Inovação & estratégia
5 minutos min de leitura

A IA está revelando os problemas que sua empresa escondia

Sem maturidade informacional, a IA não elimina problemas, apenas os torna mais rápidos e mais difíceis de controlar.
CEO e fundador da BLR Data, consultoria pioneira em Governança de Dados no Brasil. Referência nacional, com mais de três décadas de experiência na área, é autor de dois livros sobre o tema e atua na DAMA Brasil.

Compartilhar:

A inteligência artificial colocou as empresas diante de uma situação curiosa: nunca foi tão fácil produzir respostas, análises, recomendações e automações, e nunca foi tão necessário perguntar se a organização sabe, de fato, do que está falando. A velocidade das novas ferramentas cria uma sensação de avanço, mas também pode esconder uma fragilidade antiga. Muitas empresas estão tentando sofisticar a inteligência sem antes amadurecer a informação.

O problema é que boa parte das organizações ainda mede avanço pela quantidade de ferramentas utilizadas, e não pela capacidade real de transformar IA em decisões melhores, processos mais confiáveis e ganhos sustentáveis. A adoção de tecnologia virou sinal de movimento, mas isso não representa necessariamente  maturidade. Em alguns casos, a empresa apenas sofisticou a interface do problema, sem resolver a desorganização informacional que continua existindo nos bastidores.

A IA não apenas utiliza os dados disponíveis. Ela amplifica a forma como a empresa organiza, interpreta e confia na própria informação. Quando essa base é frágil, a tecnologia não elimina o problema, mas, sim, dá escala a ele, gerando não apenas respostas incorretas como também prejuízo financeiro. 

Um modelo de crédito pode aumentar a inadimplência, uma seguradora pode precificar riscos de forma inadequada, um hospital pode tomar decisões com base em informações incompletas e um varejista pode desperdiçar oportunidades de venda por não conhecer corretamente seus clientes, e quanto maior o uso da inteligência sem governança, maior o potencial de amplificação desses impactos. 

Uma inconsistência que antes ficava restrita a um relatório pode passar a influenciar uma recomendação automatizada. Um conceito mal definido pode orientar uma análise aparentemente sofisticada. Um dado sem dono pode sustentar uma decisão que ninguém consegue explicar depois. Por isso, a maturidade da informação tornou-se um dos principais pré-requisitos da IA corporativa. A discussão não deveria começar apenas pela escolha do modelo, da plataforma ou do algoritmo, mas pela capacidade da organização de entender, qualificar, proteger e contextualizar os dados que pretende usar. Sem essa base, a IA pode produzir uma aparência de modernização, mas com fundamentos frágeis, com erros mais rápidos, em maior escala  e dificuldade de perceber por onde se começou.

Dados confiáveis não surgem por acaso. Eles são resultados de uma disciplina organizacional construída ao longo do tempo. Envolvem processos bem definidos, conceitos padronizados, responsabilidades claras, gestão de qualidade, metadados, arquitetura adequada, políticas de acesso, regras de uso, linhagem, segurança e governança. Envolvem também uma cultura na qual as áreas de negócio compreendem que dados não são apenas algo que a tecnologia armazena, mas ativos que precisam ser cuidados por quem conhece seu significado e seu uso no dia a dia.

A maturidade da informação começa quando a empresa consegue responder a perguntas aparentemente simples: quais dados são críticos para o negócio? Quem é responsável por eles? Qual é o significado dos principais conceitos utilizados nos processos e indicadores? Qual é o nível de qualidade aceitável para cada uso? Quais dados podem alimentar modelos de IA? Quais exigem restrição, proteção ou maior controle? E quais informações são confiáveis para sustentar decisões automatizadas ou recomendações geradas por algoritmos?

Quando essas respostas não existem, a empresa pode até avançar em experimentações com IA, mas terá dificuldade para escalar. Muitos pilotos parecem promissores em ambientes controlados ou com bases específicas. O desafio aparece quando a organização tenta levar essas soluções para processos reais, com dados sem os responsáveis claramente definidos, vindos de múltiplas fontes, regras de negócio diferentes, integrações complexas, exigências regulatórias, riscos operacionais e necessidade de confiança por parte dos usuários.

Além disso, a falta de maturidade da informação gera custos que nem sempre aparecem nos orçamentos dos projetos que envolvem a IA. Eles surgem no retrabalho das equipes, na correção de bases, na reconciliação manual de informações, na revisão de indicadores, na baixa adoção das soluções, na desconfiança das áreas de negócio e na dificuldade de provar valor. A empresa investe em tecnologia e IA, mas continua discutindo se o dado está correto e precisando voltar para resolver problemas básicos de governança, qualidade e responsabilidade.

Em muitas organizações, a IA tem servido como uma espécie de espelho da maturidade de dados. Onde a informação é bem gerida, ela encontra as melhores condições para gerar valor. Onde os dados são tratados de forma fragmentada e pouco governada, a IA expõe inconsistências que já existiam, mas que antes ficavam escondidas em planilhas, relatórios, integrações pontuais e decisões manuais.

A discussão sobre IA corporativa precisa sair da lógica exclusiva das ferramentas e tecnologias. Essas escolhas importam, mas não resolvem sozinhas a falta de maturidade informacional. Empresas que querem usar IA de forma relevante precisam investir também na base que sustenta essa jornada. Isso significa fortalecer a governança de dados, melhorar a qualidade das informações, organizar metadados, definir responsabilidades, revisar processos, preparar a arquitetura e criar critérios claros para uso seguro e responsável dos dados.

Essa discussão também precisa envolver a liderança. A maturidade da informação não é responsabilidade exclusiva da área de tecnologia, nem deve ser tratada apenas como etapa técnica dos projetos de IA. Ela exige decisões sobre prioridade, investimento, riscos, processos, responsabilidades e modelo de governança. Exige participação das áreas de negócio, patrocínio executivo e atuação coordenada entre dados, tecnologia, segurança, jurídico, riscos, compliance e inovação.

Também exige clareza sobre o papel do CDAIO (Chief Data and Artificial Intelligence Officer). Se a empresa pretende avançar de forma consistente em dados e inteligência artificial, precisa de uma liderança capaz de conectar maturidade da informação, governança, estratégia e geração de valor,  ajudando a transformar a ambição em IA em uma jornada estruturada, evitando que a organização avance apenas por iniciativas isoladas, dependentes de entusiasmo momentâneo ou da pressão por resultados rápidos.

Na prática, a corrida pela inteligência artificial ocorre simultaneamente à corrida pela maturidade da informação, que não deve ser vista como obstáculo à inovação. Pelo contrário, ela é uma condição para que a inovação seja sustentável. As empresas que compreenderem isso terão melhores condições de escalar a IA com segurança, consistência e valor. As que continuarem tratando dados como um detalhe técnico talvez até avancem em experimentações, mas dificilmente transformarão a IA em uma competência real de negócio. No máximo, terão ferramentas mais modernas para conviver com os mesmos problemas de sempre.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O Brasil precisa enfrentar o desafio de construir com mais eficiência

A construção civil está deixando para trás práticas marcadas por desperdícios e retrabalhos. O avanço de soluções industrializadas, novas tecnologias e modelos de gestão mais eficientes aponta para um novo cenário: construir com mais qualidade, menor impacto e maior previsibilidade.

Se o evento é sobre cultura, por que a decisão ainda é sobre logística?

À medida que os eventos se consolidam como ferramentas de cultura, engajamento e construção de relacionamentos, a escolha dos destinos deixa de ser uma decisão operacional. Este artigo explora como experiências, conexões humanas e identidade local estão redefinindo o papel dos encontros corporativos e transformando cidades em plataformas de desenvolvimento econômico e cultural.

Marketing & growth
6 de julho de 2026 16H00
Enquanto o networking superficial busca visibilidade, as conexões que realmente transformam carreiras nascem da credibilidade construída em projetos, desafios e relações pautadas pela confiança.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

6 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
6 de julho de 2026 09H00
Com a aceleração da inteligência artificial e a explosão de conteúdo, a liderança passa a exigir menos consumo de informação e mais capacidade de interpretar tendências, conectar contextos e tomar decisões em meio à complexidade.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
ESG
5 de julho de 2026 14H00
O maior risco do ESG não está no “E” nem no “S”, mas na fragilidade da governança que deveria sustentar ambos. Este artigo mostra como a NBR ISO 37301 ajuda organizações a transformar ética, compliance e gestão de riscos em evidências concretas de maturidade ESG.

Fernando Palamone - CEO da RT-One

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
5 de julho de 2026 09H00
Enquanto as marcas continuam disputando atenção nos feeds, as conversas que realmente influenciam percepções e decisões migraram para espaços mais fechados e menos visíveis. Este artigo mostra por que o futuro da relevância pode estar justamente onde os algoritmos não alcançam.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up

4 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança
4 de julho de 2026 14H00
A Psicologia Positiva desafia uma crença comum nas organizações: a de que líderes geram resultados principalmente corrigindo falhas. A ciência sugere outro caminho, fortalecer aquilo que já funciona para ampliar desempenho, engajamento e resiliência.

Valter Bahia Filho - Autor, palestrante e consultor educacional

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
4 de julho de 2026 08H00
A partir de casos reais do agronegócio, este artigo mostra por que decisões baseadas em análises isoladas tendem a falhar e como a integração de múltiplas variáveis pode transformar a gestão de risco, dentro e fora do campo.

Kallil Chebaro - CEO e Head de Produto na Agscore

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth
3 de julho de 2026 15H00
Se o cliente já sabe tudo, o que ainda falta ao vendedor? Este artigo mostra como a tecnologia expôs o vendedor despreparado e como isso mudou o jogo das vendas.

Mari Genovez - CEO da Matchez

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Comunicação, Estratégia
3 de julho de 2026 08H00
Se a sua mensagem interna viralizar amanhã, você sustentaria o que disse?

Ana Paula Soares - Fundadora e diretora-geral da Encaso Assessoria

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
2 de julho de 2026 14H00
A digitalização do pós-obra pode transformar operações, reduzir custos e fortalecer a experiência do cliente no setor imobiliário. Este artigo mostra que as construtoras podem transformar o momento da entrega das chaves em inteligência, eficiência e vantagem competitiva.

Jean Ferrari - CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
2 de julho de 2026 08H00
Seu maior risco digital pode estar no bolso do seu colaborador. Este artigo revela por que a gestão da frota móvel deixou de ser uma questão operacional e passou a ser uma decisão estratégica de segurança e eficiência.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo