Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
8 minutos min de leitura

A voz que não se ouve

Relações de poder, saúde relacional e o design das conversas que as organizações precisam ter. Este artigo parte de uma provocação simples: e se o problema não estiver em quem fala, mas em quem detém o poder de ouvir?
Designer de relações profissionais, Daniela fundou a Consultoria Daniela Cais, especialista em Comunicação Interpessoal aplicada a ambientes corporativos e hubs de inovação. Mestre em Fonoaudiologia pela PUC-SP, TEDx Speaker e facilitadora de treinamentos de renomadas instituições nacionais e internacionais. Mentora de programas de desenvolvimento de carreiras e negócios, como BNDES Garagem, RME - Rede Mulher Empreendedora e Wadhwani Foundation.

Compartilhar:

Toda organização tem uma política de comunicação. Mas poucas têm uma política de relações. Esta assimetria entre o quanto se investe em fazer as pessoas falarem bem e o quanto se investe em construir ambientes que saibam escutar, cuidar e se relacionar é uma das fontes mais silenciosas de adoecimento coletivo no mundo corporativo.

O que a voz revela – e o que o silêncio esconde

Em 2023, a instrutora de comunicação Samara Bay publicou “Permissão para Falar”(Editora Fontanar), um livro que rapidamente ganhou atenção em ambientes corporativos por oferecer ferramentas práticas para quem precisa se comunicar com mais clareza e confiança. Bay trabalhou com estrelas de cinema, CEOs de empresas bilionárias e, mais reveladoramente, com candidatas políticas de primeira viagem – mulheres que eram exatamente o tipo de pessoa que gostaríamos de ter como líderes, mas tinham enorme dificuldade em chegar aos microfones.

Com seu olhar cirúrgico, ela declara que o problema não é a ausência de competência, e sim, a ausência de permissão – interna e externa – para que essas vozes soem como autoridade.

Bay argumenta que existe um padrão implícito sobre como o poder deve soar, e esse padrão foi construído por homens brancos, ricos, de determinada origem cultural, que por séculos monopolizam os espaços de fala. Qualquer desvio desse padrão – um sotaque diferente, uma emoção visível, uma inflexão mais alta – é lido como déficit, independentemente do conteúdo do que está sendo dito.

O filtro utilizado é o viés de autoridade. E ele opera antes mesmo que a primeira frase seja pronunciada. Pesquisas sobre percepção vocal mostram que ouvintes formam julgamentos de competência, confiabilidade e liderança em frações de segundos, e esses julgamentos são fortemente moldados por expectativas de gênero, raça e classe. Isso significa que parte significativa do trabalho de “comunicar bem” não está na pessoa que fala, está na estrutura preconcebida de quem escuta

A questão que Bay levanta, e que este artigo deseja aprofundar, é: o que acontece com uma organização quando sistematicamente certas vozes não são ouvidas? O que se perde – em criatividade, em diversidade de perspectivas, em saúde social – quando o ambiente é desenhado para amplificar apenas um tipo de voz?

O ambiente que escuta: poder, viés e saúde relacional

Bell Hooks, ativista norte-americana, dedicou décadas a compreender como o silenciamento opera nas relações cotidianas. Em sua obra, Hooks argumenta que os atos de falar e de escutar nunca são neutros, pois carregam as marcas das hierarquias que organizam a sociedade.

Nas organizações, essas hierarquias se traduzem em reuniões em que certas pessoas são sistematicamente interrompidas, em ideias que só ganham crédito quando repetidas por vozes de maior prestígio, em feedbacks que avaliam o desempenho diluído na adequação ao padrão cultural dominante.

Djamila Ribeiro, escritora brasileira, aprofunda essa leitura ao introduzir o conceito de lugar de fala como o reconhecimento de que posições sociais diferentes geram perspectivas diferentes, e que silenciar determinadas perspectivas é também uma forma de produzir uma visão de mundo incompleta, cindida e desvirtuada. Para ela, o problema não é apenas ético, é epistêmico. Quando vozes são sistematicamente excluídas do processo decisório, as organizações tomam decisões com menos informação do que imaginam ter.

O retrato geral mostra que as organizações não adoecem apenas por confrontos explícitos, mas, sobretudo, pelo que não consegue ser escutado ou dito em voz alta.

Ou seja, no ambiente corporativo, esse adoecimento relacional raramente tem um único rótulo. Ele se disfarça de alta rotatividade entre grupos específicos, de baixo pertencimento em times, de engajamento progressivamente menor de pessoas que, no início, chegaram com enorme energia. Quando os dados de People Analytics apontam esses padrões, a resposta costuma ser um programa de capacitação – como se o problema fosse sempre de quem está tentando ser ouvido, nunca de quem define os critérios de escuta.

A pesquisa da consultoria Zenger/Folkman com mais de 70 mil líderes globais revelou algo que desafia o senso comum corporativo: líderes nos cargos mais elevados, de qualquer gênero, lideram com mais cordialidade do que com imposição, sendo bem-sucedidos por ampla margem. A cordialidade, aqui, não é gentileza decorativa. É a capacidade de criar condições para que o outro se expresse e seja genuinamente percebido. É, em outros termos, o design intencional de relações em que a escuta tem tanto valor quanto a fala, porque a relevância está na maneira como as relações acontecem.

O paradoxo que Bay identifica é perturbador: ao mesmo tempo em que líderes eficazes chegam ao topo praticando escuta ativa e cordialidade, o ambiente que precede esse topo frequentemente penaliza exatamente essas qualidades em mulheres e grupos minorizados, lendo-as como fraqueza, indecisão ou falta de presença executiva.

