Liderança, ESG
3 minutos min de leitura

A reinvenção dos conselhos no Brasil

Entre progressos estruturais e desafios persistentes, o Brasil passa por uma transformação profunda e se vê diante da urgência de consolidar conselhos mais plurais, estratégicos e preparados para os dilemas do século 21.
Sócio e cofundador da Evermonte Executive & Board Search. Felipe construiu sua carreira no segmento de recrutamento executivo, liderando a operação de uma multinacional no sul do Brasil. Ao longo dos anos, tem auxiliado líderes de empresas de diversos segmentos, portes e modelos de governança a recrutar altos executivos para seus processos de profissionalização e crescimento no mercado sul-brasileiro. Engenheiro de Automação, é especialista em recrutamento executivo nas áreas de Engenharia, Tecnologia e Operações. Hoje, é investidor no mercado de tecnologia e inovação.

Compartilhar:

Nos últimos anos, os conselhos das empresas brasileiras passaram por uma renovação silenciosa, porém profunda. De acordo com uma pesquisa do Evermonte Institute, 34,6% dos conselheiros atualmente em atividade ingressaram nos boards após 2020. Esse dado, por si só, já evidencia o impacto estrutural que a pandemia da Covid-19 exerceu sobre a governança corporativa no país, acelerando mudanças que talvez levassem décadas para acontecer.

Mais do que uma simples troca de cadeiras, estamos presenciando uma verdadeira redefinição no perfil e nas competências dos conselheiros. Profissionais com experiências em áreas como tecnologia, transformação digital, ESG e sustentabilidade – que antes eram exceções – hoje têm conquistado um espaço crescente nos colegiados. Essa renovação de perfis contribui para a formação de conselhos mais dinâmicos, multidisciplinares e preparados para lidar com os desafios complexos do século 21, que extrapolam as métricas financeiras tradicionais e envolvem aspectos éticos, sociais, ambientais e tecnológicos.

Um dos reflexos mais visíveis dessa mudança é o avanço, ainda tímido, da diversidade de gênero nos conselhos. A mesma pesquisa aponta que 9,85% das conselheiras assumiram seus cargos após 2020, o que representa uma evolução em relação a anos anteriores e sinaliza um movimento positivo em direção à equidade. No entanto, o percentual ainda está consideravelmente abaixo dos benchmarks internacionais. De acordo com as projeções do Evermonte Institute, se mantido o ritmo atual, a paridade de gênero nos conselhos só será alcançada por volta de 2038 – um horizonte distante, especialmente diante da urgência por ambientes corporativos mais representativos e inclusivos.

Do ponto de vista institucional, o Brasil ocupa uma posição intermediária em termos de maturidade de governança corporativa, quando comparado a países como Estados Unidos, Reino Unido ou Alemanha. Os avanços recentes são inegáveis, mas ainda existem gargalos. Entre os principais desafios estão a concentração geográfica dos conselhos no eixo Sudeste-Sul, a baixa presença de profissionais oriundos de setores distintos do financeiro, e a ainda limitada diversidade racial, geracional e de pensamento.

A boa notícia é que há um movimento consistente de profissionalização em curso. Muitas empresas têm adotado práticas mais estruturadas e criteriosas para o recrutamento de conselheiros, com foco em competências específicas, experiências complementares e visão sistêmica. Essa mudança de postura responde diretamente às novas exigências do mercado e da sociedade, como a incorporação de princípios ESG, a capacidade de inovar em contextos desafiadores e a habilidade de tomar decisões com base em múltiplos cenários e variáveis.

Entretanto, é fundamental compreender que representatividade e profissionalização, de forma isolada, não são suficientes. A construção de uma governança corporativa sólida e verdadeiramente conectada às necessidades contemporâneas exige uma arquitetura institucional que favoreça a independência dos conselhos, promova a diversidade em todas as suas dimensões e esteja comprometida com a responsabilidade corporativa de forma genuína.

Se o objetivo é posicionar a governança brasileira à altura dos desafios globais e das melhores práticas internacionais, é preciso transformar os avanços recentes em estruturas permanentes, consistentes e de impacto real, fomentando uma cultura organizacional que valorize conselhos verdadeiramente plurais e estratégicos.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Essa reunião podia ser um agente

Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão – e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Estratégia
28 de março de 2026 06H00
Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência - e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.

André Veneziani - VP Comercial Brasil e Latam da C-MORE

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de março de 2026 13H00
Investir em centros de P&D deixou de ser opcional: tornou‑se uma decisão estratégica para competir em mercados cada vez mais tecnológicos.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Estratégia
27 de março de 2026 07H00
Medir saúde organizacional deveria estar no mesmo painel que receita, margem e eficiência. Quando empresas tratam bem-estar como benefício e não como gestão, elas não só ignoram dados alarmantes - elas comprometem produtividade, engajamento e resultado.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
ESG
26 de março de 2026 15H00
A capitulação da SEC diante das regras climáticas criou dois mundos corporativos: um onde ESG é obrigatório e outro onde é opcional. Para CEOs de multinacionais, isso não é apenas questão regulatória, é o maior dilema estratégico da década. Como liderar empresas globais quando as regras do jogo mudam conforme a geografia?

Marceli Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de março de 2026 09H00
À medida que desafios logísticos se tornam complexos demais para a computação tradicional, este artigo mostra por que a computação quântica pode inaugurar uma nova era de eficiência para o setor de mobilidade e entregas - e como empresas que começarem a aprender agora sairão anos à frente quando essa revolução enfim ganhar escala.

Pâmela Bezerra - Pesquisadora do CESAR e professora de pós-graduação da CESAR School e Everton Dias - Gerente de Projetos

7 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
25 de março de 2026 15H00
IA executa, analisa e recomenda. Cabe ao líder humano decidir, inspirar e construir cultura.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
ESG
25 de março de 2026 09H00
Quando propósito vira vantagem competitiva, manter impacto e lucro separados é mais que atraso - é miopia estratégica.

Ana Fontes - Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e Instituto RME, VP do Conselho do Pacto Global da ONU

5 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
24 de março de 2026 14H00
Quando a geopolítica esquenta, o impacto não começa nos noticiários - começa na planilha: energia mais cara, logística pressionada, insumos instáveis e margens comprimidas. Este artigo revela por que guerras longínquas se tornam, em poucos dias, um problema urgente de precificação, estratégia e sobrevivência financeira para as empresas.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
24 de março de 2026 07H00
À medida que a China eleva a inteligência artificial incorporada e as interfaces cérebro‑máquina ao status de indústrias estratégicas, uma nova disputa tecnológica global se desenha - e o epicentro da inovação pode estar prestes a mudar de coordenadas.

Leandro Mattos - Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de março de 2026 14H00
Entre inovação, sustentabilidade e segurança regulatória, o modelo de concessões evolui para responder aos novos desafios da mobilidade urbana no Brasil.

Edson Cedraz - Sócio-líder para a indústria de Government & Public Services e Fernanda Tauffenbach - Sócia de Infrastructure and Capital Projects

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão