair investimentos ou ingressar em cadeias globais de valor. Mas o verdadeiro desafio estratégico do Brasil está em desenvolver lideranças e pessoas capazes de aprender continuamente e traduzir esse conhecimento em inovação, produtividade e competitividade na ponta.
A esse desafio acrescento a necessidade imperativa de preservar a inteligência organizacional. Quantas empresas perdem conhecimento crítico todos os dias sem perceber?
Profissionais experientes se aposentam, processos são alterados e o conhecimento acumulado ao longo de décadas simplesmente desaparece. Não me refiro a procedimentos documentados, mas ao legítimo conhecimento tácito: aquele que permite antecipar os sinais fracos do mercado, realizar análises e projeções e tomar decisões difíceis diante do inédito.
É a capacidade de responder com segurança ao clássico questionamento: “What if?” Se o inesperado acontecer, o que faremos?
Esse patrimônio invisível e intangível ainda não possui uma linha específica no balanço patrimonial, mas faz toda a diferença no bottom line e pode representar uma das fontes mais robustas e sustentáveis de vantagem competitiva de uma organização. É ele que faz os verdadeiros golaços.
Sejamos críticos, mas também realistas: virar esse jogo exige investimentos consistentes em educação, qualificação profissional e capacidade de execução. Exige lideranças que pensem estrategicamente e empresas dispostas a aprender todos os dias. Essa engrenagem não depende apenas de políticas públicas. Ela se move dentro das nossas próprias organizações.
Voltando ao nosso querido futebol, as grandes competições esportivas nos lembram que talento bruto, sozinho, não garante vitórias. É necessário preparo, disciplina, estratégia, capacidade de execução e visão de longo prazo. São exatamente os mesmos elementos que diferenciam nações e organizações capazes de transformar potencial em resultados concretos.
Como dito, o Brasil tem recursos de sobra, criatividade e talento. A grande pergunta é se seremos capazes de transformar esse potencial em um projeto consistente de desenvolvimento, posicionando o país na economia do conhecimento das próximas décadas.
Afinal, gritar “Vai, Brasil!” durante uma Copa do Mundo é uma demonstração bonita de pertencimento. O verdadeiro desafio é manter esse compromisso vivo todos os dias, trabalhando para que o Brasil avance também fora dos gramados.
Vamos juntos?




