Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
3 minutos min de leitura

Ageivism: o que acontece quando as organizações envelhecem, mas suas ideias não?

Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.
CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade. Autora do Livro " Etarismo, um novo nome para um velho Preconceito " e coautora de outros 5 livros relacionados ao tema.

Compartilhar:

As empresas estão preparadas para uma sociedade que envelhece?

A pergunta parece simples, mas suas implicações são profundas. Vivemos mais, trabalhamos por mais tempo e convivemos, simultaneamente, com até cinco gerações dentro das organizações. Ainda assim, boa parte das práticas de gestão continua baseada em premissas construídas para uma realidade demográfica que já não existe.

Foi refletindo sobre essa desconexão que me chamou a atenção o trabalho do professor Israel Doron, da Universidade de Haifa. Doron cunhou recentemente o termo AGEIVISM,  a combinação de ageism (etarismo) e activism (ativismo), para definir uma ideologia baseada em identidade, dignidade e justiça social que incentiva pessoas mais velhas a reconhecerem e enfrentarem a marginalização associada ao envelhecimento.

Embora o conceito tenha surgido no campo acadêmico, suas implicações vão muito além dele. O Ageivism oferece uma lente poderosa para compreender um fenômeno que atravessa organizações, mercados e instituições: a persistência de uma visão jovem-cêntrica em uma sociedade que envelhece rapidamente.

O jovem-centrismo ainda faz sentido?

No ambiente corporativo, o etarismo costuma ser associado a práticas explícitas de discriminação. Mas seus efeitos mais relevantes são frequentemente invisíveis.

Eles aparecem quando potencial é confundido com juventude. Quando experiência é tratada como passado, e não como ativo. Quando velocidade recebe mais reconhecimento do que discernimento. Ou quando carreiras são desenhadas como se todos seguissem trajetórias lineares, com início, auge e declínio previsíveis.

O conceito de Ageivism convida a uma reflexão mais ampla: e se o problema não estiver apenas em comportamentos discriminatórios, mas nos pressupostos que orientam nossas decisões?

Quantos processos seletivos, programas de liderança, modelos de sucessão ou critérios de avaliação foram construídos a partir da ideia implícita de que envelhecer significa perder relevância?

Quando a longevidade desafia as regras do jogo

O trabalho de Doron mostra que esse viés não está restrito ao mundo corporativo. Ele também aparece na produção do conhecimento científico, onde pessoas mais velhas continuam sub representadas em diversos estudos clínicos e pesquisas.

A questão que emerge é desconfortável: se até a ciência pode reproduzir pressupostos ou vieses etários sem percebê-los, por que as organizações estariam imunes ao mesmo fenômeno?

Talvez a pergunta mais importante para líderes não seja como evitar o etarismo, mas como revisar modelos de gestão concebidos para uma sociedade significativamente mais jovem do que a atual.

Afinal, o que significa desenvolver carreiras em um contexto em que muitas pessoas poderão permanecer economicamente ativas por cinco ou seis décadas?

Como pensar sucessão sem associá-la automaticamente à substituição?

Como promover inovação sem transformar experiência em sinônimo de resistência à mudança?

Como liderar equipes compostas por diferentes gerações sem assumir que apenas uma delas representa o futuro?

Uma nova agenda para a liderança

O Ageivism não propõe privilégios para pessoas mais velhas. Tampouco sugere substituir um grupo por outro no centro das decisões.

Sua contribuição é mais profunda: questionar a ideia de que existe uma idade padrão a partir da qual definimos valor, potencial, capacidade de aprender ou legitimidade para contribuir.

Em um contexto de transformação demográfica acelerada, essa discussão deixa de ser uma pauta restrita à diversidade e inclusão. Ela passa a integrar o campo da estratégia.

As organizações que compreenderem esse movimento mais cedo terão mais condições de revisar seus modelos de trabalho, atrair diferentes gerações, ampliar sua capacidade de aprendizagem e responder a uma realidade populacional em rápida transformação.

O Ageivism oferece um nome para esse debate. Mas, acima de tudo, oferece um convite: repensar as regras que continuam orientando nossas organizações mesmo quando o mundo ao redor já mudou.

Porque talvez o maior desafio da longevidade não seja o envelhecimento das pessoas e sim o envelhecimento das ideias com as quais continuamos administrando o futuro.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que equipes entendem a estratégia e ainda assim não executam?

Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

Inovação & estratégia
8 de setembro de 2026 14H00
Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
8 de setembro de 2026 08H00
Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Daniel Cerveira - sócio do escritório Cerveira, Bloch, Goettems, Hansen & Longo Advogados Associados e Coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da ABF - Associação Brasileira de Franchising

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 14H00
Muito além da programação e da montagem de robôs, o artigo mostra como a robótica educacional está ajudando estudantes a pensar criticamente, experimentar, colaborar e criar soluções para problemas reais, conectando aprendizagem, propósito e impacto social desde a escola.

André Brandão Sala - CEO da Robomind

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 08H00
O Brasil já demonstrou sua capacidade de formar pesquisadores altamente qualificados. O desafio agora é fortalecer as pontes entre universidades, empresas, investidores e empreendedores para que a produção científica gere mais inovação, competitividade e impacto social.

Luiz Caires, PhD - Cofundador e CEO da Vyro Bio

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
6 de setembro de 2026 15H00
Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

Rodrigo Rovaris - Gerente de Gente & Gestão da Blendus

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Marketing & growth
6 de setembro de 2026 08h00
À medida que a produção de conteúdo se torna cada vez mais presente na vida profissional e pessoal, surge uma questão importante: estamos ampliando oportunidades ou naturalizando a ideia de que toda experiência, habilidade e momento da vida precisam ser convertidos em visibilidade, audiência e monetização?

Ingrid Spyker - sócia da Creator Economy

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
5 de setembro de 2026 14H00
A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
4 de setembro de 2026 14H00
A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Juliana Algodoal - PhD em Análise do Discurso e especialista em comunicação corporativa

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de setembro de 2026 08H00
As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Juliana Bezerra - Líder de conteúdo na DEA Design

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução