Tecnologia & inteligencia artificial
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Você ainda decide – ou os algoritmos já decidiram? (A tecnologia está te moldando, e talvez você não tenha percebido)

Em um mundo onde algoritmos decidem o que vemos, compramos e consumimos, este artigo questiona até que ponto estamos realmente exercendo o poder de escolha no mundo digital. O autor mostra como a conveniência, combinada a IA, vem moldando nossas decisões, hábitos e até a nossa percepção da realidade.
Marcel Nobre é Empreendedor, Pesquisador, Professor e Speaker (SXSW e TEDx) de inovação, tecnologia e inteligência artificial. É fundador e CEO da BetaLab, uma edtech que desenvolve projetos de aprendizagem corporativa de forma inovadora e ultra customizadas para as maiores multinacionais do Brasil. É professor na HSM/Singularity, MIT e FIA Business School. É especialista convidado na CNBC Times Brasil, colunista na HSM Management e co-host do Podcast Trends News.

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Nos últimos 30 anos, o avanço tecnológico permitiu a criação de serviços e dispositivos que mudaram e moldaram completamente o comportamento humano e os negócios. É só lembrar de como você alugava um filme para assistir em casa naquela época, e como faz isso hoje. Que atire a primeira pedra quem nunca levou uma multa por ter esquecido de rebobinar uma fita cassete antes de devolvê-la à locadora. Jovens com menos de 30 anos, me desculpem pelo exemplo temporal, mas ainda bem que existe o Google ou o ChatGPT aí para ajudar a entender esses termos. Nos não tão longínquos anos 90, por diversas vezes você tinha que assistir ao que estava disponível na locadora, e não exatamente ao que queria. Hoje, você acessa seu streaming favorito e, depois de alguns minutos, desiste porque “não tem nada legal para assistir”, mesmo com catálogos como o da Netflix, que conta com mais de 7.500 títulos disponíveis no Brasil.

Percebe como, em apenas três décadas – o que não é absolutamente nada na história humana – nosso comportamento mudou completamente? Isso vale também para a forma como você pede comida, chama um carro por aplicativo (na época só havia rádio-táxi), faz compras, se locomove e por aí vai. Nosso corpo, biologicamente falando, não mudou absolutamente nada nesse período, continuamos com os dentes do siso e o dedinho do pé. Mas a forma como nos relacionamos com o mundo, aprendemos, consumimos, nos comunicamos e nos alimentamos mudou radicalmente.

E isso gerou um grande desencaixe entre a nossa percepção de tempo e a velocidade com que as coisas acontecem. O principal efeito colateral disso? Entramos em modo automático. Passamos horas rolando telas, aceitando termos de uso sem ler, escolhendo a melhor IA pelo desempenho e não pela forma como utiliza nossos dados, e absorvendo conteúdos definidos por algoritmos que decidem o que devemos assistir, comprar ou até considerar como realidade.

E é aí que mora o perigo.

“Você esta usando a tecnologia ou ela está moldando você?”

Steve Jobs foi um dos responsáveis por mudar a lógica digital com a criação do iPhone, que deixou de ser apenas um celular e se tornou uma extensão do nosso cérebro. Seus concorrentes seguiram o mesmo caminho, criando novas versões com pequenas variações, mas mantendo o mesmo modelo que nos tornou praticamente viciados e hiperconectados.

O mais curioso é que ele, que ajudou a popularizar o smartphone como conhecemos hoje, não permitia que seus filhos tivessem acesso aos mesmos dispositivos que nós entregamos aos nossos.

Neal Mohan, CEO do YouTube desde 2023, já afirmou que seus filhos têm uso controlado da plataforma. A ex-CEO Susan Wojcicki também restringia o acesso, permitindo apenas o YouTube Kids, com tempo limitado. Bill Gates, outro ícone da tecnologia, proibiu o uso de celulares antes dos 14 anos e durante as refeições.

Por que os líderes das maiores empresas de tecnologia limitam o uso dos próprios produtos dentro de casa? O que eles sabem que nós ignoramos?

A resposta é mais simples do que parece: tecnologia segue incentivos, e raramente esses incentivos estão alinhados ao bem-estar coletivo. A nossa atenção foi monetizada, mesmo que isso custe nossa saúde mental e nossas relações sociais.

“Tecnologias não são criadas para o bem estar coletivo, mas para a monetização de nossa atenção.”

Estamos o tempo todo gerando dados, seja pelos aplicativos que usamos ou pelos dispositivos que nos cercam: celulares, relógios inteligentes, carros conectados, assistentes virtuais, cartões de crédito e câmeras. Quando combinados, esses dados são capazes de prever comportamentos, moldar opiniões e influenciar desejos.

Se antes os dados serviam para te oferecer um produto, hoje eles moldam sua visão de mundo, e até influenciam decisões políticas.

Estamos trocando privacidade por conveniência.

O algoritmo do YouTube influencia cerca de 70% do conteúdo consumido na plataforma. Um estudo da Mozilla Foundation, que acompanhou 20.000 usuários por sete meses, mostrou que os usuários têm pouco controle sobre recomendações indesejadas, incluindo conteúdos sensíveis ou extremos.

Ou seja: o modelo de negócio prioriza engajamento, não necessariamente bem-estar.

“Os algoritmos não lhe diz o que pensar, mas ele influencia o que você vê. E o que você vê, influencia o que você pensa.”

A Netflix, com mais de 325 milhões de usuários, utiliza algoritmos (IA)  responsáveis por cerca de 80% do conteúdo assistido. Isso representa uma economia estimada de US$ 1 bilhão em retenção de clientes. Até as capas e descrições dos filmes são personalizadas para aumentar a taxa de clique em até 30%, de acordo com preferências de cada usuário.

A empresa tem tantos dados em tempo real, que consegue saber exatamente o que prende sua atenção, como podemos ver na imagem abaixo, que indica em qual episódio de cada série, as pessoas ficaram viciadas:


Se os algoritmos já escolhem boa parte do que assistimos, ouvimos e compramos, estamos nos tornando, em alguma medida, marionetes digitais. Tudo o que vemos, foi previamente filtrado e escolhido por alguém, isso está nos fazendo perder autonomia e poder de escolha. A conveniência em não precisar escolher, embrulhada como ultra personalização, cria uma realidade paralela para cada pessoa e remodela as escolhas humanas!

“A personalização fragmenta a realidade compartilhada e remodela as nossas escolhas.”

Existe uma obsessão pela eliminação da fricção. Mercados sem caixa, pagamento pela palma da mão, aparelhos que funcionam com comando de voz, lixeiras automáticas, robôs que limpam nossas casas, escovas de dentes elétricas, etc. Tudo em prol da facilidade e ultra conveniência.

Vivemos o Paradoxo da Conveniência, quanto mais fácil for, menos consciente é a decisão. Como nosso cérebro tende a economizar energia cognitiva, é mais fácil aceitar algo que não nos faça pensar. E isso também é muito conveniente para as empresas, pois se você não quer pensar, eles pensarão e escolherão por você.

Isso não é só sobre vender mais, é sobre criar desejos que antes não existiam.

Com a evolução exponencial da Inteligência Artificial, o mercado de vendas preditivas se aproxima de limites éticos. Através da análise de uma grande quantidade de dados dos usuários, encontram padrões, prevendo e ofertando sua próxima possível compra com altíssimo nível de assertividade.

Em uma palestra na China, vi o case de uma empresa que, após a análise de grande volume de dados, previam a próxima compra de cada cliente, enviando o produto para a casa da pessoa, mesmo que ela não tenha pedido. Ela poderia ficar com o produto e ter o valor debitado de seu cartão, ou simplesmente deixar lá para que a empresa recolhesse. A taxa de conversão? 70%! Independentemente da veracidade do caso (a fonte e nome da empresa não foram informados), o conceito por trás dele é real, e preocupante.

“A conveniência está substituindo a escolha. Quando pensar se torna esforço, os algoritmos decidem por você.”

Minha intenção não é dizer para você abandonar a tecnologia. Pelo contrário, ela é responsável por grande parte do avanço da sociedade. Mas, sem consciência de seus efeitos colaterais, corremos o risco de nos tornarmos humanos cada vez mais passivos.

E, nesse cenário, humanos robotizados serão substituídos por robôs humanizados.

E pra não te deixar com esse triplex na cabeça sem propor uma solução, vou compartilhar contigo os 4 A’s pra você retomar a sua agência digital:

Atenção: entenda como o sistema molda sua atenção, suas escolhas e seu comportamento. O conhecimento é o primeiro e mais poderoso passo para a mudança.

Arquitetura: redesenhe seu ambiente digital para que ele trabalhe a seu favor, e não contra você. Coloque “armadilhas” para que você use tecnologia com moderação.

Autonomia: escolha deliberadamente e de forma consciente o que irá assistir, ouvir, comer, e etc, em vez de reagir automaticamente. Vá além da sua zona de conforto.

Advogue/Apoie: você deve apoiar e exigir tecnologias que estejam alinhadas com o bem-estar humano, com seus interesses e valores. Não apenas a ferramenta mais rápida, melhor ou da moda. No fim, o maior poder que você tem como usuário, é escolher não usar.

A propósito, este artigo foi escrito 100% por um ser humano, sem qualquer uso de IA.

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Marcel Nobre é Empreendedor, Pesquisador, Professor e Speaker (SXSW e TEDx) de inovação, tecnologia e inteligência artificial. É fundador e CEO da BetaLab, uma edtech que desenvolve projetos de aprendizagem corporativa de forma inovadora e ultra customizadas para as maiores multinacionais do Brasil. É professor na HSM/Singularity, MIT e FIA Business School. É especialista convidado na CNBC Times Brasil, colunista na HSM Management e co-host do Podcast Trends News.

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