Tecnologia & inteligencia artificial
7 minutos min de leitura

Você ainda decide – ou os algoritmos já decidiram? (A tecnologia está te moldando, e talvez você não tenha percebido)

Em um mundo onde algoritmos decidem o que vemos, compramos e consumimos, este artigo questiona até que ponto estamos realmente exercendo o poder de escolha no mundo digital. O autor mostra como a conveniência, combinada a IA, vem moldando nossas decisões, hábitos e até a nossa percepção da realidade.
Marcel Nobre é Empreendedor, Pesquisador, Professor e Speaker (SXSW e TEDx) de inovação, tecnologia e inteligência artificial. É fundador e CEO da BetaLab, uma edtech que desenvolve projetos de aprendizagem corporativa de forma inovadora e ultra customizadas para as maiores multinacionais do Brasil. É professor na HSM/Singularity, MIT e FIA Business School. É especialista convidado na CNBC Times Brasil, colunista na HSM Management e co-host do Podcast Trends News.

Compartilhar:

Nos últimos 30 anos, o avanço tecnológico permitiu a criação de serviços e dispositivos que mudaram e moldaram completamente o comportamento humano e os negócios. É só lembrar de como você alugava um filme para assistir em casa naquela época, e como faz isso hoje. Que atire a primeira pedra quem nunca levou uma multa por ter esquecido de rebobinar uma fita cassete antes de devolvê-la à locadora. Jovens com menos de 30 anos, me desculpem pelo exemplo temporal, mas ainda bem que existe o Google ou o ChatGPT aí para ajudar a entender esses termos. Nos não tão longínquos anos 90, por diversas vezes você tinha que assistir ao que estava disponível na locadora, e não exatamente ao que queria. Hoje, você acessa seu streaming favorito e, depois de alguns minutos, desiste porque “não tem nada legal para assistir”, mesmo com catálogos como o da Netflix, que conta com mais de 7.500 títulos disponíveis no Brasil.

Percebe como, em apenas três décadas – o que não é absolutamente nada na história humana – nosso comportamento mudou completamente? Isso vale também para a forma como você pede comida, chama um carro por aplicativo (na época só havia rádio-táxi), faz compras, se locomove e por aí vai. Nosso corpo, biologicamente falando, não mudou absolutamente nada nesse período, continuamos com os dentes do siso e o dedinho do pé. Mas a forma como nos relacionamos com o mundo, aprendemos, consumimos, nos comunicamos e nos alimentamos mudou radicalmente.

E isso gerou um grande desencaixe entre a nossa percepção de tempo e a velocidade com que as coisas acontecem. O principal efeito colateral disso? Entramos em modo automático. Passamos horas rolando telas, aceitando termos de uso sem ler, escolhendo a melhor IA pelo desempenho e não pela forma como utiliza nossos dados, e absorvendo conteúdos definidos por algoritmos que decidem o que devemos assistir, comprar ou até considerar como realidade.

E é aí que mora o perigo.

“Você esta usando a tecnologia ou ela está moldando você?”

Steve Jobs foi um dos responsáveis por mudar a lógica digital com a criação do iPhone, que deixou de ser apenas um celular e se tornou uma extensão do nosso cérebro. Seus concorrentes seguiram o mesmo caminho, criando novas versões com pequenas variações, mas mantendo o mesmo modelo que nos tornou praticamente viciados e hiperconectados.

O mais curioso é que ele, que ajudou a popularizar o smartphone como conhecemos hoje, não permitia que seus filhos tivessem acesso aos mesmos dispositivos que nós entregamos aos nossos.

Neal Mohan, CEO do YouTube desde 2023, já afirmou que seus filhos têm uso controlado da plataforma. A ex-CEO Susan Wojcicki também restringia o acesso, permitindo apenas o YouTube Kids, com tempo limitado. Bill Gates, outro ícone da tecnologia, proibiu o uso de celulares antes dos 14 anos e durante as refeições.

Por que os líderes das maiores empresas de tecnologia limitam o uso dos próprios produtos dentro de casa? O que eles sabem que nós ignoramos?

A resposta é mais simples do que parece: tecnologia segue incentivos, e raramente esses incentivos estão alinhados ao bem-estar coletivo. A nossa atenção foi monetizada, mesmo que isso custe nossa saúde mental e nossas relações sociais.

“Tecnologias não são criadas para o bem estar coletivo, mas para a monetização de nossa atenção.”

Estamos o tempo todo gerando dados, seja pelos aplicativos que usamos ou pelos dispositivos que nos cercam: celulares, relógios inteligentes, carros conectados, assistentes virtuais, cartões de crédito e câmeras. Quando combinados, esses dados são capazes de prever comportamentos, moldar opiniões e influenciar desejos.

Se antes os dados serviam para te oferecer um produto, hoje eles moldam sua visão de mundo, e até influenciam decisões políticas.

Estamos trocando privacidade por conveniência.

O algoritmo do YouTube influencia cerca de 70% do conteúdo consumido na plataforma. Um estudo da Mozilla Foundation, que acompanhou 20.000 usuários por sete meses, mostrou que os usuários têm pouco controle sobre recomendações indesejadas, incluindo conteúdos sensíveis ou extremos.

Ou seja: o modelo de negócio prioriza engajamento, não necessariamente bem-estar.

“Os algoritmos não lhe diz o que pensar, mas ele influencia o que você vê. E o que você vê, influencia o que você pensa.”

A Netflix, com mais de 325 milhões de usuários, utiliza algoritmos (IA)  responsáveis por cerca de 80% do conteúdo assistido. Isso representa uma economia estimada de US$ 1 bilhão em retenção de clientes. Até as capas e descrições dos filmes são personalizadas para aumentar a taxa de clique em até 30%, de acordo com preferências de cada usuário.

A empresa tem tantos dados em tempo real, que consegue saber exatamente o que prende sua atenção, como podemos ver na imagem abaixo, que indica em qual episódio de cada série, as pessoas ficaram viciadas:


Se os algoritmos já escolhem boa parte do que assistimos, ouvimos e compramos, estamos nos tornando, em alguma medida, marionetes digitais. Tudo o que vemos, foi previamente filtrado e escolhido por alguém, isso está nos fazendo perder autonomia e poder de escolha. A conveniência em não precisar escolher, embrulhada como ultra personalização, cria uma realidade paralela para cada pessoa e remodela as escolhas humanas!

“A personalização fragmenta a realidade compartilhada e remodela as nossas escolhas.”

Existe uma obsessão pela eliminação da fricção. Mercados sem caixa, pagamento pela palma da mão, aparelhos que funcionam com comando de voz, lixeiras automáticas, robôs que limpam nossas casas, escovas de dentes elétricas, etc. Tudo em prol da facilidade e ultra conveniência.

Vivemos o Paradoxo da Conveniência, quanto mais fácil for, menos consciente é a decisão. Como nosso cérebro tende a economizar energia cognitiva, é mais fácil aceitar algo que não nos faça pensar. E isso também é muito conveniente para as empresas, pois se você não quer pensar, eles pensarão e escolherão por você.

Isso não é só sobre vender mais, é sobre criar desejos que antes não existiam.

Com a evolução exponencial da Inteligência Artificial, o mercado de vendas preditivas se aproxima de limites éticos. Através da análise de uma grande quantidade de dados dos usuários, encontram padrões, prevendo e ofertando sua próxima possível compra com altíssimo nível de assertividade.

Em uma palestra na China, vi o case de uma empresa que, após a análise de grande volume de dados, previam a próxima compra de cada cliente, enviando o produto para a casa da pessoa, mesmo que ela não tenha pedido. Ela poderia ficar com o produto e ter o valor debitado de seu cartão, ou simplesmente deixar lá para que a empresa recolhesse. A taxa de conversão? 70%! Independentemente da veracidade do caso (a fonte e nome da empresa não foram informados), o conceito por trás dele é real, e preocupante.

“A conveniência está substituindo a escolha. Quando pensar se torna esforço, os algoritmos decidem por você.”

Minha intenção não é dizer para você abandonar a tecnologia. Pelo contrário, ela é responsável por grande parte do avanço da sociedade. Mas, sem consciência de seus efeitos colaterais, corremos o risco de nos tornarmos humanos cada vez mais passivos.

E, nesse cenário, humanos robotizados serão substituídos por robôs humanizados.

E pra não te deixar com esse triplex na cabeça sem propor uma solução, vou compartilhar contigo os 4 A’s pra você retomar a sua agência digital:

Atenção: entenda como o sistema molda sua atenção, suas escolhas e seu comportamento. O conhecimento é o primeiro e mais poderoso passo para a mudança.

Arquitetura: redesenhe seu ambiente digital para que ele trabalhe a seu favor, e não contra você. Coloque “armadilhas” para que você use tecnologia com moderação.

Autonomia: escolha deliberadamente e de forma consciente o que irá assistir, ouvir, comer, e etc, em vez de reagir automaticamente. Vá além da sua zona de conforto.

Advogue/Apoie: você deve apoiar e exigir tecnologias que estejam alinhadas com o bem-estar humano, com seus interesses e valores. Não apenas a ferramenta mais rápida, melhor ou da moda. No fim, o maior poder que você tem como usuário, é escolher não usar.

A propósito, este artigo foi escrito 100% por um ser humano, sem qualquer uso de IA.

Compartilhar:

Marcel Nobre é Empreendedor, Pesquisador, Professor e Speaker (SXSW e TEDx) de inovação, tecnologia e inteligência artificial. É fundador e CEO da BetaLab, uma edtech que desenvolve projetos de aprendizagem corporativa de forma inovadora e ultra customizadas para as maiores multinacionais do Brasil. É professor na HSM/Singularity, MIT e FIA Business School. É especialista convidado na CNBC Times Brasil, colunista na HSM Management e co-host do Podcast Trends News.

Artigos relacionados

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Onda de recuperações judiciais acende alerta

Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, os impactos não ficam restritos ao seu balanço. Fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, empregos ficam ameaçados e a atividade econômica perde força, criando um efeito dominó que alcança empresas e consumidores em todo o país.

Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
9 de agosto de 2026 08H00
Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

Denilson Shikako - CEO e fundador da Fábrica de Criatividade

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de agosto de 2026 08H00
A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de agosto de 2026 14H00
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução