Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
4 minutos min de leitura

A IA escreve cada vez melhor. Mas quem responde pela reputação?

Ferramentas generativas estão acelerando a produção de conteúdo nas áreas de comunicação e relações públicas. O desafio é que rapidez não substitui contexto, discernimento nem responsabilidade.
Fundadora e diretora-geral da Encaso Assessoria

Compartilhar:

A discussão sobre inteligência artificial na comunicação corporativa já passou da fase de discussão se vale a pena ou não usar essas ferramentas. A IA já está presente na rotina das equipes e os números mostram isso.

Segundo o levantamento State of AI in PR 2026, realizado pela Muck Rack com 564 profissionais de relações públicas, 76% já utilizam inteligência artificial generativa no trabalho. Entre eles, 74% recorrem à tecnologia para escrever e criar conteúdos e 86% para editar e aprimorar materiais.

Ao mesmo tempo, existe um freio nesse avanço: 98% afirmam que sempre ou frequentemente editam os textos produzidos pela IA. A ferramenta ganhou espaço na produção, mas ainda não ganhou autonomia sobre aquilo que é publicado.

O próximo passo para as agências de comunicação não está em ampliar indiscriminadamente o uso da tecnologia, mas em definir como utilizá-la sem transformar ganho de produtividade em risco de reputação.

Uma das primeiras decisões de uma equipe deveria ser separar as tarefas em que a IA pode atuar com mais liberdade daquelas que exigem supervisão rigorosa. Estruturar um briefing, organizar informações, sugerir títulos ou testar diferentes formas de apresentar uma ideia são atividades bastante diferentes de elaborar uma resposta para uma crise, interpretar a declaração de um executivo ou produzir um posicionamento sobre um tema sensível.

Quanto maior o potencial de impacto de uma mensagem, menor deveria ser a autonomia concedida à ferramenta, já que nem todos os conteúdos produzidos por IA têm o mesmo nível de risco. Um erro em uma primeira versão interna pode ser facilmente corrigido. O mesmo erro em um comunicado público, uma fala atribuída a um porta-voz ou uma informação enviada à imprensa pode ganhar outra proporção.

Os dados da Muck Rack mostram que a revisão humana já é uma prática disseminada. Mas revisar não deveria significar apenas corrigir gramática. A checagem precisa considerar informação, contexto e intenção.

É possível ter um texto factual e, ainda assim, uma comunicação inadequada. É nessa etapa que a revisão deixa de ser apenas edição e passa a ser uma proteção para a reputação.

Esse cuidado se torna ainda mais relevante diante dos dados da Reimagining Tomorrow 2026, pesquisa da Global Alliance for Public Relations and Communication Management com 536 profissionais de comunicação em seis regiões globais.

O levantamento mostra que 95,9% das organizações permitem o uso de IA, mas apenas 47% possuem uma estrutura formal de inteligência artificial responsável. Ou seja, a tecnologia avançou mais rápido do que as regras para utilizá-la.

A percepção sobre reputação reforça esse alerta: 60,3% dos participantes enxergam a IA como uma oportunidade reputacional, mas 56,1% afirmam que ela aumentou a exposição das organizações a riscos de reputação.

Para a comunicação corporativa, a discussão não pode ficar restrita ao treinamento sobre ferramentas. É necessário estabelecer responsabilidades: quem pode utilizar IA, que tipo de informação pode ser inserida, quais conteúdos precisam de aprovação adicional, quem verifica os dados e em quais situações o uso da ferramenta deve ser informado ao cliente.

A praticidade das ferramentas generativas também pode criar um problema: a facilidade de compartilhar informações restritas para obter uma resposta melhor. Um profissional pode inserir em uma ferramenta um briefing completo, informações ainda não divulgadas sobre um cliente ou dados estratégicos para pedir ajuda na elaboração de um conteúdo.

O estudo da Muck Rack mostra que esse cuidado já faz parte da rotina de muitos profissionais: 77% afirmam evitar inserir dados financeiros em ferramentas de IA e 69% evitam compartilhar informações de identificação pessoal ou materiais proprietários.

Outro ponto de atenção é a identidade. Quando a IA é utilizada para produzir grandes volumes de conteúdo sem uma orientação clara, existe o risco de a comunicação ficar parecida com a de outras organizações. Estruturas previsíveis, expressões recorrentes e um tom genérico podem produzir textos corretos, mas dificilmente ajudam uma marca a ser reconhecida.

Uma forma mais interessante de usar a tecnologia é inverter essa lógica. Em vez de pedir uma versão final, a equipe pode utilizá-la para testar argumentos, identificar pontos pouco claros, levantar possíveis objeções ou encontrar perguntas que ainda não foram respondidas. Assim, a ferramenta amplia o campo de possibilidades, mas a decisão sobre qual caminho representa melhor a organização continua sendo da equipe.

A inteligência artificial tende a ocupar cada vez mais espaço na rotina da comunicação. O ponto não é frear essa evolução, mas evitar que a facilidade de produzir conteúdo seja confundida com autorização para publicar qualquer coisa rapidamente.

Os dados mostram que os profissionais já incorporaram a tecnologia ao trabalho. O que ainda está em construção são os processos capazes de acompanhar essa adoção. Para as equipes de comunicação, isso significa estabelecer limites, revisar informações, proteger dados, preservar a identidade da marca e definir quem responde pelas decisões.

No fim, credibilidade não depende de uma comunicação que nunca utiliza IA. Depende de uma comunicação em que a empresa sabe quando confiar na ferramenta, quando questioná-la e, principalmente, quando assumir a decisão por conta própria.

Compartilhar:

Artigos relacionados

E se envelhecer não fosse apenas uma consequência do tempo?

Pesquisas recentes indicam que o envelhecimento biológico pode ser medido, acompanhado e, em determinadas dimensões, influenciado. A partir dessa nova compreensão, cresce o interesse por abordagens capazes de identificar riscos precocemente e promover trajetórias de saúde mais duradouras ao longo da vida.

Por que a IA se tornou membro essencial em equipes de manutenção preditiva?

A evolução da manutenção preditiva está levando a inteligência artificial para além da detecção de falhas. Sistemas multiagentes especializados começam a atuar como apoio para diferentes perfis profissionais, conectando análises técnicas, indicadores operacionais e recomendações de ação em um único fluxo de trabalho. O resultado é uma tomada de decisão mais rápida, contextualizada e alinhada às necessidades da operação.

Estamos dispostos a arriscar o futuro da humanidade pelo resultado no curto prazo?

Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

O papel dos lubrificantes nos 70 anos da indústria automotiva no Brasil

A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
21 de setembro de 2026 14H00
Da carta assinada por milhares de pesquisadores aos recentes pedidos de desaceleração feitos por líderes da OpenAI, Anthropic e DeepMind, cresce o debate sobre os riscos e os limites da inteligência artificial. O desafio talvez não seja decidir se devemos continuar avançando, mas descobrir como fazê-lo sem perder o controle do rumo que estamos escolhendo.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
21 de setembro de 2026 08H00
Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

8 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de setembro de 2026 14H00
Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

5 minutos min de leitura
Geopolítica
20 de setembro de 2026 08H00
A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos - energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva - que pode transformar sua posição internacional.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de setembro de 2026 14H00
A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

Matheus Fonseca - Fundador da Leapy

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de setembro de 2026 08H00
Profissionais de alto impacto já conseguem pesquisar, analisar, testar hipóteses e executar entregas com um nível de autonomia impensável há poucos anos. O problema é que muitas organizações ainda operam com estruturas, processos e planos de carreira desenhados para limitar exatamente esse potencial.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

8 minutos min de leitura
Liderança
18 de setembro de 2026 14H00
A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de setembro de 2026 08H00
Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

Marcus Granadeiro - Membro do RICS - Royal Institution of Chartered Surveyors (MRICS) e sócio-diretor do Construtivo

3 minutos min de leitura
Vendas, Liderança
17 de setembro de 2026 15H00
Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Carol Manciola - CEO da Conectas e autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e do recém-lançado Vendas Movem o Mundo.

7 minutos min de leitura
Marketing
17 de setembro de 2026 13H00
As principais lições para quem está entrando no mundo das buscas generativas e quer entender como marcas passam a ser encontradas, citadas e recomendadas pelas IAs

Clayton Melo - Jornalista, estrategista de inovação, GEO PR, storytelling estratégico e comunicador de futuros. Tem MBA em Marketing pela FGV, Master em Foresight e Design de Futuros pela ESPM e formação em Leadership for the AI Age (MIT Professional Education) e Multimedia Storytelling pela University of the Arts London. É diretor de IA, Foresight e Inovação da GBR.

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução