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A nova latinidade: o Brasil está se tornando desejo global

O que antes era visto como informalidade agora é diferencial: este artigo explora como a cultura brasileira vem ganhando espaço global - e se transformando em ativo estratégico nas empresas.
Sócia-fundadora da Air Branding. Bell foi a primeira mulher brasileira eleita a Chairwoman na One Agent, maior rede mundial de agências de Employer Branding e está entre as 100 personalidades do RH.

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O Brasil vem ganhando visibilidade artística devido a diversos reconhecimentos, principalmente no Globo de Ouro e no Oscar em 2026, e não é só Wagner Moura que está sendo comentado pelo seu “molho”. Após 2020, segundo a ANCINE, Agência Nacional de Cinema, o Brasil passou a exportar 30% mais obras. O retrato brasileiro está em todo lugar. Isso se dá pelo fato de que carregamos uma cultura impossível de não chamar atenção, porque existe algo em nós que transborda o calor e a criatividade. Como disse Jorge Amado, somos mistura. E é dessa mistura e pluralidade que nasce essa força criativa.

Por muito tempo, a latinidade foi tratada como margem, como um traço exótico que deveria ser suavizado ou adaptado. Hoje, vejo o oposto acontecer, ela se torna desejada. Não é difícil encontrar norte-americanos e europeus reivindicando essa identidade, seja pelo idioma, pela ascendência ou, cada vez mais, pela cultura, encontrada principalmente na música e audiovisual.

Nesse movimento, surge quase como um espetáculo cultural chamado Brasilcore, uma estética que exporta nossos símbolos, nossas cores, nosso jeito de ocupar o mundo. Os movimentos que países da América Latina viveram em comum no passado em um contexto de colonização, um cenário de dependência forçada do europeu, nos moldou a criar, atualmente, nosso próprio jeito de viver o mundo, tirando algo bonito do complexo com nosso “Sázon”.

O nosso jeito de ser criativo, leve e íntimo é único e tem uma vantagem competitiva global, porque ninguém cria relações como nós latinos. Em um mundo corporativo, esse diferencial se destaca pelo carisma e intimidade que temos naturalmente, nosso jeitinho brasileiro. Segundo relatórios da Deel, plataforma global de contratação, a demanda internacional por brasileiros cresceu 53% em 2025. Isso acontece porque o país é conhecido pela adaptabilidade, criatividade e forte habilidade de criar conexões, características frequentemente apontadas por recrutadores internacionais como diferenciais competitivos dos brasileiros em ambientes de várias culturas.

1. O jeito brasileiro

Quando olho para a cultura organizacional no Brasil e na Europa, a diferença mais marcante está na forma como as relações humanas são construídas dentro do trabalho.

No Brasil, a cultura organizacional é marcada pelo que chamamos de “calor humano”, conhecido tradicionalmente na América Latina. Isso aparece em relações mais próximas, comunicação direta e afetiva, levando a uma tendência maior à informalidade. O ambiente de trabalho costuma criar relações mais genuínas, as pessoas se conectam. Há abertura para conversas espontâneas e trocas pessoais que vão além do ambiente do trabalho.

Já em muitos países europeus, a cultura organizacional tende a ser mais estruturada tradicional, que é orientada por processos. A comunicação costuma ser mais objetiva, com limites mais claros entre o pessoal e o profissional. Relações existem, claro, mas não são necessariamente o centro da dinâmica de trabalho. Em mercados como França ou Reino Unido, por exemplo, hierarquias e protocolos ainda têm um peso maior no dia a dia corporativo. Segundo o índice de distância do poder da Teoria das Dimensões Culturais, de Hofstede Insights, no eixo de individualismo, o Reino Unido (89) e a França (71) apresentam culturas mais individualistas do que o Brasil (38), indicando menor centralidade das relações pessoais na dinâmica profissional em parte da Europa.

Essa diferença não significa que um modelo seja melhor que o outro, mas o que tenho visto é que o estilo brasileiro começa a ganhar destaque por aquilo que antes era visto como “excesso”, a proximidade e a intimidade. Em ambientes multiculturais, essa capacidade de criar conexão rápida, mediar conflitos com empatia e navegar incertezas com criatividade se torna uma vantagem competitiva real.

2. O Employer Branding 

Todo esse movimento de valorização da latinidade, da cultura brasileira e do chamado BrasilCore se reflete diretamente na forma como empresas precisam se posicionar para atrair, engajar e reter talentos. É aqui que o Employer Branding passa a ser uma estratégia essencial.

Ele permite traduzir cultura em narrativa, e narrativa em atração de talentos. Ele constrói uma Proposta de Valor ao Colaborador (EVP) clara, que envolve cultura, propósito, desenvolvimento e ambiente de trabalho. Ou seja, aquilo que realmente sustenta a experiência de quem trabalha na organização.

Isso significa olhar para dentro antes de comunicar para fora. Significa entender identidade, alinhar expectativas e transformar cultura em algo reconhecível para o mercado de talentos. A Air Branding, por exemplo, atua dessa forma, conectando elementos da identidade que a marca quer criar para atrair os talentos desejados de acordo com os próprios valores. Assim, o Employer Branding se torna a ponte entre identidade e percepção. E, quando falamos de Brasil, essa ponte tem um diferencial claro, a nossa forma de criar relações. O que antes era visto como informalidade hoje é reconhecido como vantagem competitiva. E é nesse ponto que a nossa latinidade pode ser estratégia de negócio.

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