Existe um abismo entre parecer moderno e ser, de fato, eficiente. Nunca se falou tanto em Inteligência Artificial nas companhias brasileiras. E, paradoxalmente, nunca se investiu tão pouco nessa ferramenta, especialmente nos setores em que o dinheiro realmente ‘passa’.
Enquanto áreas como marketing experimentam modelos generativos, criam campanhas mais rápidas e testam novos formatos, o backoffice financeiro e fiscal — responsável por volumes bilionários, riscos reais e impacto direto no caixa — ainda depende, em grande parte, de planilhas, controles paralelos e processos manuais. O discurso evoluiu. A prática, nem tanto.
Esse descompasso entre ambição estratégica e base operacional não é percepção isolada. Dados recentes do Panorama do Contas a Pagar 2026 mostram que apenas 33% das empresas usam IA no dia a dia nesta área. Só 16% tiveram orçamento dedicado ao tema. Mais de 55% afirmam que não investem ou sequer têm previsão de investir. E mais da metade ainda depende fortemente de planilhas no backoffice.
O problema não é apenas a baixa adoção. É onde — e como — a tecnologia está sendo usada. Quando existe automação, ela costuma estar focada em registrar o passado: lançar, conferir, arquivar, reconciliar. O fluxo anda. A decisão continua parada. Digitaliza-se o processo, mas não se constrói inteligência para antecipar riscos, apoiar escolhas ou orientar o negócio.
O que isso cria, na prática, é uma ilusão perigosa: companhias que se declaram “data-driven”, “AI-ready”, mas que ainda precisam de planilha, validação manual e retrabalho para rodar o contas a pagar. Ambição estratégica sem base operacional sólida não escala. E, no backoffice, esse custo é invisível até o momento em que vira problema.
Erros recorrentes, pagamentos em duplicidade, vencimentos perdidos, dados inconsistentes, retrabalho constante. Em operações de alto volume, essas falhas não são exceção — são estatística. O mesmo Panorama, pesquisa destacada anteriormente, apontou que ineficiências operacionais e erros em processos financeiros podem consumir até 1% da receita anual de uma organização, um impacto que se acumula silenciosamente ao longo do tempo. A “IA de fachada” custa dinheiro, reputação e tempo do time. E custa algo ainda mais difícil de recuperar: capacidade analítica.
Existe ainda um paradoxo pouco discutido: as pessoas estão mais prontas do que os sistemas. O estudo citado mostra que 51% dos profissionais querem investir em IA e 39% apontam planejamento e estratégia como prioridades. O apetite por um backoffice mais analítico existe. O que falta não é apenas a decisão de investimento, mas também dados confiáveis, infraestrutura e integração sólida de ferramentas. Nem todo profissional de backoffice está preparado para atuar de forma analítica. E mesmo entre os que têm esse repertório, a travessia não é automática. Tecnologia de ponta apoiada em dados ruins, fragmentados ou pouco confiáveis não gera inteligência. Gera ruído. Automatiza erros. E aumenta a insegurança na tomada de decisão.
Sem dados íntegros, governados e acessíveis, a IA não acelera o pensamento, ela atrapalha.
O Brasil, inclusive, parte de uma posição única. Temos uma das infraestruturas fiscais mais digitais do mundo, com documentos altamente estruturados, dados abundantes e regras claras.
O problema é que boa parte das empresas sequer tem acesso consistente a essas informações — e, quando tem, elas não chegam de forma gerenciável, integrada ou confiável o suficiente para trabalhar a favor do negócio. Esses dados existem, mas seguem espalhados entre sistemas, e-mails e controles paralelos.
Sem organização, governança e integração, essa riqueza informacional não vira inteligência. Vira apenas mais uma obrigação a ser cumprida. E isso, sim, é um desperdício estratégico.
O futuro não é apenas digital. É inteligente. IA não pode ser tratada como vitrine, experimento isolado ou discurso de palco. Ela exige orçamento, integração de ponta a ponta, dados confiáveis e, acima de tudo, coragem para redesenhar fluxos.
Enquanto a solução for tratada como fachada, o backoffice seguirá operando no escuro. A pergunta não é se a IA importa, e sim o que ou quem está travando seu uso no setor hoje: dados, orçamento, cultura ou liderança. Inteligência de verdade exige decisão, investimento e a escolha clara de transformar o backoffice em centro de inteligência, não apenas em centro de custo.




