Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
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Ageivism: o que acontece quando as organizações envelhecem, mas suas ideias não?

Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.
CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade. Autora do Livro " Etarismo, um novo nome para um velho Preconceito " e coautora de outros 5 livros relacionados ao tema.

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As empresas estão preparadas para uma sociedade que envelhece?

A pergunta parece simples, mas suas implicações são profundas. Vivemos mais, trabalhamos por mais tempo e convivemos, simultaneamente, com até cinco gerações dentro das organizações. Ainda assim, boa parte das práticas de gestão continua baseada em premissas construídas para uma realidade demográfica que já não existe.

Foi refletindo sobre essa desconexão que me chamou a atenção o trabalho do professor Israel Doron, da Universidade de Haifa. Doron cunhou recentemente o termo AGEIVISM,  a combinação de ageism (etarismo) e activism (ativismo), para definir uma ideologia baseada em identidade, dignidade e justiça social que incentiva pessoas mais velhas a reconhecerem e enfrentarem a marginalização associada ao envelhecimento.

Embora o conceito tenha surgido no campo acadêmico, suas implicações vão muito além dele. O Ageivism oferece uma lente poderosa para compreender um fenômeno que atravessa organizações, mercados e instituições: a persistência de uma visão jovem-cêntrica em uma sociedade que envelhece rapidamente.

O jovem-centrismo ainda faz sentido?

No ambiente corporativo, o etarismo costuma ser associado a práticas explícitas de discriminação. Mas seus efeitos mais relevantes são frequentemente invisíveis.

Eles aparecem quando potencial é confundido com juventude. Quando experiência é tratada como passado, e não como ativo. Quando velocidade recebe mais reconhecimento do que discernimento. Ou quando carreiras são desenhadas como se todos seguissem trajetórias lineares, com início, auge e declínio previsíveis.

O conceito de Ageivism convida a uma reflexão mais ampla: e se o problema não estiver apenas em comportamentos discriminatórios, mas nos pressupostos que orientam nossas decisões?

Quantos processos seletivos, programas de liderança, modelos de sucessão ou critérios de avaliação foram construídos a partir da ideia implícita de que envelhecer significa perder relevância?

Quando a longevidade desafia as regras do jogo

O trabalho de Doron mostra que esse viés não está restrito ao mundo corporativo. Ele também aparece na produção do conhecimento científico, onde pessoas mais velhas continuam sub representadas em diversos estudos clínicos e pesquisas.

A questão que emerge é desconfortável: se até a ciência pode reproduzir pressupostos ou vieses etários sem percebê-los, por que as organizações estariam imunes ao mesmo fenômeno?

Talvez a pergunta mais importante para líderes não seja como evitar o etarismo, mas como revisar modelos de gestão concebidos para uma sociedade significativamente mais jovem do que a atual.

Afinal, o que significa desenvolver carreiras em um contexto em que muitas pessoas poderão permanecer economicamente ativas por cinco ou seis décadas?

Como pensar sucessão sem associá-la automaticamente à substituição?

Como promover inovação sem transformar experiência em sinônimo de resistência à mudança?

Como liderar equipes compostas por diferentes gerações sem assumir que apenas uma delas representa o futuro?

Uma nova agenda para a liderança

O Ageivism não propõe privilégios para pessoas mais velhas. Tampouco sugere substituir um grupo por outro no centro das decisões.

Sua contribuição é mais profunda: questionar a ideia de que existe uma idade padrão a partir da qual definimos valor, potencial, capacidade de aprender ou legitimidade para contribuir.

Em um contexto de transformação demográfica acelerada, essa discussão deixa de ser uma pauta restrita à diversidade e inclusão. Ela passa a integrar o campo da estratégia.

As organizações que compreenderem esse movimento mais cedo terão mais condições de revisar seus modelos de trabalho, atrair diferentes gerações, ampliar sua capacidade de aprendizagem e responder a uma realidade populacional em rápida transformação.

O Ageivism oferece um nome para esse debate. Mas, acima de tudo, oferece um convite: repensar as regras que continuam orientando nossas organizações mesmo quando o mundo ao redor já mudou.

Porque talvez o maior desafio da longevidade não seja o envelhecimento das pessoas e sim o envelhecimento das ideias com as quais continuamos administrando o futuro.

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