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A lógica da prevenção: o novo papel do profissional de teste

Abandonando o papel de “caçador de bugs” e se tornando um “arquiteto de testes”: o teste como uma função estratégica que molda o futuro do software
O CESAR é o mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil, referência no desenvolvimento de soluções tecnológicas de alta complexidade, com impacto para toda a sociedade. Atua, há quase 30 anos, integrando pesquisa, aceleração de negócios e tecnologia para elevar organizações a um novo patamar de competitividade, além de educação, por meio da CESAR School.
Engenheiro de Testes no CESAR e um experiente profissional de QA, com mais de seis anos de atuação direta na área. Formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ele se dedica a aprimorar processos dentro e fora das equipes de desenvolvimento.

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Durante muito tempo o papel do Quality Assurance (profissional de teste) foi o de um “caçador de bugs”. A missão dele era quase sempre reativa: encontrar falhas em um software que já estava em seus estágios finais de desenvolvimento, quase pronto para ser lançado. O processo era linear, e o teste ficava no final da fila, muitas vezes até sendo deixado em segundo plano.

E durante algum tempo, os QAs se perguntavam: qual o problema desse modelo de desenvolvimento? A resposta para isso é: nesse modelo, a qualidade é tratada como um “problema” a ser corrigido no final, ao invés de um requisito que deve ser construído desde o início do processo. O que mantinha as equipes em uma abordagem reacionária, onde talvez se gastasse mais tempo corrigindo falhas que trabalhando em novos requisitos.

Se manter nessa abordagem reativa deixou claro uma realidade: o retrabalho é caro, demorado e em alguns casos apenas uma correção superficial para algo que é um defeito de base. O System Sciences Institute na IBM demonstrou em seu estudo do ano de 2024, que “O custo para corrigir um erro encontrado após o lançamento do produto era 4x a 5x mais caro que um encontrado durante a fase de design”.

Atualmente, o cenário de testes está se transformando. O papel do profissional de testes não é mais o de um “lobo solitário” no final do processo, e sim o de um parceiro estratégico e arquiteto de qualidade. Sua presença deixa de ser reativa e passa a ser proativa, moldando o design do produto antes mesmo que o desenvolvimento se inicie. Ele passa a ser a voz que questiona suposições e antecipa pontos ambíguos desde o primeiro rascunho.

Essa mudança de padrão é conhecida como “shift-left testing”. Nessa prática ágil, a idéia é que a qualidade passa a ser responsabilidade de todo o time, não apenas do QA. O teste é “deslocado para a esquerda” dentro do ciclo de desenvolvimento, ou seja, é movido para o começo, para as fases mais iniciais de desenvolvimento e ideação. Assim, o QA trabalha junto com designers e desenvolvedores, contribuindo com sua visão em uma parte do desenvolvimento em que pode ter suas opiniões ouvidas e implementadas.

A ideia aqui é que o QA passe a atuar também como um consultor estratégico, que ajude na definição de critérios de sucesso e aceitação e também planeje cenários de uso, bem como em “corner cases”. O QA não vai mais só testar o que o software faz, mas também o que ele deveria fazer.

Mas quais seriam os benefícios de implantar o shift-left testing?

O primeiro benefício observado é a redução do custo e do tempo de desenvolvimento. Ao encontrar falhas de design e de lógica antes que o código seja escrito, a equipe evita o retrabalho e a correria de última hora. As entregas acabam se tornando mais previsíveis e a qualidade se torna um resultado natural do processo.

Em segundo lugar, pode-se dizer que a prática ágil, de certa forma, aumenta a velocidade da inovação. Conseguindo garantir que as bases do produto são sólidas (uma arquitetura sólida, código limpo, testes automatizados com uma boa cobertura), a equipe pode passar a se concentrar em criar novas funcionalidades e em experimentar caso necessário. O medo de “quebrar” algo que já existe tende a diminuir, aumentando a confiança do time. A qualidade deixa de ser um “obstáculo” e passa a ser um apoio.

Um terceiro benefício tangível: o teste se transforma em uma prática de empatia para o QA. Para testar um software de forma eficaz é necessário se colocar no lugar do usuário. É um exercício de antecipar o comportamento humano, simular o fluxo do usuário e de prever em quais situações ele pode acabar se frustrando. Se essa mentalidade é compartilhada com a equipe, através do QA, o resultado final se torna um produto que não só cumpre sua função, mas que também pode se conectar com o público.

Mas para que toda essa transformação aconteça, é preciso que exista uma aposta maior na cultura e em ferramentas. Por um lado, a equipe precisa de ferramentas de automação que possibilitem testes contínuos e rápidos sempre que algo for desenvolvido. E por outro, também de igual importância, precisa de uma cultura que valorize a qualidade desde o início e que a veja como uma responsabilidade compartilhada por todos.

Infelizmente não basta apenas que exista investimento por parte da empresa, a transformação também precisa que o profissional de teste se reinvente. Suas habilidades não podem mais ser só de encontrar bugs, elas devem se expandir para a de análise de riscos, para o design de testes e comunicação estratégica. Ele deve se tornar o representante da qualidade no time, sendo o maior responsável por difundir a cultura de qualidade com sua equipe.

Nessa jornada, a automação passa a ser a maior ferramenta de apoio ao profissional de testes. Com ela é possível manter a execução de testes estável para que ele possa focar em outros aspectos de seu novo papel. Com uma pipeline de testes pronta e executável à um clique de distância, o esforço do QA pode se voltar para a análise de riscos para o produto, adotar melhores práticas de qualidade para o time e difundir a cultura da responsabilidade da qualidade.

Um estudo de 2023 apontou que com o mercado global de testes de software em expansão, previsto para atingir um valor de 92.45 bilhões de dólares até 2030, o foco em automação em que a Grand View Research projeta um crescimento exponencial, é o que garante que a inovação não seja só um “salto de fé”, mas um passo calculado em direção a um futuro mais confiável. A mudança na área de testes é reflexo de uma mudança de mentalidade no mercado. A percepção de que o teste não é um custo, mas um investimento, já está sendo refletida no mercado.

Essa nova visão já é uma realidade que pode ser mensurada nas grandes empresas. O World Quality Report já aborda o teste como uma estratégia mais ampla que também faz parte de DevOps e Agile, e isso se reflete no State of Testing Report do ano de 2025. Nos últimos dois anos houve um crescimento de 13% na quantidade de times que possuem 51 pessoas ou mais dedicadas a testes, onde a própria pesquisa infere que a quantidade de times maiores pode significar uma definição mais ampla de quem constitui o time de testes.

Esse crescimento não é por acaso: os times de testes da atualidade também são compostos por DevOps, Desenvolvedores, e até Product Owners estão contribuindo para os processos de QA. Essa expansão se alinha com o propósito do shift-left testing, conseguindo trazer para a realidade a definição de que a qualidade deve ser uma responsabilidade compartilhada por todo time. A inclusão de novos papéis em times de testes não quer dizer que o QA tem menos responsabilidades que antes, mas mostra que as empresas também estão investindo na cultura de qualidade. 

Por fim, a adoção dessa nova prática não é nada mais que uma amostra de amadurecimento do mercado, as pesquisas deixam cada vez mais claro que as empresas passaram a perceber que qualidade não é um luxo, e sim uma necessidade. E o QA, que antes só participava no fim do ciclo de desenvolvimento de software, agora ocupa um lugar central, sendo o profissional que faz a ponte entre a engenharia e a estratégia, se tornando mais um dos pilares indispensáveis na construção de softwares.

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O CESAR é o mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil, referência no desenvolvimento de soluções tecnológicas de alta complexidade, com impacto para toda a sociedade. Atua, há quase 30 anos, integrando pesquisa, aceleração de negócios e tecnologia para elevar organizações a um novo patamar de competitividade, além de educação, por meio da CESAR School.

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