Inovação & estratégia
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Brasil não precisa apenas repatriar cientistas. Precisa criar líderes de inovação

O Brasil já demonstrou sua capacidade de formar pesquisadores altamente qualificados. O desafio agora é fortalecer as pontes entre universidades, empresas, investidores e empreendedores para que a produção científica gere mais inovação, competitividade e impacto social.
Cofundador e CEO da Vyro Bio

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Sempre que se discute o futuro da ciência e inovação no Brasil, uma pauta ganha destaque: como trazer de volta pesquisadores brasileiros que construíram suas carreiras no exterior. A iniciativa é importante e merece ser incentivada. Mas talvez essa não seja a pergunta mais estratégica.

O Brasil já demonstrou, repetidas vezes, que forma cientistas de excelência. Em diversas áreas, contamos com infraestrutura e competência técnica capazes de produzir pesquisas de alto impacto. O desafio, portanto, não está apenas em formar ou repatriar talentos. Está em criar um ambiente onde esse conhecimento consiga atravessar as fronteiras do laboratório e gerar soluções concretas para a sociedade.

Em áreas estratégicas como biotecnologia, saúde, energia e inteligência artificial, transformar ciência em inovação deixou de ser apenas um diferencial competitivo. Tornou-se uma questão de desenvolvimento econômico, competitividade internacional e soberania tecnológica.

Essa percepção ficou ainda mais clara para mim durante meu doutorado na Temple University, na Filadélfia. Conviver em um ambiente onde universidades, indústria, investidores e empreendedores atuavam de forma integrada mostrou como a ciência pode percorrer um caminho natural até o mercado.

Empreender em biotecnologia nunca foi o caminho mais fácil. Trata-se de um setor intensivo em conhecimento, ciclos longos de desenvolvimento, elevado risco tecnológico e necessidade constante de investimento.

O conhecimento científico produzido no Brasil pode dar origem a tecnologias competitivas internacionalmente, gerar propriedade intelectual, atrair investimentos, formar equipes altamente qualificadas e contribuir para o desenvolvimento econômico.

Entretanto, fazer ciência e fazer gestão não são atividades opostas. Pelo contrário. A formação científica ensina a lidar com problemas complexos, tomar decisões baseadas em evidências e conviver com a incerteza. Ao mesmo tempo, é preciso desenvolver novas competências em liderança, gestão, estratégia e desenvolvimento de negócios para transformar pesquisa em inovação aplicada. Hoje acredito que essa combinação é uma das competências mais valiosas para quem deseja liderar empresas de base tecnológica.

É evidente que o ecossistema brasileiro de inovação amadureceu. Programas públicos de fomento, como o PIPE, da FAPESP, incubadoras, aceleradoras, parques tecnológicos, investidores especializados e iniciativas de transferência tecnológica vêm ampliando as possibilidades para startups de base científica. Ainda existem desafios importantes, mas hoje há caminhos que praticamente não existiam há uma década.

Talvez a mudança mais necessária, porém, seja cultural.

Durante muito tempo, consolidou-se a ideia de que o destino natural de um pesquisador era permanecer exclusivamente na academia. Essa continua sendo uma carreira indispensável para qualquer país que pretenda produzir conhecimento de qualidade. Mas certamente não é a única. Pesquisadores também podem fundar empresas, liderar programas de inovação, ocupar posições executivas, atuar na indústria, desenvolver novas tecnologias e transformar descobertas científicas em soluções para problemas reais.

Para que isso aconteça em maior escala, talvez seja o momento de ampliarmos também como formamos nossos cientistas. Além da excelência técnica, poderíamos incorporar de maneira mais consistente temas como empreendedorismo, propriedade intelectual, transferência tecnológica, desenvolvimento de negócios, liderança e comunicação. Não se trata de substituir a formação científica, mas de expandir suas possibilidades e mostrar aos jovens pesquisadores que existem diferentes caminhos para gerar impacto.

A inovação nasce da ciência, mas só transforma a sociedade quando consegue atravessar o chamado “vale da morte” entre a pesquisa e sua aplicação prática. Muitas descobertas permanecem restritas a artigos científicos quando poderiam se tornar empresas, medicamentos, tecnologias, empregos qualificados e desenvolvimento econômico. Fortalecer essa ponte talvez seja uma das decisões mais estratégicas que o Brasil pode tomar nas próximas décadas.

Ao longo da minha trajetória, um conceito passou a sintetizar muito daquilo em que acredito sobre inovação e liderança: os três H’s – Hands, Head e Heart.

As mãos representam a disposição para construir, executar e enfrentar o trabalho árduo que toda inovação exige. A cabeça simboliza o conhecimento, o pensamento crítico e a criatividade necessários para transformar problemas complexos em soluções. E o coração lembra que ciência e tecnologia existem para servir às pessoas e prosperam em ambientes onde há colaboração, confiança e propósito.

Encontrei esse conjunto de características em inúmeros pesquisadores, empreendedores e profissionais brasileiros com quem tive o privilégio de trabalhar. Pessoas extremamente competentes, resilientes, criativas e dispostas a construir coletivamente. Talvez esse seja o maior ativo estratégico do Brasil.

Países não competem apenas por talentos. Competem pela capacidade de transformar talentos em inovação, inovação em empresas e empresas em desenvolvimento. Se conseguirmos combinar o potencial humano que já possuímos com investimento de longo prazo, um ambiente regulatório moderno, políticas públicas consistentes e uma conexão cada vez maior entre universidades, empresas e investidores, o Brasil deixará de ser reconhecido apenas por formar excelentes cientistas. Passará a ser reconhecido por transformar ciência em prosperidade.

No fim, acredito que o futuro da inovação brasileira depende menos da nossa capacidade de formar talentos – algo que já demonstramos possuir – e mais da nossa capacidade de criar um ambiente onde esses talentos possam realizar todo o seu potencial. Porque o maior patrimônio de uma nação não está apenas em seus laboratórios ou em seus recursos naturais, mas nas pessoas que escolhem colocar suas mãos, sua inteligência e seu coração a serviço da construção do futuro.

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