Carreira, Aprendizado, Desenvolvimento pessoal, Lifelong learning, Pessoas, Sociedade
5 minutos min de leitura

A grama do vizinho é mais verde. E é pra lá que eu vou.

"Tudo parecia perfeito… até que deixou de ser."
Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

Compartilhar:

Eles se conheceram num evento. Olharam-se de longe, se admiraram. Começaram a conversar, e deu match. Um encontro de propósitos, de valores, de objetivos. Então, ela sentiu que era ali que seria feliz. E ele, acreditava ter encontrado “a executiva dos seus sonhos”. Uma parceira para dividir a sala de reunião. Depois de alguns meses de paquera, vieram os votos: plano de carreira, desenvolvimento, liberdade para inovar. Assumiram compromissos, com promessas mútuas. Deu tão certo que veio o noivado: promoção, aumento, novos projetos. O futuro parecia tão promissor!

Mas, como em muitas histórias de amor, algo mudou. Pequenas frustrações viraram silêncios. O diálogo foi substituído por reuniões improdutivas. Confiança e liberdade deram lugar ao microgerenciamento. E assim, um dia, sem grandes brigas ou DRs, um dos lados anunciou: “Precisamos terminar. O problema não é você. Sou eu! Me apaixonei por um novo desafio.”
Essa história pode parecer exagerada, mas é mais comum do que parece. Tenho observado tantos executivos cada vez mais infelizes com suas empresas. E empresas, cada vez mais confusas. Ciclos intensos, mas sem longevidade. E a cada novo anúncio de “feliz por esse novo capítulo”, tem sempre uma história não revelada de uma ruptura difícil.

Zygmunt Bauman já nos alertava sobre os laços líquidos da sociedade contemporânea. Vivemos a instabilidade, a fluidez e a impermanência de compromissos passageiros e relações descartáveis. Estamos assombrados por um medo constante de perder e, por isso, não nos entregamos de verdade.

O mundo corporativo também se tornou líquido: instável, acelerado, impulsivo.

E o LinkedIn, virou uma série de amores perfeitos: todo mundo aparece sorrindo em novos começos, comemorando conquistas, postando fotos de equipes alinhadas e engajadas e de resultados incríveis de estratégias bem-sucedidas. Criamos versões editadas de nós mesmos, e nelas nos perdemos. Porém, no fundo, as pessoas estão vivendo uma certa crise existencial, disfarçada de movimentação de carreira.

Essa inquietação tem números. Segundo o Gallup State of the Global Workplace 2024, apenas 21% dos funcionários estão engajados no trabalho, uma redução de dois pontos percentuais em relação ao ano anterior, equivalente à queda observada durante o pico da pandemia de COVID-19. O custo econômico desse desengajamento é impressionante: uma perda de produtividade que gera um impacto negativo de US$ 438 bilhões à economia global. Estima-se que se os níveis de engajamento global aumentassem dos atuais 21% para 70%, o resultado seria um aumento de produtividade de US$ 9,6 trilhões, o que equivale a 9% do PIB global. Outro dado preocupante é que 60% dos trabalhadores afirmam estar em “quiet quitting”; ou seja, entregando o mínimo necessário, sem entusiasmo ou conexão real com o que fazem. Este é o maior índice de infelicidade no trabalho dos últimos anos.

OK, mas o que estamos realmente buscando? O que é a tal da felicidade?

Isso me faz lembrar das minhas aulas de Ética na ECA-USP, ministradas pelo brilhante professor Clóvis de Barros Filho, que me apresentou um livro pequeno, porém profundo: “A felicidade, Desesperadamente” do filósofo André Comte-Sponville. Ele diferencia o desejo (algo insaciável), da felicidade (que pode ser saciada) e fala que se seguirmos o desejo como motor da vida, sempre vamos querer mais (e nunca estaremos satisfeitos). A felicidade, segundo o autor, não é uma meta a ser conquistada, mas um estado que nasce da reconexão com o essencial. Ela pode surgir quando aceitamos o que já temos, sem estar presos à falta. Essa reflexão me fez pensar em quantos executivos seguem de empresa em empresa tentando encontrar “o lugar certo”, quando o que falta para ser feliz é olhar para dentro. A reconexão com sua essência, com suas motivações mais profundas. Talvez o problema não seja (só) a empresa, nem o gestor, nem o mercado. Mas o quanto as pessoas sabem realmente o que já tem, e não o que ainda estão buscando. Afinal, para Comte-Sponville “Ser feliz é saber que se é feliz, agora. O resto é apenas esperança ou lembrança.”

Afinal: a felicidade no trabalho pode ser atingida?

Para começar a responder a essa pergunta, precisamos começar com alguns movimentos fundamentais, como o redesenho do ambiente de trabalho e a revisão dos padrões de pensamento dos próprios líderes. Afinal, se a liderança é responsável por moldar o clima emocional das equipes (segundo o Gallup, 70% do engajamento está diretamente ligado ao gestor), é dela o papel de criar as condições para que a mudança seja desejada, não algo imposto ou forçado.

É nesse ponto que os aprendizados de Tali Sharot, neurocientista cognitiva, e Cass Sunstein, especialista em comportamento e regulação, se tornam especialmente relevantes. Em seu livro, “Olhe de novo: O poder de perceber o que sempre esteve ao seu redor”, os autores defendem que em vez de tentar transformar pelo medo ou pela pressão, líderes devem inspirar pela esperança. Em vez de controlar, devem oferecer autonomia. Em vez de criticar, devem reforçar positivamente.

Mas isso exige também um movimento profundamente humano: só quando as pessoas tiverem coragem de olhar de novo para si mesmas e de revisar suas próprias crenças e hábitos, poderão abrir espaço para decisões mais conscientes e conexões mais verdadeiras.

E a grama do vizinho? Pode até parecer mais verde. Porém, lembre-se sempre que a felicidade não é algo que se conquista no futuro, mas algo que se vive no presente.

Compartilhar:

Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

Artigos relacionados

Inovação virou desculpa para má gestão

Quando a inovação vira justificativa para desorganização, empresas perdem foco, desperdiçam recursos e confundem criatividade com falta de gestão – um risco cada vez mais caro para líderes e negócios.

Inovação & estratégia
7 de janeiro de 2026
E se o maior risco estratégico para 2026 não for uma decisão errada - mas uma boa decisão tomada com base em uma visão de mundo desatualizada?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

8 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
6 de janeiro de 2025
Com a reforma tributária e um cenário econômico mais rigoroso, 2026 será um divisor de águas para PMEs: decisões de preço deixam de ser operacionais e passam a definir a sobrevivência do negócio.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de janeiro de 2026
Inovar não é sinônimo de começar do zero. A lente da exaptação revela como ideias e recursos existentes podem ser reaproveitados para gerar soluções transformadoras - da biologia às organizações contemporâneas.

Manoel Pimentel - Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
2 de janeiro de 2026
Em 2026, não será a IA nem a velocidade que definirão as empresas líderes - será a inteligência coletiva. Marcas que ignorarem o poder das comunidades femininas e colaborativas ficarão para trás em um mundo que exige empatia, propósito e inovação humanizada

Ana Fontes - Fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República - CDESS.

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de janeiro de 2026
O anos de 2026 não será sobre respostas prontas, mas sobre líderes capazes de ler sinais antes do consenso. Sensibilidade estratégica, colaboração intergeracional e habilidades pós-IA serão os verdadeiros diferenciais para quem deseja permanecer relevante.

Glaucia Guarcello - CEO da HSM, Singularity Brazil e Learning Village

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de dezembro de 2025
Segurança da informação não começa na tecnologia, começa no comportamento. Em 2026, treinar pessoas será tão estratégico quanto investir em firewalls - porque um clique errado pode custar a reputação e a sobrevivência do negócio

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

2 minutos min de leitura
ESG
30 de dezembro de 2025
No dia 31 de dezembro de 2025 acaba o prazo para adesão voluntária às normas IFRS S1 e S2. Se sua empresa ainda acha que tem tempo, cuidado: 2026 não vai esperar. ESG deixou de ser discurso - é regra do jogo, e quem não se mover agora ficará fora dele

Eliana Camejo - Conselheira de Administração pelo IBGC e Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Aprendizado
30 de dezembro de 2025
Crédito caro, políticas públicas em transição, crise dos caminhões e riscos globais expuseram fragilidades e forçaram a indústria automotiva brasileira a rever expectativas, estratégias e modelos de negócio em 2025

Bruno de Oliveira - Jornalista e editor de negócios do site Automotive Business

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de dezembro de 2025
Automação não é sobre substituir pessoas, mas sobre devolver tempo e propósito: eliminar tarefas repetitivas é a chave para engajamento, retenção e uma gestão mais estratégica.

Tiago Amor - CEO da Lecom

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de dezembro de 2025
Reuniões não são sobre presença, mas sobre valor: preparo, escuta ativa e colaboração inteligente transformam encontros em espaços de decisão e reconhecimento profissional.

Jacque Resch - Sócia-diretora da RESCH RH

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança