Uncategorized

Agroecologia high tech é possível? Parte I

Mais do que provocar, o título deste texto é um convite ao pensar.
Técnico Agrícola e administrador, especialista em cafeicultura sustentável, trabalhou na Prefeitura Municipal de Poços de Caldas (MG) e foi coordenador do Movimento Poços de Caldas Cidade de Comércio Justo e Solidário. Ulisses é consultor de associações e cooperativas e certificações agrícolas.

Compartilhar:

No mundo do agronegócio, consumidores, especialistas, técnicos, influencers, governos, empresas e organizações de todos os tipos tendem a criar uma barreira que separa o setor econômico em duas correntes: aqueles que acreditam no agronegócio “high tech” como solução constante e absoluta para a produção de alimentos e aqueles que defendem uma agricultura e pecuária mais natural, com respeito às pessoas, ao solo e à natureza. 

Essa dicotomia é um desafio. Para mim, especialmente. Lá nos anos 2000, fui apresentado a este mundo high tech ao ganhar como prêmio por estudos na área de informática na Escola Agrícola de Muzambinho a participação no evento Fenasoft, maior evento de tecnologia da América Latina na época. Por outro lado, ao concluir o curso Técnico em Agropecuária, alguns anos depois, eu realizava estudos sobre agricultura orgânica, quando o tema ainda era pouco difundido e não fazia parte da grade curricular do curso.

Sempre fui muito entusiasta da tecnologia, do mundo digital e das oportunidades que esse universo traz para pessoas, organizações e comunidades. Também sempre fui muito ligado à agricultura familiar, agroecológica e sustentável. Exatamente por isso recentemente me perguntaram: “o futuro do agro é tech ou ecológico?”.

Bora pensar? A pergunta é ótima e o debate é extremamente enriquecedor para o setor. Mas, como o assunto é amplo e espero trazer informações relevantes para uma boa reflexão, decidi fazer uma trilogia, ou seja, serão três artigos em sequência sobre o tema. 

Neste primeiro, abordaremos a agroecologia, no segundo o agro high tech e, no final, tentarei responder a essa desafiadora questão.

Agroecologia
————

O movimento agroecológico cresce de forma exponencial. Cada dia mais produtores, principalmente da agricultura familiar, se convertem à produção agroecológica (leia-se neste conceito abrangência de agricultura orgânica, agroflorestal, sintrópica, biodinâmica etc.). 

Dados revelam que nos últimos 10 anos o mercado de produtos orgânicos no Brasil cresceu mais de 20% ao ano. Isso significa que o mercado dobra de tamanho a cada 4 anos, um crescimento fantástico, mas desafiador para a produção. A resposta para atender essa demanda não tem a mesma velocidade, pois a transição para conceitos mais naturais de manejo do solo, plantas e animais tem um ritmo mais lento, respeita os tempos da natureza, além, é claro, da difícil **transição do mindset do produtor**, que precisa se convencer da possibilidade de uma nova forma de produção.

Para não ficar apenas nos dados de mercado, nos últimos anos, na prática, observo o avanço no campo. Em 2010 em Poços de Caldas, cidade onde atuei como Coordenador de Fomento Agropecuário na Prefeitura Municipal, não havia nenhum produtor orgânico no município. Apenas em 2013 conseguimos apoiar a certificação do primeiro produtor na cidade. Atualmente, são mais de 40 agricultores, entre familiares e médios produtores, que estão certificados ou em processo adiantado de certificação. 

Na região não é diferente. Em 2012, foi constituída a Central das Associações de Produtores **Orgânicos do Sul de Minas**, a formação de uma rede agroecológica que tinha como principal tema a certificação participativa. Em 2019, a Orgânicos Sul de Minas, como é conhecida, contava com mais de 210 agricultores certificados, um crescimento de 21% em relação ao ano anterior. 

No Brasil, o movimento ganha forma e força em cada região, seja com o agroextrativismo sustentável na Floresta Amazônica, que busca produzir alimentos sem derrubar a floresta, ou no cerrado, onde comunidades buscam a preservação do bioma e da cultura local. Mas também acontece nas periferias e grandes centros como o **Circuito Carioca de Feiras Orgânicas** ou iniciativas de cozinhas populares em meio a favelas de São Paulo, que buscam servir alimento orgânico, muitas vezes produzido por moradores locais em hortas urbanas e comunitárias.

Esse avanço dos orgânicos acontece mesmo em meio à desconfiança de muitos líderes e setores que ainda acreditam ser um modismo ou contracultura. Porém o modelo agroecológico é comprovadamente muito mais que isso, e promete transformar não só a forma da produção, mas todo o conceito existente de como devemos produzir, distribuir e consumir alimentos. 

Uma das principais críticas é com relação à baixa produtividade e aos altos custos de produção, que atualmente soam como mitos para quem está envolvido nesse segmento. Produção de soja, milho, leite, algodão, castanhas, café, hortaliças, frutas, legumes, ou seja, todos os tipos de produtos agropecuários, já possuem produção em pequena, média e grande escala adotando práticas agroecológicas. 

Embora a agroecologia tenha força significativa no meio da agricultura familiar, dezenas de empreendimentos de médio e grande porte estão buscando aproveitar as oportunidades do setor e atender a essa crescente demanda. Empresários como Pedro Paulo Diniz, na Fazenda da Toca, Marcos Palmeira, com a Fazenda Vale das Palmeiras, e Rafael Coimbra, da Fazenda Santa Julieta Bio, mostram que o setor ganha investimentos e tem potencial para gerar receita e produzir alimentos saudáveis.

O crescimento do mercado é um movimento global. Nos últimos três anos, participei do seminário FRUTO, evento produzido pelo conceituado chefe de cozinha Alex Atala, que reúne profissionais, empresários e pesquisadores de todos os cantos do planeta para discutir a relação das pessoas, empresas e sociedades com o alimento. A força da agroecologia fica evidente em palestras como a do norte-americano Ron Finley, que organiza a produção de hortas comunitárias em espaços abandonados de Los Angeles, mostrando a milhares de pessoas uma nova perspectiva sobre suas relações com a produção da comida. 

A chinesa Shi Yan apresentou, também no evento, uma enorme transformação que a criação de fazendas operadas dentro do conceito de CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura) em território chinês. Exemplos como esses ocorrem na Itália nas famosas propriedades ligadas ao Agriturismo, na Dinamarca que tem como objetivo ser o primeiro país 100% orgânico, no crescente modelo de Slow Food de Carlo Petrini e também no continente Africano, onde Chido Govera, fundadora da fundação “Future of Hope”, busca acabar com a pobreza, o abuso, a autopiedade e a vitimização por meio de alimentos sustentáveis.

Tantos exemplos mostram que é um caminho sem volta, que cresce e se fortalece. Com o impulso de pessoas influentes, com o avanço da pesquisa e tecnologia voltada para esse setor, com formação de técnicos e outros profissionais especializados no assunto, movimentos agroecológicos tendem a aumentar e a ocupar cada vez mais destaque na produção mundial de alimentos.

Certamente existem desafios. A distribuição, o acesso à terra, a mudança de paradigmas e a falta de recursos são ao mesmo tempo obstáculos e oportunidades. Muitos já identificam isso e, no Brasil, se encontram anualmente na Bio Brasil Fair – Feira Internacional de Produtos Orgânicos e Agroecologia. 

Por mudar não apenas a forma de produção, mas nossa relação com o alimento e com a natureza, a agroecologia promete gerar impacto no campo, no varejo, na cultura, na moda, no turismo, na logística, ou seja, na sociedade como um todo. Negar essa transformação é fechar os olhos para aquilo que já acontece. Uma miopia que pode custar caro.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Marketing & growth
13 de junho de 2026 08H00
Em um cenário de mercado mais seletivo e volátil, este artigo mostra por que resultados consistentes não dependem de talento individual, mas da capacidade da liderança comercial de estruturar processos, diagnosticar com precisão e transformar vendas em uma operação científica.

Natalia Coca - Fundadora da FunFlow, estrategista de vendas e palestrante

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
12 de junho de 2026 14H00
Entre piscinas, quadras e salas de conselho, este artigo mostra por que a performance sustentável não nasce do excesso de esforço, mas da capacidade de alinhar foco, descanso, decisão e leitura de contexto na liderança.

Thierry Marcondes

0 min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth
12 de junho de 2026 09H00
O preço do aparelho é só o começo - o custo real aparece no uso. Este artigo revela como custos ocultos e recorrentes redefinem a lógica de consumo de smartphones e impulsionam novos modelos de uso.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de junho de 2026 16H00
O futuro do trabalho não está nos cargos. Este artigo revela por que a competitividade das empresas passa a depender menos do organograma e mais da capacidade de mapear, desenvolver e combinar competências.

Felipe Ribeiro - Cofundador da Evermonte Executive & Board Search

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
11 de junho de 2026 09H00
Em meio à queda de alcance e às mudanças constantes dos algoritmos, este artigo propõe um ajuste de rota: mais do que tentar “jogar o jogo” das plataformas, a verdadeira conexão, e relevância, ainda nasce da capacidade de ser humano, autêntico e presente nas interações.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

2 minutos min de leitura
Lifelong learning
10 de junho de 2026 17H00
Pior do que não saber é achar que já sabe. Este artigo expõe um risco silencioso nas organizações: não é a falta de conhecimento que mais compromete decisões, mas a combinação perigosa entre entendimento superficial e confiança excessiva.

Jorge Inafuco - Consultor e Palestrante da HSM, Sociólogo, Professor de MBAs, Conselheiro e Mentor

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de junho de 2026 08H00
Dentro dos bilhões investidos em IA existe uma única aposta: a de que a inteligência vai deixar de ser escassa. Se ela se confirmar, não vai apenas cortar os seus custos. Vai dissolver os fossos competitivos sobre os quais as partes mais lucrativas da sua empresa foram construídas, muitas vezes sem ninguém perceber.

Átila Persici Filho - COO da Bolder, Professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação

8 minutos min de leitura
Marketing
9 de junho de 2026 18H00
Em um mundo onde a presença digital se estende para além das redes sociais, este artigo mostra que a reputação de um líder não é construída pelo que ele publica, mas pela coerência entre discurso, comportamento e cada interação do dia a dia.

Bruna Lopes de Barros

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional
9 de junho de 2026 09H00
Nunca tivemos tanto acesso à informação. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil saber o que está realmente acontecendo.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
8 de junho de 2026 16H00
Este artigo mostra por que a inteligência artificial está deslocando o centro da competitividade das empresas, da tecnologia para a qualidade do pensamento organizacional.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão