Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
9 minutos min de leitura

A IA pode afetar positivamente a colaboração nas organizações?

Estudos recentes indicam: a IA pode fragmentar equipes - mas, usada com propósito, pode ser exatamente o que reconecta pessoas e reduz ruídos organizacionais.
Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor convidado em Masters de Liderança na Espanha e Mexico. Miguel é apaixonado e estudioso da Psicologia Positiva, convencido de que existe uma forma mais sustentável de fazer negócios e gerir empresas. No centro de sua atuação está a conexão de desafios estratégicos nas organizações com metodologias centradas nas pessoas. Com um Master Executivo em Liderança Positiva e Estratégia pelo IE - Instituto de Empresas - Madrid. Consultor implementando projetos de Identificação e Desenvolvimento de Talentos, formação e reestruturação de equipes através de Job Crafting, Team Crafting e mapeamento de Redes de Colaboração. Atendeu clientes de diferentes setores – financeiro, engenharia, indústria alimentícia, comércio, serviços e tecnologia.

Compartilhar:

Estou muito feliz em começar minha coluna onde falo sobre redesenho do trabalho e redes de colaboração, e em como colocar as pessoas no centro da estratégia.

Nesta primeira série de artigos, trago estudos e cases para refletir como equilibrar abordagens centradas nas pessoas, com ambientes saudáveis.

Vivemos em cenários cada vez mais complexos, incertos e acelerados pela tecnologia, e nesse ambiente colocar as pessoas no centro é cada vez mais necessário e cada vez mais desafiador. O World Economic Fórum recentemente publicou um material sobre o Futuro do Trabalho em 2030, desenhando potenciais cenários futuros, correlacionando a prontidão da força de trabalho em adotar as novas tecnologias e o impacto da IA: se será incremental ou realmente trará avanços exponenciais.

Pensando nessa correlação, foram sugeridos 4 cenários:

1- Progresso acelerado

A evolução exponencial da IA e uma força de trabalho preparada remodelando negócios: posições deixam de existir e outras são criadas em uma economia centrada na IA . O cenário é de humanos orquestrando IA agênticas. Existem desafios de criar redes de segurança aos trabalhadores, frames de governança e ética que estejam em dia com a velocidade da mudança.

2- A Era do deslocamento

Neste cenário, existe um descompasso grande entre a velocidade de mudança e a preparação das pessoas. Os mecanismos de reskilling e modelos educacionais não são efetivos. A IA agêntica acelera a produtividade, mas ao mesmo tempo gera mais desemprego, desconfiança e riscos institucionais.

3- Economia copiloto

Progresso incremental da IA com foco em aumentar o potencial humano e, não só em automação em massa. O Hype deu lugar a integrações pragmáticas com uma força de trabalho preparada, onde humanos apoiados por IA reformulam as cadeias de valor. Países e negócios que preparam infraestrutura, governança, e as pessoas absorvem melhor as mudanças.

4- Progresso estagnado

Um choque grande entre a prontidão da força de trabalho limita a adoção e avanços da IA. A produtividade não gera o impacto desejado, e há um gap grande entre economias e empresas com expertise em IA. Esse abismo de adoção é combustível para a desigualdade e uma economia com crescimento limitado.

Na minha perspectiva, estamos vendo esses diferentes cenários convivendo entre si. Um mix de uma força de trabalho não conseguindo acompanhar o ritmo, novidades que geram impactos positivos mudando indústrias, e soluções que não geram o impacto esperado trazendo bastante frustração.

Trago esses cenários como pano de fundo para evidenciar uma discussão importante ao longo desta série de artigos:

Afinal, como tudo isso tem afetado nosso comportamento em relação ao trabalho e as organizações?

Já sabemos do impacto negativo da IA em nossa capacidade cognitiva ; estudantes que escreveram artigos apoiados pela IA não lembram com a mesma clareza do conteúdo do que aqueles que não tiveram essa ajuda.

Também vemos recentemente o termo “Workslop”, onde as atividades ganham agilidade, mas a qualidade e precisão do trabalho caem gerando erros, pouco valor, ou inclusive valor negativo para as organizações.

Outra preocupação é a saúde mental dos colaboradores. Segundo uma pesquisa feita pela Gartner, 91% dos líderes de TI e CIOS dizem que pouco ou nenhum tempo é dedicado a estudar os comportamentos que são subproduto desta interação com a IA.

A lista segue com o impacto na segurança psicológica, na cultura da organização e na alta pressão aos colaboradores para obterem resultados a partir da tecnologia.

Mas e o lado positivo? Uma perspectiva otimista-realista:

A IA gerando um impacto positivo na cultura e na colaboração de uma organização.

Ainda que consigamos ver os ganhos individuais no uso da IA, existem poucos estudos sobre os impactos coletivos e no trabalho colaborativo, que representa boa parte do que fazemos nas organizações.

Este estudo recente feito pelo INSEAD procurou medir o impacto da IA generativa nas redes de conhecimento e colaboração nas organizações.

Este estudo abordou um time de 316 pessoas em uma organização, que faziam parte de 42 times. Parte do grupo tinha acesso a uma IA treinada com a base de conhecimento da organização, e o grupo controle seguiu suas atividades sem acesso ao modelo.

Foi mapeada a rede de conhecimento e colaboração previamente e posteriormente ao experimento e os insights foram muito interessantes.

A IA funcionou como “tradutora” do conhecimento técnico entre especialistas e generalistas. O diálogo entre especialistas e generalistas ficou mais fluído com o apoio da IA em traduzir de forma mais didática conhecimentos que podem ser mais áridos para áreas comerciais ou de marketing.

A IA potencializou o conhecimento existente na organização e deu mais evidência aos especialistas (eles se tornaram figuras mais centrais na rede). O público em geral conseguia navegar melhor na base de conhecimento, e os especialistas tinham seu trabalho anterior colocado em maior evidência, e isso estimulou que fossem mais buscados para questionamentos críticos e validações mais profundas.

Melhora das conexões ao reduzir ruídos e interações de baixo valor, houve uma quebra de silos (especialistas em geral ficavam mais isolados), e colaboradores buscando mais uns aos outros, e envolvidos mais em atividades que geravam valor e menos em interações de dúvidas básicas e ou processos burocráticos.

O impacto em diferentes papéis:

Especialistas: Estes não tiveram tanto impacto em produtividade, mas tiveram um incremento em visibilidade como validadores críticos do material gerado pela IA. Houve um aumento nas conexões e centralidade dos especialistas e seu trabalho e conhecimento ficou mais em evidência.

Generalistas: Para os generalistas houve um aumento significativo em produtividade, com um aumento de capacidade de gestão de 12 para 16 projetos.

As atividades de síntese e rotineiras foram aumentadas (relatórios, resumos de status de projeto automatizados ou acelerados) e com isso sobrou mais tempo para coordenação e integração (generalistas expandiram suas conexões).

Imagem das redes de conhecimento e de colaboração após experimento:

Algumas considerações importantes:

Não estamos falando da adoção isolada da IA genérica a nível individual, estamos falando de uma IA baseada nos conhecimentos existentes na organização, o que implica o envolvimento ativo dos colaboradores na co-construção e revisão dos conhecimentos e processos na organização.

Loggi: uma referência prática no Brasil.

A Loggi é um dos primeiros unicórnios brasileiros que contou com soluções integradas de logística. Além da intermediação entre agentes logísticos, ela possui seus próprios centros de distribuição.

Conversei com a Natália Franco gerente de RH, cultura, liderança e transformação da Loggi, que esteve à frente do projeto Inovando com Inteligência que engajou 299 colaboradores da empresa. O projeto foi agraciado ano passado com o prêmio ThinkWork 2025.

Chamei-a pela similaridade com o desenho de estudo feito pelo INSEAD, buscando entender a percepção de impacto nos elementos de integração e colaboração entre as áreas.

Uma das coisas mais interessantes é que o treinamento não era mandatório, e era aberto a todos os colaboradores. Uma vez dada a base inicial de IA aos participantes, o foco foi em consolidar a cultura e criar um ecossistema de aprendizagem, muito mais que do somente realizar capacitações técnicas.

“Depois que fizemos essa capacitação para as áreas que tinham interesse, vimos que o foco não era uma formação ou um treinamento, precisávamos gerar um ecossistema de aprendizagem porque as ferramentas mudam todos os dias, as coisas mudam a todo o momento, e que para que as pessoas se sintam encorajadas e seguras a usar IA, o ponto era fazer com que o tema permeasse com força a nossa cultura.” – comenta Natália.

As discussões sobre IA começaram a fazer parte das reuniões “All hands” envolvendo a alta liderança de diversas áreas.

Um ponto interessante é que ainda que TI e Segurança de informação participassem para garantir o bom uso e o compliance adequado na adoção, o projeto era bastante descentralizado, permitindo que pessoas não técnicas construíssem seus agentes, resolvendo as dores que vivem no dia a dia.

“Formamos um grupo que chamamos de chapter com a apoio de tecnologia para capacitação de forma que a execução desses agentes não fique centralizada em tecnologia e assim ganhar escalabilidade e agilidade. Na verdade, quem é capaz de desenvolver a solução é quem está na dor ali, no dia a dia do problema.”, afirma Natalia.

Diferente do estudo, no caso da Loggi não existem ainda métricas para entender como as áreas e pessoas conseguem ter mais visibilidade de seus conhecimentos e colaborar melhor, mas existem evidências claras de que isso acontece, conforme os exemplos a seguir.

Exemplo 1: Uma pessoa da RH desenvolveu uma solução em Python, sendo que nunca tinha programado, e aí outras pessoas de outras áreas foram buscar essa pessoa, que é um analista júnior, que ainda que não sendo técnica, conseguiu desenvolver material e compartilhar com outros times que tinham dores similares. Já existem pessoas virando referência no ecossistema organizacional.

Exemplo 2- O fato de as conversas sobre IA serem compartilhadas, ajudou não só a disseminar o conhecimento e automações, mas também a aproveitar melhor os recursos internos. Uma automação iria liberar o trabalho feito hoje por duas pessoas em uma área. Outra área precisava ampliar o seu time. O ecossistema de alguma forma ajudou no processo de mobilidade interna desses colaboradores.

Exemplo 3:  A redução de mais de 200 horas em uma atividade de conferência de documentos nos armazéns da Loggi, que estava propensa a erros e retrabalho, com a automação, liberou tempo de colaboração e contribuição de qualidade para as pessoas.

Conclusão:

Alguns aprendizados importantes: tanto no estudo da INSEAD como no case da Loggi, o foco foi fazer com que as pessoas, suas experiências e seus conhecimentos fossem protagonistas da adoção da IA na organização.

A ideia de construir a partir do potencial existente, e com a mentalidade de ecossistema de aprendizagem colaborativo, colocou pessoas em evidência, dando destaque a especialistas atuais, acelerando o trabalho dos generalistas e gerando novas referências conforme as soluções vão sendo criadas de forma coletiva.

Quero saber de você leitor, leitora: na sua percepção, qual o impacto  da complexidade e tecnologia nos comportamentos individuais e  coletivos nas organizações?

Em 15 dias trago mais um artigo sobre como colocar as pessoas, seu potencial e seu bem-estar no centro da estratégia dos novos desenhos e modelos de trabalho.

Um abraço!

Compartilhar:

Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor convidado em Masters de Liderança na Espanha e Mexico. Miguel é apaixonado e estudioso da Psicologia Positiva, convencido de que existe uma forma mais sustentável de fazer negócios e gerir empresas. No centro de sua atuação está a conexão de desafios estratégicos nas organizações com metodologias centradas nas pessoas. Com um Master Executivo em Liderança Positiva e Estratégia pelo IE - Instituto de Empresas - Madrid. Consultor implementando projetos de Identificação e Desenvolvimento de Talentos, formação e reestruturação de equipes através de Job Crafting, Team Crafting e mapeamento de Redes de Colaboração. Atendeu clientes de diferentes setores – financeiro, engenharia, indústria alimentícia, comércio, serviços e tecnologia.

Artigos relacionados

Como promptar a realidade

Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento – e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Na era da AI, o melhor talento pode ser o maior risco

Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais- introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Por que os melhores líderes não lutam para vencer

Este é o primeiro artigo da nova coluna “Liderança & Aikidô” e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

De UX para AX: como a era dos agentes autônomos redefine o design, os negócios e o papel humano

Com a ascensão dos agentes de IA, nos deparamos com uma profunda mudança no papel do designer, de executor para curador, estrategista e catalisador de experiências complexas. A discussão de UX evolui para o território do AX (Agent Experience), onde o foco deixa de ser somente a interação humano-máquina em interfaces e passa a considerar como agentes autônomos agem, decidem e colaboram com pessoas em sistemas inteligentes

Liderança
11 de abril de 2026 08H00
Quando a empresa cresce, o modelo mental do fundador precisa crescer junto - ou vira obstáculo. Este artigo demonstra que criar uma empresa exige um tipo de liderança. Escalá‑la exige outro.

Gustavo Mota - CEO do Lance

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de abril de 2026 15H00
Enquanto o Brasil envelhece, muitas empresas seguem desenhando experiências para um usuário que já não existe. Este artigo mostra que quando a tecnologia exige adaptação do usuário, ela deixa de servir e passa a excluir.

Vitor Perez - Co-fundador da Kyvo

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
10 de abril de 2026 08H00
Este artigo mostra que o problema nunca foi a geração. Mas sim a incapacidade da liderança de sustentar a complexidade humana no trabalho.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Marketing & growth
9 de abril de 2026 14H00
À medida que a tecnologia se democratiza, a vantagem competitiva migra para a forma de operar. Este artigo demonstra que como q inteligência artificial já é comum, o diferencial agora está em quem sabe transformá‑la em sistema de crescimento.

Renan Caixeiro - Co-fundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia, Liderança
9 de abril de 2026 07H00
O mercado não mudou as pessoas. Mudou o jeito de trabalhar. Este artigo mostra que a verdadeira vantagem competitiva agora não está no que você faz, mas no que você sabe delegar - e no que não delega.

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
8 de abril de 2026 16H00
Quando a experiência falha, o problema raramente é tecnologia - é decisão estratégica. Este artigo mostra que no fim das contas o cliente não quer encantamento, ele quer previsibilidade, simplicidade e pouco esforço.

Ana Flávia Martins - CMO da Algar

4 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança
8 de abril de 2026 08H00
O bar já entendeu que o mundo virou parte do jogo corporativo. Conflitos, tarifas e decisões políticas estão impactando negócios em tempo real. A pergunta é: o CEO entendeu ou ainda acha que isso é “assunto de diplomata”?

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

10 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
7 de abril de 2026 16H00
Executivos não falham no cenário internacional por falta de competência, mas por aplicar decisões no código cultural errado. Este artigo mostra que no ambiente global, liderar deixa de ser comportamento e passa a ser tradução

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

7 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Marketing & growth
7 de abril de 2026 08H00
Se a IA decide quem indicar, um dado se impõe: a reputação já é lida por máquinas - e o LinkedIn emergiu como sua principal fonte.

Bruna Lopes de Barros

5 minutos min de leitura
Liderança, ESG
6 de abril de 2026 18H00
Da excelência paralímpica à estratégia corporativa: por que inclusão precisa sair da admiração e virar decisão? Quando a percepção muda, a inclusão deixa de ser discurso.

Djalma Scartezini - CEO da REIS, Sócio da Egalite e Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro

13 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...