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Tarifaço e o marketing: como transformar impacto econômico em conexão com o consumidor

Em tempos de tarifas, volta de impostos e tensão global, marcas que traduzem o cenário com clareza e reforçam sua presença local saem na frente na disputa pela confiança do consumidor.
Carolina Fernandes (Caru) é executiva com mais de 20 anos de experiência em marketing e comunicação, com passagem por multinacionais, agências e universidades. É CEO da Cubo Comunicação, professora na PUC-RS, autora do livro "A Tecla SAP do Marketês" e host do podcast homônimo - em parceria renovada com o Pinterest -, além de colunista no Economia SP e ex-colunista da Exame. Caru alia estratégia, didática e autoridade na criação de conteúdo relevante para o ambiente B2B.

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O anúncio da tarifa adicional de 50% sobre alguns produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos movimentou o noticiário. Mas antes de sair aumentando preços ou mudando estratégia às pressas, vale lembrar: cerca de 44,6% das exportações ficaram de fora dessa medida, entre elas, aviões, celulose e suco de laranja. Ou seja, o impacto não é igual para todos os setores. O próprio governo brasileiro já indicou que vai levar o caso à OMC.

Para quem está no marketing, a questão central é: como transformar um tema macroeconômico, cheio de números e siglas, em algo que faça sentido para o consumidor comum? Esse é o ponto em que a comunicação deixa de ser apenas informativa e passa a ser estratégica.

O que realmente muda na vida das pessoas

O consumidor brasileiro é sensível a preço, sim, mas não vive só de desconto. Ele também valoriza qualidade, confiança e experiência de compra.

A pesquisa Tendências de Bens de Consumo 2024 confirma que custo pesa, mas o CX Trends 2025 mostra que atendimento, propósito e conveniência têm tanto peso quanto o valor na etiqueta.

A “taxa das blusinhas” é um bom exemplo: a cobrança de 20% sobre importações de até 50 dólares reduziu em 42% as compras internacionais já no primeiro mês. Resultado? Mais gente migrando para opções nacionais ou estoques locais, quando eles oferecem conveniência e qualidade no mesmo nível, ou até acima, dos importados.

Localismo 2.0: ser brasileiro além do discurso

O tarifaço reforça um movimento que já vinha crescendo: o localismo. Mas aqui não estamos falando de colocar uma bandeirinha na embalagem e tocar o hino nacional na propaganda. O novo “compre local” é sobre resolver problemas reais: ter peça de reposição no dia seguinte, cumprir prazo de entrega e resolver qualquer problema na língua do cliente, sem tradutor e sem robô.

O setor automotivo entendeu rápido: a volta dos impostos sobre elétricos e híbridos estimulou investimentos e produção de modelos híbridos flex no Brasil. A narrativa é de inovação e proximidade, e isso conecta.

Estratégia: transformar tarifaço em oportunidade

É hora de fazer do limão uma limonada (bem brasileira). Em períodos de pressão econômica, marcas inteligentes ajustam o foco para mercados e nichos menos impactados, onde o poder de compra se mantém. É jogar luz onde a demanda continua forte, em vez de gastar energia onde ela está mais fraca.

Outra adaptação é intensificar campanhas com foco em resultado mensurável, publicidade digital e conteúdo que converte. Isso dá mais controle sobre o investimento e permite corrigir rota rapidamente se algo não performar.

Startups e tech: global na ambição, brasileiro na entrega

Com investidores estrangeiros mais cautelosos, especialmente os americanos, startups e empresas de tecnologia precisam falar a língua da própria comunidade. Isso não significa perder visão global, mas incorporar referências locais e provar eficiência com números em real.

Suporte no Brasil, dados hospedados aqui e integração com o ecossistema nacional deixam a proposta mais tangível e mostram que a operação se mantém estável mesmo com mudanças externas.

Do discurso político para o carrinho de compras: soberania que o cliente sente

A palavra “soberania” ganhou os holofotes nos últimos anos, principalmente nos discursos políticos. Mas no marketing, ela precisa sair do palanque e entrar no dia a dia do consumidor. Não é sobre “hastear bandeiras”, é sobre resolver problemas reais.

Soberania no marketing é quando o cliente liga para o SAC e fala com alguém que entende seu sotaque. É quando a peça quebrou e tem reposição na mesma semana, não em três meses. É quando seus dados estão protegidos por leis brasileiras, e não por regulações que você nem consegue ler. Em tempos de instabilidade global, isso cria confiança, traz previsibilidade de custo recorrente e diferencia a marca.

O papel do marketing agora

O marketing precisa funcionar como o tradutor oficial dessa história. Isso significa:

  • Explicar impactos de forma simples e direta
  • Direcionar esforços para mercados mais estáveis
  • Mostrar valor além do preço
  • Ser transparente sobre prazos, origem e disponibilidade
  • Usar dados para embasar a narrativa e fortalecer a confiança


O tarifaço pode estar no noticiário como um movimento macro, mas, para o consumidor, ele se traduz em algo muito mais simples: quanto eu vou pagar, quando vou receber e quem vai me atender se eu precisar. Marcas que souberem responder a isso com clareza, consistência e proximidade vão sair desse cenário mais fortes, e mais conectadas ao seu público.

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