Artigo

Cibersegurança: prevenir ainda é o melhor caminho

As organizações têm convivido com o impacto do crescimento dos ataques cibernéticos, cuja escala cresceu consideravelmente depois do início da pandemia. Esse ritmo pode levar os prejuízos a valores superiores a US$ 10 trilhões. Criar e estimular uma cultura de cibersegurança junto a todos os stakeholders é questão de sobrevivência.

Compartilhar:

Os problemas de cibersegurança são reais e se tornam cada vez mais frequentes no cotidiano de pessoas, empresas e mídia. A quantidade de incidentes aumentou consideravelmente após a covid-19, com a adoção em massa do trabalho remoto. É uma triste realidade em um momento de crise humanitária global.

Empresas são os alvos favoritos dos hackers, cujos ataques podem interromper operações inteiras por horas ou dias, causando perdas financeiras e de clientes, e danos de imagem. Os custos globais ligados ao cibercrime podem chegar a US$ 10,5 trilhões até 2025, segundo a empresa Cybersecurity Ventures.

Um ataque cibernético sofrido por uma empresa americana de serviços financeiros em 2017 gerou a exposição de dados de mais de 140 milhões de pessoas, a um custo estimado de US$ 1,4 bilhão. A causa foi uma vulnerabilidade já conhecida no portal de reclamações da empresa, nunca devidamente tratada.

Em 2021, um ataque a uma operadora americana de óleo e gás levou ao fechamento dos gasodutos por seis dias. Milhares de consumidores foram afetados pela escassez de combustível ou por mudanças em horários de voo. A origem do incidente foi uma conta de acesso à rede privada virtual (VPN) que não estava mais em uso, mas continuava acessível e com procedimentos de autenticação frágeis. Um mês depois, o ataque foi contra uma empresa brasileira do ramo alimentício, que reduziu sua produção em cerca de 20% nos dias posteriores ao ataque. Ambas as companhias pagaram para recuperarem seus dados e evitarem maiores problemas a seus clientes.

Se antes o impacto atingia a exposição de dados pessoais, estes dois últimos casos mostram que a interrupção de cadeias de fornecimento gera consequências ainda mais graves. O que leva os hackers a demandarem valores muito mais altos para devolverem os dados roubados e permitirem a regularizacão das operações. Outro ponto de atenção é que a infraestrutura atual de um gasoduto ou de uma planta industrial é digital e conectada, e sistemas controlam suas operações. Isso significa que esses ativos, e não somente os que tratam da administração da empresa, são suscetíveis aos ataques cibernéticos.

No Brasil, estamos especialmente vulneráveis. O relatório Panorama de Ameaças 2021 da Kaspersky mostra que os ciberataques no país cresceram 23% nos oito primeiros meses do ano; quase 1,4 mil ataques por minuto. A principal fonte de incidentes é o phishing – fraude que consiste em comunicações falsas em nome de empresas que são enviadas para as pessoas que revelam informações relevantes, pessoais ou corporativas. O relatório indica que 15,4% dos internautas brasileiros reportaram alguma tentativa de ataque.

Incidentes de segurança acontecem desde o início da internet. O primeiro ataque cibernético reportado foi em 1988, mas não tinha intenções criminosas. A curiosidade do estudante de gradução Robert Morris sobre o tamanho da internet afetou 6 mil computadores, o equivalente a 10% da internet na época.

Segundo o comentarista político americano Thomas Friedman, os anos 2007-2008 foram um ponto de inflexão da tecnologia, com uma avalanche de inovações hoje incorporadas ao nosso dia-a-dia – iPhone, Android, Kindle, entre outros. Trouxe também a aceleração dos crimes cibernéticos. Afinal, tudo que está conectado pode ser potencialmente hackeado.

Ferramentas e técnicas para prevenção de ataques cibernéticos evoluíram muito nos últimos anos, inclusive com o uso de inteligência artificial. E cresceu também a alocação de recursos. O orçamento mundial de cibersegurança deve passar de US$ 262,4 em 2021 para US$ 458,9 bilhões em 2025, segundo a Cybersecurity Ventures. Apesar disso, nenhuma empresa está completamente blindada. A razão é explicada em um estudo do BCG, que indica 77% das violações de segurança associadas a erros humanos ou processos inadequados.

E uma das constatações do Barômetro da Segurança Digital 2021, pesquisa encomendada pela Mastercard que entrevistou tomadores de decisão da área de tecnologia de diversos setores, foi que, embora as empresas reconheçam a importância do tema, as políticas de segurança digital e o treinamento dos funcionários ainda não estão desenvolvidos de forma aprofundada.

### Cultura de cibersegurança

Matthew Doan, do BCG Platinion nos Estados Unidos, propõe três ações para se colocar em prática a cultura de cibersegurança1:

– __Alinhar__ cibersegurança com a estratégia e objetivos de negócio.
– __Posicionar__ cibersegurança de forma a ter influência na organização.
– __Designar o líder__ de cibersegurança adequado para a empresa.

Uma cultura de cibersegurança deve permear toda a empresa: todos os profissionais devem criar, usar e manter ativos digitais de forma segura durante todo o seu ciclo de vida. Ainda é comum ver organizações tratarem a cibersegurança como uma atividade de backoffice, cujo time representa uma “polícia que atrasa a inovação”. A baixa prioridade de cibersegurança pode ter sido suficiente em um tempo de ameaças mais raras e menos perigosas do que as que vivenciamos hoje.

Para que sejam bem entendidas e adotadas por todos, as políticas de segurança digital devem ser claramente definidas e comunicadas para os profissionais, diferenciando os conteúdos de acordo com seus perfis e níveis de responsabilidade. O processo de educação é contínuo, pois ameaças e técnicas para evitá-las evoluem o tempo todo.

Uma cultura equitativa, propositiva e colaborativa ajuda a criar um ambiente propício para a segurança, em que as pessoas se sintam confortáveis para apontar problemas e propor soluções, independentemente de estruturas organizacionais ou hierárquicas. A colaboração é imprescindível para se ter uma visão multidisciplinar, que favoreça a resolução mais eficaz de incidentes.

Deve-se reconhecer e recompensar as pessoas por adotarem melhores práticas, assim como advertir ou punir a violação deliberada das políticas de segurança em vigor. O desafio e a complexidade do tema tornam importante entender e aceitar falhas, em um contínuo processo de aprendizado da empresa.

Cibersegurança é mais uma jornada do que um destino e exige uma liderança diligente e resiliente. É da natureza humana achar que os problemas só acontecem com os outros, mas as estatísticas mostram que a probabilidade de ataques cibernéticos ocorrerem em qualquer organização é cada vez maior. Com tal perspectiva, estar bem preparado é uma receita antiga, mas continua sendo a melhor alternativa.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O maior prejuízo de um ataque cibernético raramente está onde as empresas costumam procurar

A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Quando a IA assume as tarefas, a liderança ganha espaço para cuidar das pessoas

À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

A comunicação é um teto de vidro que pode afastar as mulheres da liderança

A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Entre viralizar e ser lembrado: O que acontece quando o algoritmo assume a estratégia?

As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Acordo Mercosul e União Europeia representa um novo ciclo de crescimento para o franchising brasileiro

A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

As edtechs brasileiras aprenderam a crescer sem investimento. Mas até onde isso pode levá-las?

Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 de agosto de 2026 14H00
Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
5 de agosto de 2026 08H00
A mobilização que o maior evento esportivo do mundo desperta revelou algo poderoso sobre os brasileiros: nossa capacidade de nos unir em torno de um objetivo comum. Mas por que essa mesma energia raramente se traduz em avanços estruturais para o país?

Laura Jane Pereira de Souza - Administradora de empresas, consultora e mentora

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 de agosto de 2026 14H00
O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
4 de agosto de 2026 de 2026
Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

3 minutos min de leitura
Marketing
3 de agosto de 2026 18H00
Quem você é além do crachá? A partir de reflexões sobre protagonismo e evolução profissional, a autora mostra por que cultivar a própria identidade é essencial para permanecer relevante em qualquer cenário.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

5 minutos min de leitura
Liderança
3 de agosto de 2026 14H00
Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
3 de agosto de 2026 08H00
Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
2 de agosto de 2026 13H00
Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Sthefano Scalon Cruvinel - Doutrinador do Direito, Auditor Judicial com atuação no STJ e CEO da EvidJuri

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de agosto de 2026 08H00
Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Fernando Wosniak Steler - Co-Fundador e CEO da Delend

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
1º de agosto de 2026 14H00
Impulsionadas pelas exigências de investidores, certificações ambientais e adaptação climática, as edificações sustentáveis consolidam-se como ativos estratégicos para empresas que buscam eficiência, resiliência e geração de valor de longo prazo.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor e responsável técnico da HotFloor

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo