Marketing
8 min de leitura

A lógica do impulso: usando a irracionalidade a favor da inovação

Entenda por que 90% dos lançamentos fracassam quando ignoram a economia comportamental. O Nobel Daniel Kahneman revela como produtos são criados pela lógica, mas comprados pela emoção.
O CESAR é o mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil, referência no desenvolvimento de soluções tecnológicas de alta complexidade, com impacto para toda a sociedade. Atua, há quase 30 anos, integrando pesquisa, aceleração de negócios e tecnologia para elevar organizações a um novo patamar de competitividade, além de educação, por meio da CESAR School.
Atua com design centrado no usuário e design de produtos digitais, sempre em projetos voltados a melhorar a vida das pessoas enquanto gera valor para as empresas com as quais colabora. Atualmente é Gerente Sênior de Design, com forte foco em DesignOps. Sua abordagem tem contribuído para a entrega de soluções com menos bugs, maior confiança por parte dos clientes e, principalmente, usuários mais satisfeitos e felizes.

Compartilhar:

Liderança

Colocar um produto ou serviço novo no mercado exige esforço estratégico por parte de quem empreende ou tem poder decisório em uma empresa. Em meio a tantas ideias e referências já disponíveis, o benchmarking surge como uma alternativa atrativa. Observar a concorrência e apostar algumas (ou todas) as fichas em um cenário conhecido parece ser um caminho seguro, pelo menos à primeira vista. É racional, lógico, e os conceitos econômicos tradicionais compactuam com esse pensamento. O que poderia dar errado, não é mesmo?

Antes de nos aprofundarmos na temática central deste conteúdo, a economia comportamental, não quero gerar a precipitada impressão de que sou contra ideias ou a troca de conhecimentos entre organizações. Acredito que a ideação é o ponto de partida para a inovação. Via de regra, não existem ideias ruins: talvez elas apenas precisem de polimento ou ainda não estejam prontas para serem lançadas. Quem trabalha com design e descoberta para produtos e serviços de sucesso sabe bem disso.

Nas pesquisas sobre o assunto, conheci uma lenda urbana curiosa e assustadora, mas que ilustra bem e introduz minha argumentação. Numa antiga fábrica de vidros, os funcionários responsáveis pelo embrulho das peças atrasavam a linha de produção ao ler as notícias impressas nas páginas usadas para embalar os produtos. Para aumentar a eficiência dos colaboradores envolvidos nessa etapa, uma das lideranças sugeriu furar os olhos das pessoas para que não tivessem mais como ler e, assim, focassem apenas no embrulho.

Alguém poderia pensar: “Péssima ideia! Como essa pessoa poderia sugerir algo assim?”. Para tranquilizá-lo, adianto que nenhum olho foi furado. Mas a narrativa teve um final sem atos violentos ou extremos: a fábrica resolveu remanejar os funcionários para outra fase do processo produtivo e contratou pessoas com deficiência visual para realizar o embrulho dos vidros. Assim, a produtividade voltou a subir após uma ideação bem-sucedida.

Entender o mercado por meio do benchmarking pode nos aproximar de estratégias exequíveis ou já testadas em contextos semelhantes. Saber o que nossos concorrentes estão fazendo é fundamental para nos mantermos na vanguarda. No entanto, não é minha intenção apresentar aqui ferramentas, abordagens ou conceitos amplamente utilizados atualmente em processos consolidados e testados de design, tampouco listar suas qualidades ou desvantagens. Proponho refletirmos se estamos fazendo isso da maneira correta, considerando a natureza humana na concepção de um novo produto ou serviço.

O dilema do empreendedor: criamos com a razão, compramos com a emoção

É comum cairmos na armadilha de acreditar que as pessoas, incluindo nossos potenciais clientes, sempre agem de forma racional ao escolher produtos e serviços (ou ao fazer qualquer coisa, na verdade). A realidade é que, muitas vezes, agimos por impulso, especialmente quando o assunto é consumo. Se não fizermos as coisas certas para lidar com essa irracionalidade, pode ser que, mesmo com uma proposta excelente, o que oferecemos jamais deslanche — e assim a experimentação ganha força como ferramenta imprescindível se quisermos reduzir os riscos e ampliar a nossa taxa de sucesso.

Daniel Kahneman, pesquisador israelense pioneiro nos estudos de economia comportamental e ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2002, explica, no livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, que temos dois sistemas de pensamento que guiam nossas decisões. O primeiro é rápido, intuitivo e emocional, operando automaticamente e sem esforço. É responsável por decisões e julgamentos imediatos, o que chamamos de intuição. É o sistema que nos faz correr diante de um perigo iminente, por exemplo.

O segundo sistema é mais lento, lógico e deliberado. É ele que entra em ação quando precisamos resolver problemas complexos, que exigem esforço consciente. É, normalmente, o sistema que usamos ao escrever um artigo como este ou ao planejar um produto para ser lançado no mercado.

A estratégia precisa considerar essa distinção: usamos o sistema racional para criar produtos e serviços, mas é comum que as pessoas usem o sistema intuitivo para decidir o que comprar. De modo geral, a intuição não precisa de uma base sólida ou de fatos para escolher qual conta bancária abrir, qual investimento fazer, qual carro comprar, ou se deve iniciar um tratamento dentário agora ou postergar até que a dor se torne insuportável.

Precisamos pensar nos mínimos detalhes para driblar a intuição. Isso não significa explorar a irracionalidade humana de forma antiética, oferecendo produtos ou serviços de baixa qualidade e tirando proveito do impulso. O ponto central é: fazer com que uma boa oferta seja escolhida pelo cliente, considerando que ele utiliza atalhos mentais no processo de decisão.

O pesquisador Dan Ariely, autor do livro Previsivelmente Irracional, mostra que o sistema intuitivo frequentemente nos leva a fazer escolhas por motivos que nem sempre são os melhores ou mais vantajosos. As pessoas são fortemente influenciadas por vieses cognitivos, ou, como ele os chama, “forças invisíveis”.

Até aqui, nossa conversa pode parecer desanimadora para quem empreende. Mas não se engane: o fato de estarmos sujeitos a desconsiderar a razão como consumidores não torna todo o esforço de lançar algo bom e inovador em vão, tampouco aleatório.

Por meio de diversos experimentos, Dan Ariely demonstra que quem desenvolve um produto ou serviço precisa agir de forma estratégica e sistemática, com foco no sucesso. O comportamento intuitivo tende a se repetir de forma previsível, permitindo que nos antecipemos a ele durante o planejamento e o lançamento de um produto no mercado. É aqui que entra a força da experimentação nos processos criativos — ter bons especialistas no desenvolvimento de produtos e serviços, com um time multidisciplinar, incluindo designers com diferentes bagagens e experiências faz toda a diferença.

A realização de testes bem estruturados, com critérios claros de validação, pode nos mostrar se nossos objetivos têm potencial de ser alcançados. Esse processo nos ajuda, por exemplo, a decidir se vale mais a pena criar um produto digital no modelo de assinatura ou oferecer uma licença vitalícia com cobrança adicional por manutenção ou novas funcionalidades. Além disso, permite definir a melhor forma de apresentar uma oferta frente à concorrência ou ao nosso próprio portfólio.

A economia comportamental nos oferece ferramentas para compreender as nuances do comportamento humano no mercado. Ao reconhecer que as decisões de compra são frequentemente influenciadas por fatores irracionais e vieses cognitivos, podemos criar estratégias mais eficazes para o desenvolvimento e lançamento de produtos e serviços. A chave está em abraçar a experimentação, testar hipóteses e adaptar nossas abordagens para melhor atender às necessidades e expectativas reais dos consumidores, aumentando, assim, as chances de sucesso no competitivo cenário de negócios atual.

Compartilhar:

O CESAR é o mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil, referência no desenvolvimento de soluções tecnológicas de alta complexidade, com impacto para toda a sociedade. Atua, há quase 30 anos, integrando pesquisa, aceleração de negócios e tecnologia para elevar organizações a um novo patamar de competitividade, além de educação, por meio da CESAR School.

Artigos relacionados

O que significa educar quando as máquinas também aprendem?

Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

As pessoas vão permanecer mais tempo, sua empresa está pronta?

Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

A decisão mais difícil do roadmap de IA não é técnica

Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Lifelong learning
17 de junho de 2026 09H00
Este artigo propõe uma mudança de lógica na aprendizagem: mais do que acumular conteúdo, o diferencial passa a ser a capacidade de conectar conhecimentos, interpretar contextos e transformar informação em decisão e ação.

Daniel Luzzi - CEO Cognita Learning Lab

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
16 de junho de 2026 15H00
O mercado discute o futuro - mas continua ignorando quem já está pronto para trabalhar. Este artigo chama atenção para um movimento ignorado: a crescente presença da geração 60+, e o custo de continuar excluindo um dos recursos mais experientes e disponíveis da força de trabalho.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de junho de 2026 09H00
Na estreia da coluna, as autoras, Cecília Seabra e Thais Giuliani, propõem uma mudança de paradigma na liderança: sair das explicações rápidas e dos julgamentos para construir relações mais consistentes por meio da escuta, da curiosidade e da integração de diferenças.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão"

7 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
15 de junho de 2026 15H00
Colesterol, cardiologista, academia. Tudo certo. Só falta mencionar o que, de fato, está tirando as pessoas de campo.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
15 de junho de 2026 08H00
A liderança não cabe mais em rótulos e quem ainda pensa assim pode estar ficando para trás. Este artigo mostra como a valorização de perfis não lineares e a capacidade de integrar múltiplas experiências redefinem o conceito de talento nas organizações.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de junho de 2026 15H00
Mais do que falta de talento ou tecnologia, este artigo revela o verdadeiro risco das organizações modernas: pessoas que deixam de dizer o que pensam. Este artigo demonstra como isso compromete decisões, inovação e resultados sem que ninguém perceba.

Valter Bahia Filho – Autor e consultor educacional

6 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Estratégia
14 de junho de 2026 08H00
Ao revisitar o colapso e a reinvenção da Japan Airlines, este artigo revela, à luz dos princípios do Aikido, que a verdadeira transformação organizacional não começa na estratégia, mas na superação do ego - quando liderança, propósito e consciência coletiva entram em fluxo.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
13 de junho de 2026 15H00
Inspirado por um colapso histórico no esporte, este artigo revela um dos riscos mais silenciosos das organizações: equipes talentosas deixam de performar quando a confiança desaparece - e a liderança não cria um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para falar, participar e contribuir de verdade.

Dr. Cristiano Nabuco - Reitor da Artmed School of Psychology (APSY)

6 minutos min de leitura
Marketing & growth
13 de junho de 2026 08H00
Em um cenário de mercado mais seletivo e volátil, este artigo mostra por que resultados consistentes não dependem de talento individual, mas da capacidade da liderança comercial de estruturar processos, diagnosticar com precisão e transformar vendas em uma operação científica.

Natalia Coca - Fundadora da FunFlow, estrategista de vendas e palestrante

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
12 de junho de 2026 14H00
Entre piscinas, quadras e salas de conselho, este artigo mostra por que a performance sustentável não nasce do excesso de esforço, mas da capacidade de alinhar foco, descanso, decisão e leitura de contexto na liderança.

Thierry Marcondes

0 min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão