Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
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A voz que não se ouve

Relações de poder, saúde relacional e o design das conversas que as organizações precisam ter. Este artigo parte de uma provocação simples: e se o problema não estiver em quem fala, mas em quem detém o poder de ouvir?
Designer de relações profissionais, Daniela fundou a Consultoria Daniela Cais, especialista em Comunicação Interpessoal aplicada a ambientes corporativos e hubs de inovação. Mestre em Fonoaudiologia pela PUC-SP, TEDx Speaker e facilitadora de treinamentos de renomadas instituições nacionais e internacionais. Mentora de programas de desenvolvimento de carreiras e negócios, como BNDES Garagem, RME - Rede Mulher Empreendedora e Wadhwani Foundation.

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Toda organização tem uma política de comunicação. Mas poucas têm uma política de relações. Esta assimetria entre o quanto se investe em fazer as pessoas falarem bem e o quanto se investe em construir ambientes que saibam escutar, cuidar e se relacionar é uma das fontes mais silenciosas de adoecimento coletivo no mundo corporativo.

O que a voz revela – e o que o silêncio esconde

Em 2023, a instrutora de comunicação Samara Bay publicou “Permissão para Falar”(Editora Fontanar), um livro que rapidamente ganhou atenção em ambientes corporativos por oferecer ferramentas práticas para quem precisa se comunicar com mais clareza e confiança. Bay trabalhou com estrelas de cinema, CEOs de empresas bilionárias e, mais reveladoramente, com candidatas políticas de primeira viagem – mulheres que eram exatamente o tipo de pessoa que gostaríamos de ter como líderes, mas tinham enorme dificuldade em chegar aos microfones.

Com seu olhar cirúrgico, ela declara que o problema não é a ausência de competência, e sim, a ausência de permissão – interna e externa – para que essas vozes soem como autoridade.

Bay argumenta que existe um padrão implícito sobre como o poder deve soar, e esse padrão foi construído por homens brancos, ricos, de determinada origem cultural, que por séculos monopolizam os espaços de fala. Qualquer desvio desse padrão – um sotaque diferente, uma emoção visível, uma inflexão mais alta – é lido como déficit, independentemente do conteúdo do que está sendo dito.

O filtro utilizado é o viés de autoridade. E ele opera antes mesmo que a primeira frase seja pronunciada. Pesquisas sobre percepção vocal mostram que ouvintes formam julgamentos de competência, confiabilidade e liderança em frações de segundos, e esses julgamentos são fortemente moldados por expectativas de gênero, raça e classe. Isso significa que parte significativa do trabalho de “comunicar bem” não está na pessoa que fala, está na estrutura preconcebida de quem escuta

A questão que Bay levanta, e que este artigo deseja aprofundar, é: o que acontece com uma organização quando sistematicamente certas vozes não são ouvidas? O que se perde – em criatividade, em diversidade de perspectivas, em saúde social – quando o ambiente é desenhado para amplificar apenas um tipo de voz?

O ambiente que escuta: poder, viés e saúde relacional

Bell Hooks, ativista norte-americana, dedicou décadas a compreender como o silenciamento opera nas relações cotidianas. Em sua obra, Hooks argumenta que os atos de falar e de escutar nunca são neutros, pois carregam as marcas das hierarquias que organizam a sociedade.

Nas organizações, essas hierarquias se traduzem em reuniões em que certas pessoas são sistematicamente interrompidas, em ideias que só ganham crédito quando repetidas por vozes de maior prestígio, em feedbacks que avaliam o desempenho diluído na adequação ao padrão cultural dominante.

Djamila Ribeiro, escritora brasileira, aprofunda essa leitura ao introduzir o conceito de lugar de fala como o reconhecimento de que posições sociais diferentes geram perspectivas diferentes, e que silenciar determinadas perspectivas é também uma forma de produzir uma visão de mundo incompleta, cindida e desvirtuada. Para ela, o problema não é apenas ético, é epistêmico. Quando vozes são sistematicamente excluídas do processo decisório, as organizações tomam decisões com menos informação do que imaginam ter.

O retrato geral mostra que as organizações não adoecem apenas por confrontos explícitos, mas, sobretudo, pelo que não consegue ser escutado ou dito em voz alta.

Ou seja, no ambiente corporativo, esse adoecimento relacional raramente tem um único rótulo. Ele se disfarça de alta rotatividade entre grupos específicos, de baixo pertencimento em times, de engajamento progressivamente menor de pessoas que, no início, chegaram com enorme energia. Quando os dados de People Analytics apontam esses padrões, a resposta costuma ser um programa de capacitação – como se o problema fosse sempre de quem está tentando ser ouvido, nunca de quem define os critérios de escuta.

A pesquisa da consultoria Zenger/Folkman com mais de 70 mil líderes globais revelou algo que desafia o senso comum corporativo: líderes nos cargos mais elevados, de qualquer gênero, lideram com mais cordialidade do que com imposição, sendo bem-sucedidos por ampla margem. A cordialidade, aqui, não é gentileza decorativa. É a capacidade de criar condições para que o outro se expresse e seja genuinamente percebido. É, em outros termos, o design intencional de relações em que a escuta tem tanto valor quanto a fala, porque a relevância está na maneira como as relações acontecem.

O paradoxo que Bay identifica é perturbador: ao mesmo tempo em que líderes eficazes chegam ao topo praticando escuta ativa e cordialidade, o ambiente que precede esse topo frequentemente penaliza exatamente essas qualidades em mulheres e grupos minorizados, lendo-as como fraqueza, indecisão ou falta de presença executiva.

A saúde relacional de uma organização depende, portanto, de sua capacidade de reconhecer e desfazer esse duplo padrão e isto precisa ser feito em contextos coletivos, para que as pessoas se reconheçam, se apreciem e se conectem.

Design de relações: o que é possível fazer

O conceito de design de relações parte da premissa de que as relações não são resultado da soma de comportamentos individuais. As relações interpessoais são consequência das estruturas, rituais, processos e culturas que as organizam. Assim como se pode desenhar um espaço físico para favorecer ou inibir encontros, é possível desenhar ambientes organizacionais que favoreçam ou inibam os relacionamentos saudáveis.

Isso tem implicações diretas para RH e T&D. Se o problema detectado for o indivíduo, a capacitação é uma possível solução. Mas se o problema estiver na estrutura – nos processos, nos rituais, nas práticas de reconhecimento, nas políticas de promoção, na ambientação das conversas – então a solução precisa de um olhar mais crítico e de redesenho.

Ocorre que a maioria dos problemas relacionais nas organizações é uma combinação das duas coisas: pessoas que precisam de mais repertório relacional e ambientes que precisam ser revisados a partir da cultura. Alimentar apenas um dos aspectos é leviano porque atribui peso maior a responsabilidade individual, sem oferecer as condições de contrapartida para o bom desenvolvimento de relações que, por natureza, são complexas e exigem reciprocidade.

A seguir, uma síntese de práticas derivadas dessa perspectiva – organizadas por nível de intervenção:

Nível de atuaçãoPráticas de design relacional
Liderança individualDesenvolver consciência sobre os vieses de escuta. Quem você interrompe? Quem você amplifica? Quem você cita – e quem você não cita?
Rituais de equipeRedesenhar reuniões para que diferentes perfis tenham espaço estruturado de fala. Rodadas de contribuição, escuta sem julgamento imediato, separação entre geração de ideias e avaliação.
Processos de RHAuditar critérios de promoção e reconhecimento para identificar viés de adequação cultural. Quem avança? Quem fica para trás – e por quê?
Cultura organizacionalTornar o silêncio visível. Criar canais e práticas onde o que não está sendo dito possa emergir com segurança psicológica real.
T&DInvestir tanto em programas de letramento relacional para que as relações sejam a estrutura que equaciona quem fala quem escuta e conscientiza sobre vieses, tanto para líderes, quanto para decisores


Bay sintetiza que a adoção de foco no outro é uma ferramenta facilitadora. Sua proposta é que a melhor preparação para qualquer conversa importante não seja pensar no que se vai dizer, seja pensar em com quem se vai encontrar e o que essa pessoa precisa receber.

Esse deslocamento de perspectiva transforma a comunicação de performance em busca intencional por cuidado. Isto é o que transforma o ambiente, gradualmente, deixando de ser um palco de competição por atenção e passando a ser uma rede de conexão.

Djamila Ribeiro diria que esse deslocamento só é possível quando quem fala reconhece seu próprio lugar, o que inclui seus privilégios, seus pontos cegos, as perspectivas que sua posição social naturalmente obscurece. É o ponto de partida para uma escuta mais apurada. Bell Hooks completaria: o amor – entendido como modo de viver e como prática de respeito, presença e reconhecimento – é a base de qualquer relação que aspira à liberdade.

A permissão dentro das organizações

Isto se encerra com o reconhecimento de que há uma tensão honesta na reflexão sobre a permissão para falar, proposta por Bay. Ela sugere que falar é um ato que requer autorização e é exatamente isso que precisamos desconstruir.

Ninguém deveria precisar de permissão para usar a própria voz. Mas, na prática, em ambientes organizacionais fortemente hierarquizados e culturalmente homogêneos, essa permissão é naturalizada e exercida o tempo todo, de forma explícita ou implícita, por processos, por normas não escritas, por olhares e silêncios.

O desafio para líderes, profissionais de RH é desfocar a ideia de que as pessoas precisam falar melhor, e propor a construção de ambientes onde mais vozes tenham condições reais de ser ouvidas. Não estamos falando de medidas concessionárias ou políticas decorativas de diversidade. Falamos da escolha estratégica fundamentada na compreensão de que a qualidade das decisões de uma organização é diretamente proporcional à composição diversa das perspectivas que as informam e que as sustentam.

Isso exige, antes de qualquer programa ou processo, que sejamos francos em questionar as nossas organizações: Quem tem permissão de falar? Assumindo que este poder deve ser resultado da escuta, do cuidado e da atenção à qualidade das relações.

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