Cultura organizacional

Pressionar para agitar

Para ter alta performance, é preciso saber como se dá a química entre pressão e temperatura na sua empresa
Global CHRO da Minerva Foods e Board Member das startups DataSprints e Leo Learning. Sócio Fundador da AL+ People & Performance Solutions, empresa que atuo como Coach Executivo de CEOs formado pela Columbia University, Palestrante e Escritor. Conselheiro de Empresas certificado pelo IBGC, Psicólogo com MBA pela Universidade de São Paulo e Vanderbilt University com formação em RH Estratégico Avançado pela Michigan University. Executivo sênior com passagens em posições de Liderança Global e América Latina de áreas de Pessoas, Cultura, Estratégia e Atendimento ao Cliente em empresas como Neon, Dasa, Itaú Unibanco e MasterCard. Professor de Gestão de Pessoas do Insper e Professor convidado do MBA da FIA/USP. Colunista das revistas HSM Management e da Época Negócios.

Compartilhar:

Tem de pressionar! Dar o gás! Quem nunca ouviu frases como essa na vida dentro e fora da empresa? Creio que ouvi, pela primeira vez, nas aulas de química e física, no ensino médio, quando era preciso determinar o volume de um gás a uma determinada temperatura. Tanto que havia a sigla CNTP, de condições normais de temperatura e pressão.

E como pegamos muita coisa de outras áreas de conhecimento e incorporamos ao nosso dia a dia na empresa, também passamos a usar mais “pressão”, “gás”, resiliência (não esquecer) e CNTP. Neste caso, essas quatro letras significariam um ambiente ideal para uma ação. O que, neste mundo, não existe – a não ser o termo “tempestade ideal”, mas isso fica para outra hora.

Aliás, para evitar um cenário de nuvens carregadas e trovoadas nos negócios, muitos gestores acabam pesando a mão no que se refere à pressão. Lembrando que pressão é a razão entre a força que um corpo exerce em uma área qualquer. Ou pessoa.

E quando a pressão é grande demais, a temperatura pode esquentar. Lembrando, ainda, que temperatura tem a ver com o grau de agitação de partículas que formam um corpo. Podem ser moléculas ou átomos. Sim, ou pessoas também.

Com muita pressão, as coisas se agitam – para o bem e para o mal.

Para essa química ou reação acontecer é preciso cuidado.

Em uma grande organização em que trabalhei, “pressão sobre os executivos” era um traço cultural. Vou sair um pouco do universo da química para trazer uma referência do cinema… Você já deve ter visto, em algum filme antigo, a cena clássica de um condenado à morte, amarrado a um poste, olhos vendados, barba por fazer e um cigarro na boca (talvez seu último pedido), esperando um grupo de soldados dispararem suas armas. Pois era mais ou menos assim que cada executivo daquela empresa devia se sentir quando tinha de fazer alguma apresentação ao board.

Quer dizer, a barba tinha de estar feita ou bem cuidada. Também não haveria a venda, a não ser “as vendas”, muitas delas. E muito menos cigarro em ambiente corporativo…, mas a sensação de estar preso, amarrado, era real.

Sabendo dessa “fama”, certo dia fui para a frente do batalhão de fuzilamento, digo, o board. Essa sensação de estar preso começou no primeiro slide. Sim, porque eu não conseguia sair dele tamanha era a carga de perguntas, críticas e observações disparadas contra mim e que exerciam uma forte pressão sobre o apresentador. No caso, eu.

Eram três ou mais pessoas ao mesmo tempo, em cima, criticando. Só faltou alguém dizer “Pede pra sair, Adriano!”. Foram minutos de muita tensão.

Mas fui preparado e, para me defender do batalhão – digo, board – usei as únicas armas que eu tinha: razão e bom senso. E eles tinham as mesmas armas. E foi exatamente nelas que mirei.

Perguntei se eles me viam ali, naquela hora, como um executivo daquela empresa ou de um concorrente. Foi um tiro no alvo! Sim, porque se me viam como um profissional da concorrência, fazia sentido tanta pressão. Mas eu era parte da mesma organização que eles, buscava os mesmos resultados que eles, eu defendia os mesmos interesses que eles.

De que lado eles estavam ou me colocavam?

Talvez a pressão em momentos como aquele os tenha cegado, deixando passar boas ideias e oportunidades que foram fuziladas e ficaram caídas pelo caminho, dentro de um talento que não suportou o impacto. Quando a pressão é descabida, rompe-se a linha da civilidade e cria-se uma zona de falta de respeito, de xingamentos, de humilhação.

Críticas são bem-vindas, assim como uma dose de pressão, claro. Mas para que a química organizacional aconteça é preciso saber a dose certa e conhecer os elementos dessa tabela periódica corporativa: saber os limites de cada um de sua equipe, as potencialidades escondidas e, sobretudo, como acessá-las. Assim chegamos à alta performance!

Saber a dose de pressão certa fará com que a agitação das pessoas seja a ideal. Ideal para pressionar e desestabilizar a concorrência com produtos melhores, serviços melhores e pessoas e ideias melhores. Essa pressão pode ser maior.

Mas, no mundo corporativo, em meio a um cenário volátil, incerto, ambíguo, complexo e também frágil, ansioso, não-linear e incompreensível (a soma de vuca com bani), lidar com pessoas nas empresas (e fora delas também) não é algo simples. Não existem condições normais ou padronizadas de temperatura e pressão que nos ajudem nessa tarefa.

Vai depender muito do talento do líder e da sua capacidade de se relacionar com os demais. Para que essa química aconteça, proponho usar outra sigla, curiosamente igual a que está no início deste texto: CNTP. Será “Condições normais de tratar uma pessoa”.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Marketing & growth, Estratégia, Liderança
23 de junho de 2026 14H00
Uma meta mal definida não impulsiona, trava. Este artigo revela como metas mal calibradas podem desconectar equipes e comprometer resultados, mostrando que o verdadeiro desafio da liderança está em equilibrar ambição e viabilidade para sustentar desempenho ao longo do tempo.

Denise Joaquim Marques -Consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
23 de junho de 2026 08H00
Em organizações que cobram inovação, mas penalizam o erro, este artigo revela um paradoxo central: sem espaço para frustração e aprendizado, equipes deixam de evoluir, e a transformação que se busca nunca acontece de fato.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 15H00
Talvez o maior erro da inovação seja tentar adivinhar o futuro, em vez de entender o que já está diante de nós.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 09H00
Este artigo mostra como o avanço da IA e da computação em nuvem está redesenhando a eficiência operacional, e por que uma nova geração de gestão de custos se tornou estratégica.

Paulo Laurentys - Chief Commercial Officer (CCO) da A3Data

4 minutos min de leitura
Liderança
21 de junho de 2026 15H00
A partir de uma experiência em meio a mudanças estruturais no setor financeiro, este artigo mostra que, em cenários de alta complexidade, o papel da liderança vai além da operação, exigindo capacidade de sustentar cultura, alinhar expectativas e manter a confiança em meio à incerteza.

Victor Papi - General Manager da Transfeera

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
21 de junho de 2026 08H00
Pagar mais já não basta, médicos estão escolhendo onde trabalhar pelo “como”, não pelo “quanto”. Este artigo revela como a disputa por médicos qualificados está sendo redefinida por fatores estruturais, organizacionais e de experiência profissional.

Rafael Duarte - CEO e fundador do Grupo RD Medicine

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Tecnologia & inteligencia artificial
20 de junho de 2026 14H00
Se mais gente não significa mais resultado, o que ainda justifica equipes gigantes? Este artigo revela como a inteligência artificial está redefinindo estruturas, papéis e critérios de eficiência nas áreas de marketing e growth.

Brian Bittencourt - VP de Growth & Marketing da Woba

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
20 de junho de 2026 08H00
Mais de 92 mil pessoas foram demitidas em tech só nos primeiros meses de 2026, ao mesmo tempo em que big techs reportavam resultados recordes. O Gartner mostra que esses cortes não estão entregando ROI. O problema não é a tecnologia, é a intenção por trás dela.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

12 minutos min de leitura
Lifelong learning, Inovação & estratégia
19 de junho de 2026 14H00
Por trás de um dos reconhecimentos mais cobiçados da AWS, este artigo mostra que o verdadeiro diferencial não está em acumular certificações, mas em construir conhecimento consistente a partir da prática, da comunidade e da evolução contínua.

Alceu Conerado Neto - COO da Dati

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
19 de junho de 2026 08H00
A partir de uma cena cotidiana, este artigo expõe um erro recorrente nas organizações: confundir treinamento com preparo e transferir a curva de aprendizagem para o cliente, com impactos diretos na experiência e nos resultados.

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão