Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
6 minutos min de leitura
Oferecido por:

Da Copa do Mundo à NR-1: por que confiança virou a principal responsabilidade da liderança

Inspirado por um colapso histórico no esporte, este artigo revela um dos riscos mais silenciosos das organizações: equipes talentosas deixam de performar quando a confiança desaparece - e a liderança não cria um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para falar, participar e contribuir de verdade.
Psicólogo Clínico, Pós-Doutor pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e Reitor da Artmed School of Psychology (APSY), primeira instituição da América Latina dedicada exclusivamente à formação de psicólogos clínicos.

Compartilhar:

Há alguns anos, a seleção francesa chegou a uma Copa do Mundo cercada de talento. Jogadores milionários, estrelas internacionais, experiência, estrutura e reconhecimento global. Mas o que ficou marcado naquela campanha não foram os gols. Foi o colapso.

Conflitos internos, dificuldades de comunicação, rupturas na relação entre atletas e comissão técnica e um ambiente cada vez mais fragmentado acabaram transformando uma das seleções mais talentosas do planeta em um exemplo de desorganização coletiva.

Talvez exista uma lição importante nisso: o talento, sozinho, não sustenta equipes. A competência técnica, por si só, não garante cooperação. E pessoas brilhantes também podem deixar de funcionar como grupo quando a confiança desaparece.

O talento atrai vitórias. A confiança sustenta vitórias.

No mundo corporativo, muitas organizações vivem dilemas semelhantes. Possuem profissionais altamente qualificados, metas bem definidas, tecnologia avançada e processos sofisticados. Mas, ainda assim, enfrentam dificuldades crescentes relacionadas à comunicação, pertencimento, esgotamento emocional e deterioração das relações de trabalho.

A pergunta talvez seja desconfortável: Quantas pessoas entram para trabalhar motivadas e, ao longo do tempo, passam a atuar apenas tentando não errar?

Talvez essa seja uma das formas mais silenciosas de adoecimento organizacional.

A atualização da NR-1 trouxe ainda mais atenção para a gestão dos riscos psicossociais, reforçando a necessidade de ambientes de trabalho saudáveis e sustentáveis.

Uma pesquisa do LinkedIn aponta que 87% dos profissionais brasileiros se sentem sobrecarregados diante das transformações aceleradas do ambiente de trabalho. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde já indicava o Brasil como o país com maior prevalência de ansiedade do mundo, com aproximadamente 18,6 milhões de pessoas afetadas. Os números impressionam. Mas talvez a questão mais relevante seja outra:

O que estamos fazendo para impedir que ambientes de trabalho se tornem aceleradores silenciosos desse sofrimento?

A própria liderança também enfrenta desafios significativos. Estudo publicado pela Harvard Business Review mostrou que 96% dos líderes relatam níveis elevados de estresse relacionados ao excesso de trabalho e que um terço deles se considera cronicamente esgotado.

A pressão organizacional raramente desaparece, o que muda é a forma como ela circula.

O que a Copa do Mundo nos ensina sobre liderança?

Quando observamos grandes seleções, percebemos que os melhores resultados raramente surgem apenas do talento individual. Eles surgem da confiança. Jogadores que confiam em seus técnicos falam mais cedo, escondem menos problemas e aprendem mais rápido e, o mesmo acontece nas organizações. Quando as pessoas acreditam que serão ouvidas, elas falam. Quando acreditam que serão humilhadas, elas se calam.

E poucas coisas são tão perigosas para uma organização quanto uma equipe que concluiu que falar não vale a pena.

Problemas deixam de ser reportados. Ideias deixam de ser compartilhadas. Erros deixam de ser corrigidos. O silêncio organizacional é um dos riscos mais caros que existem.

Segurança psicológica: a base das equipes de alta performance

Todos nós já estivemos em ambientes onde pensamos duas vezes antes de fazer uma pergunta. Onde evitamos discordar. Onde preferimos permanecer calados para não parecer incompetentes ou criar conflitos. Com o tempo, esse silêncio cobra um preço. A segurança psicológica nasce justamente no movimento contrário. Ela surge quando as pessoas sentem que podem participar, aprender, discordar e crescer sem que isso ameace sua dignidade. Segurança psicológica não significa ausência de cobrança, significa que desempenho e respeito não precisam ser adversários.

Clarice Lispector escreveu certa vez: “Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” Nas organizações, vale essa reflexão. Talvez o colaborador que mais incomoda seja exatamente aquele que ainda não desistiu de dizer o que pensa. Ambientes psicologicamente inseguros tendem a pressionar as pessoas para que se tornem excessivamente parecidas.

Mas equipes fortes raramente nascem da uniformidade.

A NR-1 e os riscos psicossociais

A evolução da NR-1 reforça a importância da identificação, avaliação e gerenciamento dos riscos ocupacionais, incluindo fatores psicossociais que impactam diretamente a saúde mental dos trabalhadores. Mas os riscos psicossociais contemporâneos nem sempre aparecem de forma tão evidente. Muitas vezes, eles surgem sob a aparência de produtividade.

Reuniões intermináveis. Videoconferências sucessivas. Fluxos contínuos de mensagens. Interrupções constantes.

Não é raro encontrar profissionais que passam horas discutindo produtividade enquanto a própria dinâmica dessas reuniões se transforma em uma fonte silenciosa de esgotamento.

A hiperconectividade, a multiplicação dos canais digitais de comunicação e a expectativa de disponibilidade permanente ampliaram ainda mais a complexidade desses desafios.

Nem toda organização exausta é uma organização produtiva.

Talvez uma das perguntas mais importantes para as organizações atualmente não seja apenas quanto as pessoas trabalham.

Mas quanto tempo elas conseguem trabalhar sem serem interrompidas. Durante muito tempo, organizações aprenderam a monitorar riscos físicos com enorme precisão.

Hoje surge um novo desafio: Estamos preparados para reconhecer os riscos emocionais com a mesma seriedade?

Os indicadores financeiros costumam aparecer nos relatórios.

Os indicadores emocionais costumam aparecer nas pessoas.

A experiência tem mostrado que ainda estamos longe disso.

O líder como construtor de ambientes seguros

Assim como um técnico influencia diretamente o clima dentro de um vestiário, líderes moldam diariamente a experiência emocional das equipes.

Suas atitudes, palavras e decisões constroem culturas. Promover comunicação aberta, estimular a participação, valorizar perspectivas distintas, reconhecer esforços e tratar erros como oportunidades de aprendizado são atitudes simples, mas que frequentemente definem se uma equipe irá florescer ou apenas sobreviver.

Pressão não precisa gerar medo

A Copa do Mundo mostra que grandes resultados exigem preparo, disciplina e foco, mas as equipes mais bem-sucedidas raramente são aquelas movidas pelo medo. São aquelas que conseguem transformar pressão em confiança, o mesmo vale para as organizações. Ao longo de mais de quarenta anos trabalhando com saúde mental, aprendi que o sofrimento raramente começa nos grandes eventos. Ele costuma surgir nos pequenos silêncios, em perguntas que deixam de ser feitas, em preocupações que deixam de ser compartilhadas, em discordâncias que deixam de ser expressas. Curiosamente, um dos sinais que mais me chamam a atenção é quando a fricção interpessoal desaparece por completo.

À primeira vista, isso pode parecer harmonia, nem sempre é. Muitas vezes, significa apenas que as pessoas desistiram de participar. O silêncio passa a ocupar o espaço que antes pertencia ao diálogo e à discordância. Talvez a pergunta mais importante para os líderes não seja como aumentar a produtividade.

Talvez seja outra: “As pessoas da minha equipe sentem-se seguras para dizer aquilo que realmente pensam?”

Porque, no final, resultados são produzidos por pessoas. E pessoas florescem onde existe confiança.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Reduzimos o analfabetismo. Agora precisamos evitar que os jovens abandonem a escola.

Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Entre o burnout, a felicidade e a IA: o que aprendemos no Mind Summit 2026

Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

O futuro da governança continua sendo humano

Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Crédito justo depende de informação, não apenas de regulação

Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

O conselho do Mind Summit 2026: mens sana in “corporate” sano

Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Tecnologia & inteligencia artificial
5 de setembro de 2026 14H00
A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

Oferecido por:
2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
4 de setembro de 2026 14H00
A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Juliana Algodoal - PhD em Análise do Discurso e especialista em comunicação corporativa

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de setembro de 2026 08H00
As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Juliana Bezerra - Líder de conteúdo na DEA Design

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Direito, Regulação & Compliance
3 de setembro de 2026 18H00
A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

Camila Nicolau - Advogada especialista em Direito Empresarial e Contratual

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Marketing & growth
3 de setembro de 2026 14H00
Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.

Claudia Schulz - CEO da ABStartups

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
3 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a pergunta mais importante já não é qual solução de IA adotar, mas quem está definindo os limites, os objetivos e as regras de uso dessa tecnologia dentro da organização.

Erick Rezende - Diretor de Delivery na Cognitivo AI

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
2 de setembro de 2026 14H00
À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Marketing & growth
2 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Bruno Almeida - CEO da US Media

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 15H00
Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

Oferecido por:
4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução