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Vibe Coding chegou. E o CEO adorou a demo. O problema vem depois

Este artigo desmonta o entusiasmo em torno do Vibe Coding ao revelar o verdadeiro desafio da IA: não é criar software com velocidade, mas operar, integrar e governar o que foi criado - em um ambiente cada vez mais complexo e crítico.
CIO da Tempo, com experiência em transformação digital, arquitetura de sistemas e governança de TI.

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Em algum momento dos últimos meses, quase todo CIO viveu uma versão da mesma cena: alguém da diretoria chegou com o laptop aberto, animado, mostrando um produto funcional construído em horas por uma IA. Sem reunião de requisitos. Sem sprint. Sem arquiteto. Só um prompt bem escrito e uma ferramenta que não hesita.

Por aqui também estamos testando uma estratégia de Vibe Coding que acredito ter real potencial  e em alguns meses teremos dois projetos em produção, com usuários reais. Então não estou escrevendo isso como cético. Estou escrevendo como alguém que usa a ferramenta e, por isso mesmo, sente a obrigação de ser honesto sobre o que ela não resolve.

O que as pessoas romantizam

Vibe Coding – o uso de IAs generativas para criar software a partir de linguagem natural, com mínima intervenção técnica com certeza capturou a imaginação do mercado por razões legítimas. A velocidade é real. A acessibilidade é real. A capacidade de transformar uma ideia em um protótipo funcional em horas, sem depender de um time de desenvolvimento, é uma mudança genuína na forma como produtos digitais podem ser concebidos.

O que se romantiza, porém, é o que acontece depois da demo.

Um protótipo que funciona numa tarde não é o mesmo que um sistema que opera com confiabilidade em produção. E a distância entre esses dois pontos é exatamente onde vive a maior parte do trabalho de TI.

A pergunta que o board está fazendo

O CIO pressionado hoje não enfrenta apenas um desafio técnico. Ele enfrenta um desafio de narrativa.

O board viu o protótipo funcionar. O CEO quer saber por que o time de TI leva meses para entregar o que uma IA fez em horas. É uma pergunta justa e merece uma resposta honesta, não defensiva.

A resposta honesta é: Vibe Coding resolve o problema da geração de código. Não resolve o problema de operar o que foi gerado.

Um sistema com 200 integrações legadas não se conecta via prompt. Auditoria de decisões automatizadas não se faz com entusiasmo. Conformidade com a LGPD não é opcional porque o desenvolvimento foi rápido. Disponibilidade em pico numa Black Friday, um lançamento, uma crise exigem arquitetura, não velocidade de geração. E quando algo dá errado, o regulador não aceita “a IA decidiu” como explicação.

Ninguém faz Vibe Compliance. Ninguém faz Vibe Resiliência.

O paradoxo da facilidade

Há uma tensão estrutural que o mercado ainda não processou completamente: quanto mais fácil fica criar software, mais complexo fica o ambiente que precisa sustentá-lo.

Cada aplicação gerada via Vibe Coding é mais um sistema no portfólio. Mais uma superfície de ataque. Mais uma dependência. Mais um ponto de falha potencial. A proliferação de software sem governança de ciclo de vida cria, a médio prazo, um passivo técnico que pode ser maior do que o benefício gerado pela velocidade inicial.

É o paradoxo do CIO moderno: a pressão para criar rápido aumenta ao mesmo tempo em que a tolerância para falhar diminui. O negócio quer as duas coisas simultaneamente e é papel do CIO ser honesto quando isso não é possível sem estrutura.

Um dos indicadores que pretendo acompanhar é justamente o “tempo médio entre falhas”: comparando aplicações desenvolvidas pelo método convencional com aplicações geradas via Vibe Coding. A hipótese não é que Vibe Coding falha mais – é que falha de formas diferentes, menos previsíveis, e que exige um novo modelo de monitoramento e resposta.

O que a velocidade exige de quem governa

A resposta a tudo isso não é frear a inovação. Organizações que ignorarem Vibe Coding vão perder velocidade competitiva real. A tecnologia está madura o suficiente para entregar valor, especialmente em contextos de baixa criticidade, MVPs, ferramentas internas e automação de processos com baixo risco regulatório.

A resposta é reconhecer que velocidade de geração e maturidade operacional são dimensões distintas – e que as confundir é o erro mais caro que uma organização pode cometer neste momento.

O CIO que entende isso não é o freio da inovação. É o arquiteto da velocidade sustentável: aquele que define com clareza onde a IA pode ir rápido sem criar risco disfarçado de progresso, e onde a velocidade precisa ser modulada por governança, segurança e resiliência.

Isso não é conservadorismo técnico. É estratégia.

O que muda no papel do CIO

Vibe Coding não elimina a necessidade de liderança técnica sênior, ela a transforma. O trabalho deixa de ser só construir e passa a ser avaliar, integrar, governar e sustentar o que foi construído com velocidade.

O CIO que souber fazer essa transição – que conseguir capturar a agilidade do Vibe Coding sem renunciar à resiliência operacional  vai ter uma vantagem competitiva real. Não por resistir à IA, mas por saber usá-la dentro de um modelo de operação que o negócio pode confiar.

O CEO adorou a demo. O trabalho do CIO começa depois dela.

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