A saúde relacional de uma organização depende, portanto, de sua capacidade de reconhecer e desfazer esse duplo padrão e isto precisa ser feito em contextos coletivos, para que as pessoas se reconheçam, se apreciem e se conectem.

Design de relações: o que é possível fazer

O conceito de design de relações parte da premissa de que as relações não são resultado da soma de comportamentos individuais. As relações interpessoais são consequência das estruturas, rituais, processos e culturas que as organizam. Assim como se pode desenhar um espaço físico para favorecer ou inibir encontros, é possível desenhar ambientes organizacionais que favoreçam ou inibam os relacionamentos saudáveis.

Isso tem implicações diretas para RH e T&D. Se o problema detectado for o indivíduo, a capacitação é uma possível solução. Mas se o problema estiver na estrutura – nos processos, nos rituais, nas práticas de reconhecimento, nas políticas de promoção, na ambientação das conversas – então a solução precisa de um olhar mais crítico e de redesenho.

Ocorre que a maioria dos problemas relacionais nas organizações é uma combinação das duas coisas: pessoas que precisam de mais repertório relacional e ambientes que precisam ser revisados a partir da cultura. Alimentar apenas um dos aspectos é leviano porque atribui peso maior a responsabilidade individual, sem oferecer as condições de contrapartida para o bom desenvolvimento de relações que, por natureza, são complexas e exigem reciprocidade.

A seguir, uma síntese de práticas derivadas dessa perspectiva – organizadas por nível de intervenção:

Nível de atuaçãoPráticas de design relacional
Liderança individualDesenvolver consciência sobre os vieses de escuta. Quem você interrompe? Quem você amplifica? Quem você cita – e quem você não cita?
Rituais de equipeRedesenhar reuniões para que diferentes perfis tenham espaço estruturado de fala. Rodadas de contribuição, escuta sem julgamento imediato, separação entre geração de ideias e avaliação.
Processos de RHAuditar critérios de promoção e reconhecimento para identificar viés de adequação cultural. Quem avança? Quem fica para trás – e por quê?
Cultura organizacionalTornar o silêncio visível. Criar canais e práticas onde o que não está sendo dito possa emergir com segurança psicológica real.
T&DInvestir tanto em programas de letramento relacional para que as relações sejam a estrutura que equaciona quem fala quem escuta e conscientiza sobre vieses, tanto para líderes, quanto para decisores


Bay sintetiza que a adoção de foco no outro é uma ferramenta facilitadora. Sua proposta é que a melhor preparação para qualquer conversa importante não seja pensar no que se vai dizer, seja pensar em com quem se vai encontrar e o que essa pessoa precisa receber.

Esse deslocamento de perspectiva transforma a comunicação de performance em busca intencional por cuidado. Isto é o que transforma o ambiente, gradualmente, deixando de ser um palco de competição por atenção e passando a ser uma rede de conexão.

Djamila Ribeiro diria que esse deslocamento só é possível quando quem fala reconhece seu próprio lugar, o que inclui seus privilégios, seus pontos cegos, as perspectivas que sua posição social naturalmente obscurece. É o ponto de partida para uma escuta mais apurada. Bell Hooks completaria: o amor – entendido como modo de viver e como prática de respeito, presença e reconhecimento – é a base de qualquer relação que aspira à liberdade.

A permissão dentro das organizações

Isto se encerra com o reconhecimento de que há uma tensão honesta na reflexão sobre a permissão para falar, proposta por Bay. Ela sugere que falar é um ato que requer autorização e é exatamente isso que precisamos desconstruir.

Ninguém deveria precisar de permissão para usar a própria voz. Mas, na prática, em ambientes organizacionais fortemente hierarquizados e culturalmente homogêneos, essa permissão é naturalizada e exercida o tempo todo, de forma explícita ou implícita, por processos, por normas não escritas, por olhares e silêncios.

O desafio para líderes, profissionais de RH é desfocar a ideia de que as pessoas precisam falar melhor, e propor a construção de ambientes onde mais vozes tenham condições reais de ser ouvidas. Não estamos falando de medidas concessionárias ou políticas decorativas de diversidade. Falamos da escolha estratégica fundamentada na compreensão de que a qualidade das decisões de uma organização é diretamente proporcional à composição diversa das perspectivas que as informam e que as sustentam.

Isso exige, antes de qualquer programa ou processo, que sejamos francos em questionar as nossas organizações: Quem tem permissão de falar? Assumindo que este poder deve ser resultado da escuta, do cuidado e da atenção à qualidade das relações.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Nem todo problema precisa de inteligência artificial

A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Direito, Regulação & Compliance
2 de agosto de 2026 13H00
Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Sthefano Scalon Cruvinel - Doutrinador do Direito, Auditor Judicial com atuação no STJ e CEO da EvidJuri

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de agosto de 2026 08H00
Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Fernando Wosniak Steler - Co-Fundador e CEO da Delend

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
1º de agosto de 2026 14H00
Impulsionadas pelas exigências de investidores, certificações ambientais e adaptação climática, as edificações sustentáveis consolidam-se como ativos estratégicos para empresas que buscam eficiência, resiliência e geração de valor de longo prazo.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor e responsável técnico da HotFloor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de agosto de 2026 08H00
Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante 

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de julho de 2026 14H00
Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

Tássia Galvão - Fundadora e CEO da Konne

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de julho de 2026 08H00
Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional
30 de julho de 2026 14H00
Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

Diego Alegre - CEO do Arquipélago "Culturas que transformam"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura
Liderança
29 de julho de 2026 07H00
Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Betania Tanure - PhD, Sócia fundadora da BTA, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo