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Como ampliar a jornada de consciência de liderança

Três passos podem ser dados para lidar com as fraturas nos relacionamentos em que nos envolvemos, com inspiração nas descobertas de Otto Scharmer, do MIT
*Carine Roos é pesquisadora de ética em inteligência artificial, direitos humanos, saúde emocional e gênero. A especialista possui mestrado em Gênero pela London School of Economics (LSE) e pós-graduação em Cultivando Equilíbrio Emocional pelo Santa Barbara Institute for Consciousness Studies. Fundadora e CEO da Newa, consultoria de impacto social especializada na criação de ambientes corporativos humanizados, éticos e psicologicamente seguros, tem como missão preparar e capacitar líderes de grandes empresas. Autora da newsletter The Hidden Politics of AI, que analisa o impacto das big techs na governança digital e nos direitos fundamentais, também é palestrante em eventos de inovação, LinkedIn Top Voice, e colunista em veículos como Você RH e HSM.

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Como cuidar do que é importante para nós, para as pessoas com que nos relacionamos e para o planeta quando vivemos um momento com tantos desequilíbrios sociais, econômicos, políticos, ambientais e sanitários? De uma coisa não há dúvidas: como diz Albert Einstein, não é com a mesma mentalidade na qual criamos esses desequilíbrios que conseguiremos. Precisaremos desenvolver um pensamento diferente para lidar com os desafios globais que estamos enfrentando. E e fazer mudanças para dentro e para todos os lados; é preciso mudar o todo.

Neste artigo, convido o leitor a iniciar essa mudança por três passos, que formam o que chamo de “ampliação da jornada da consciência” para a liderança. Esses passos conversam com o livro *Liderar a partir do futuro que emerge*, do professor do MIT Otto Scharmer, que identifica na origem dos desequilíbrios falhas “geológicas” nos três principais relacionamentos que nós humanos temos: (1) com a natureza e o nosso planeta; (2) de uns com os outros; (3) consigo mesmo.

Scharmer nos ensina, e é importante entender, que é a fratura desses relacionamento que cria os grandes divisores observados atualmente – o ecológico, o socioeconômico e o espiritual-cultural.

__Divisor ecológico.__ De acordo com o relatório da Global Footprint Network, a humanidade necessita hoje de um planeta e meio para manter seu padrão de consumo, o que coloca a biocapacidade da Terra em grande risco. Se as tendências se mantiverem, nosso uso excessivo de recursos naturais atingirá um nível inimaginável de três planetas até 2050. É uma desconexão total entre o eu e o planeta. Como reflete Ailton Krenak no livro *Ideias para Adiar o Fim do Mundo*, “fomos nos alienando… e passamos a pensar que a Terra é uma coisa e nós, outra. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza”.

__Divisor socioeconômico.__ A informação não é nova, mas merece ser repetida: em meio à pandemia da covid-19, os bilionários acumularam ainda mais dinheiro. De 1995 a 2021, o top 1% dos mais ricos ao redor do mundo deteve 38% do dinheiro global, enquanto os 50% mais pobres dividem apenas 2% dessa fortuna. Os dados são do estudo Desigualdade Mundial 2022, produzido pelo francês Thomas Piketty e é só um dos indicadores do abismo socioeconômico atual e do fato de se aprofundar rapidamente. Outro indicador vem do relatório E*stado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2022*, da Organização das Nações Unidas (ONU), aponta que o número de pessoas afetadas pela fome em todo o mundo subiu para 828 milhões em 2021, uma alta de cerca de 46 milhões, desde o relatório de 2020, e de 150 milhões se contabilizarmos desde o início da pandemia de covid-19. Das pessoas que passam fome, 98% vivem em países em desenvolvimento. Há uma desconexão evidente entre o eu e o outro.

__Divisor espiritual-cultural.__ A desconexão entre o “eu e o Eu” tem como sintoma nosso (baixo) nível de felicidade e bem-estar e a alta de episódios relacionados de estafa, depressão e suicídio. Atualmente, o Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo e o quinto mais depressivo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Esses três divisores são inter-relacionados. Exemplo simples: a perda de sentido da vida e do trabalho (o divisor espiritual-cultural) muitas vezes é preenchido por consumismo, o que aprofunda o divisor ecológico.

Esses três divisores nos levam a refletir sobre de que forma queremos operar nesse mundo, não? Esse é, na verdade, o maior desafio dos líderes da atualidade e isso obviamente passa por uma reflexão profunda sobre o pensamento econômico predominante. Como fazer?
Os três passos

Para romper com a lógica atual é preciso que as lideranças “descolonizem” a narrativa dominante. Três passos ajudam nisso, a saber:

1. __Relacionar-se melhor consigo mesmo (EU-EU).__ O autoconhecimento nos leva a uma reflexão profunda sobre o resgate da nossa história, a clareza sobre os nossos valores e sobre qual forma queremos operar no mundo, qual é o legado que quero deixar para essas e as próximas gerações? Eu não tenho dúvidas que a revolução se dará pelo resgate do afeto nas nossas relações.

O que nos faz felizes? Por 82 anos, pesquisadores da Harvard University, nos Estados Unidos, têm procurado essa resposta, é a pesquisa mais longa da história feita até o momento. O Study of Adult Development começou em 1938, acompanhando 700 rapazes por toda a vida, monitorando seu estado mental, físico e emocional. A descoberta fundamental, foi que o importante para nos mantermos felizes e saudáveis ao longo da vida, é a qualidade dos nossos relacionamentos.

Para isso acontecer, precisamos olhar para o nosso mundo interno, olhar a fundo para as nossas emoções, investigar a nossa base de dados emocional, termos maior consciência emocional, criarmos intimidade com o silêncio {veja texto abaixo}.

“Psp” vs. Silêncio

Thích Nhất Hanh, monge budista, escritor e ativista dos direitos humanos, chama a atenção para os riscos da rádio sempre ligada nas nossas mentes, a “Pensando Sem Parar”:

“A condição básica para sermos capazes de escutar o chamado da beleza — e responder a ele — é o silêncio. Se não temos silêncio dentro de nós mesmos — se nossas mentes e corpos estão repletos de barulho —, não somos capazes de ouvir o chamado da beleza. Existe uma rádio sempre ligada em nossa mente, a que eu chamo de “Estação PSP: Pensando Sem Parar”. Nossa mente vive repleta de ruídos, por isso não somos capazes de ouvir o chamado da vida, o chamado do amor. Nosso coração nos chama, mas não o escutamos. Não temos tempo para escutá-lo.”

É impossível exercermos uma liderança humana se estamos anestesiados de nossas emoções e de nosso corpo. Isso significa que as pausas, a qualidade do nosso sono, alimentação balanceada, prática de atividades físicas, o cultivo de uma mente saudável livre das aflições mentais é a chave para sermos líderes mais amorosos e compassivos.

Ainda é necessário reconhecer que o individual também é político e o político também é individual. Ser político é, na essência, promover o bem-estar de outras pessoas, não importa quem. Isso significa que nossas escolhas são sempre políticas porque podemos beneficiar ou prejudicar pessoas e a sociedade. O que você consome? Quais roupas veste? Qual é a origem do alimento que você consome? É pensar em ações intencionais diariamente desde que levantamos da cama.

Por fim, esse passo implica entendermos qual é nossa posição social nesse mundo, quão privilegiados somos por estar ocupando o lugar atual. Importante: deve-se romper a bolha em que vivemos, o que ocorre a partir do encontro com pessoas que estão nas margens.

2. __Relacionar-se melhor com os outros (EU-OUTRO).__ Depois da minha mudança interna, eu tenho de passar a desenvolver uma maior qualidade nas minhas relações, o que requer uma escuta ativa e cuidadosa de todos os stakeholders.

Estamos vivendo uma disputa de narrativas, quem está certo e errado, quem possui a informação verdadeira e quem não. Nisso, a aceitação da diversidade está perdendo campo; o desenvolvimento de competências como empatia e compaixão fica mais necessário do que nunca. O fundador da Comunicação Não Violenta (CNV), Marshall Rosenberg, elenca quatro atitudes que podemos tomar para sair do modo automático com que reagimos aos outros e nos expressamos com eles: (1) separar o que de fato aconteceu em uma situação das avaliações que fazemos sobre ela, (2) lembrar que não há sentimentos bons ou ruins em si, mas que sentimentos são apenas mensageiros das nossas necessidades humanas universais; (3) questionar a necessidade por trás de uma reação alheia – por exemplo, se uma pessoa se sente triste quando está sozinha, a causa é a necessidade de conexão, apoio e afeto – (4) fazer pedidos sobre como gostaríamos de atender a nossas necessidades; ao pedirmos, damos ao outro a oportunidade de colaborar no que é importante para nós.

3. __Relacionar-se melhor com o sistema como um todo (EU-NATUREZA).__ As organizações devem fazer uma verdadeira revolução na forma como impactam a sociedade de maneira mais consciente, o que vai desde olhar como usam recursos naturais e descartam os resíduos do seu processo industrial até seu consumo de água e o tipo de energia utilizada, passando por como tratam colaboradores e toda a cadeia produtiva, o respeito aos direitos humanos e a prática de transparência. Para isso é necessário desenvolver uma nova mentalidade das lideranças alinhada às práticas da nova economia, tratando concorrentes não como inimigos, e sim como colaboradores potenciais, já que o foco de todos é o impacto na sociedade. Isso também requer uma cultura centrada em pessoas, em suas necessidades e emoções e, sobretudo, líderes que praticam a vulnerabilidade e reconhecem suas limitações, sendo transparentes com clientes, colaboradores e toda a sua cadeia.

Precisamos de líderes que usem seu poder para transformar o mundo.

__Leia também: [Como colecionar resultados](https://www.revistahsm.com.br/post/como-colecionar-resultados)__

Artigo publicado na HSM Management nº 156.

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