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Da Copa do Mundo à NR-1: por que confiança virou a principal responsabilidade da liderança

Inspirado por um colapso histórico no esporte, este artigo revela um dos riscos mais silenciosos das organizações: equipes talentosas deixam de performar quando a confiança desaparece - e a liderança não cria um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para falar, participar e contribuir de verdade.
Psicólogo Clínico, Pós-Doutor pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e Reitor da Artmed School of Psychology (APSY), primeira instituição da América Latina dedicada exclusivamente à formação de psicólogos clínicos.

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Há alguns anos, a seleção francesa chegou a uma Copa do Mundo cercada de talento. Jogadores milionários, estrelas internacionais, experiência, estrutura e reconhecimento global. Mas o que ficou marcado naquela campanha não foram os gols. Foi o colapso.

Conflitos internos, dificuldades de comunicação, rupturas na relação entre atletas e comissão técnica e um ambiente cada vez mais fragmentado acabaram transformando uma das seleções mais talentosas do planeta em um exemplo de desorganização coletiva.

Talvez exista uma lição importante nisso: o talento, sozinho, não sustenta equipes. A competência técnica, por si só, não garante cooperação. E pessoas brilhantes também podem deixar de funcionar como grupo quando a confiança desaparece.

O talento atrai vitórias. A confiança sustenta vitórias.

No mundo corporativo, muitas organizações vivem dilemas semelhantes. Possuem profissionais altamente qualificados, metas bem definidas, tecnologia avançada e processos sofisticados. Mas, ainda assim, enfrentam dificuldades crescentes relacionadas à comunicação, pertencimento, esgotamento emocional e deterioração das relações de trabalho.

A pergunta talvez seja desconfortável: Quantas pessoas entram para trabalhar motivadas e, ao longo do tempo, passam a atuar apenas tentando não errar?

Talvez essa seja uma das formas mais silenciosas de adoecimento organizacional.

A atualização da NR-1 trouxe ainda mais atenção para a gestão dos riscos psicossociais, reforçando a necessidade de ambientes de trabalho saudáveis e sustentáveis.

Uma pesquisa do LinkedIn aponta que 87% dos profissionais brasileiros se sentem sobrecarregados diante das transformações aceleradas do ambiente de trabalho. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde já indicava o Brasil como o país com maior prevalência de ansiedade do mundo, com aproximadamente 18,6 milhões de pessoas afetadas. Os números impressionam. Mas talvez a questão mais relevante seja outra:

O que estamos fazendo para impedir que ambientes de trabalho se tornem aceleradores silenciosos desse sofrimento?

A própria liderança também enfrenta desafios significativos. Estudo publicado pela Harvard Business Review mostrou que 96% dos líderes relatam níveis elevados de estresse relacionados ao excesso de trabalho e que um terço deles se considera cronicamente esgotado.

A pressão organizacional raramente desaparece, o que muda é a forma como ela circula.

O que a Copa do Mundo nos ensina sobre liderança?

Quando observamos grandes seleções, percebemos que os melhores resultados raramente surgem apenas do talento individual. Eles surgem da confiança. Jogadores que confiam em seus técnicos falam mais cedo, escondem menos problemas e aprendem mais rápido e, o mesmo acontece nas organizações. Quando as pessoas acreditam que serão ouvidas, elas falam. Quando acreditam que serão humilhadas, elas se calam.

E poucas coisas são tão perigosas para uma organização quanto uma equipe que concluiu que falar não vale a pena.

Problemas deixam de ser reportados. Ideias deixam de ser compartilhadas. Erros deixam de ser corrigidos. O silêncio organizacional é um dos riscos mais caros que existem.

Segurança psicológica: a base das equipes de alta performance

Todos nós já estivemos em ambientes onde pensamos duas vezes antes de fazer uma pergunta. Onde evitamos discordar. Onde preferimos permanecer calados para não parecer incompetentes ou criar conflitos. Com o tempo, esse silêncio cobra um preço. A segurança psicológica nasce justamente no movimento contrário. Ela surge quando as pessoas sentem que podem participar, aprender, discordar e crescer sem que isso ameace sua dignidade. Segurança psicológica não significa ausência de cobrança, significa que desempenho e respeito não precisam ser adversários.

Clarice Lispector escreveu certa vez: “Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” Nas organizações, vale essa reflexão. Talvez o colaborador que mais incomoda seja exatamente aquele que ainda não desistiu de dizer o que pensa. Ambientes psicologicamente inseguros tendem a pressionar as pessoas para que se tornem excessivamente parecidas.

Mas equipes fortes raramente nascem da uniformidade.

A NR-1 e os riscos psicossociais

A evolução da NR-1 reforça a importância da identificação, avaliação e gerenciamento dos riscos ocupacionais, incluindo fatores psicossociais que impactam diretamente a saúde mental dos trabalhadores. Mas os riscos psicossociais contemporâneos nem sempre aparecem de forma tão evidente. Muitas vezes, eles surgem sob a aparência de produtividade.

Reuniões intermináveis. Videoconferências sucessivas. Fluxos contínuos de mensagens. Interrupções constantes.

Não é raro encontrar profissionais que passam horas discutindo produtividade enquanto a própria dinâmica dessas reuniões se transforma em uma fonte silenciosa de esgotamento.

A hiperconectividade, a multiplicação dos canais digitais de comunicação e a expectativa de disponibilidade permanente ampliaram ainda mais a complexidade desses desafios.

Nem toda organização exausta é uma organização produtiva.

Talvez uma das perguntas mais importantes para as organizações atualmente não seja apenas quanto as pessoas trabalham.

Mas quanto tempo elas conseguem trabalhar sem serem interrompidas. Durante muito tempo, organizações aprenderam a monitorar riscos físicos com enorme precisão.

Hoje surge um novo desafio: Estamos preparados para reconhecer os riscos emocionais com a mesma seriedade?

Os indicadores financeiros costumam aparecer nos relatórios.

Os indicadores emocionais costumam aparecer nas pessoas.

A experiência tem mostrado que ainda estamos longe disso.

O líder como construtor de ambientes seguros

Assim como um técnico influencia diretamente o clima dentro de um vestiário, líderes moldam diariamente a experiência emocional das equipes.

Suas atitudes, palavras e decisões constroem culturas. Promover comunicação aberta, estimular a participação, valorizar perspectivas distintas, reconhecer esforços e tratar erros como oportunidades de aprendizado são atitudes simples, mas que frequentemente definem se uma equipe irá florescer ou apenas sobreviver.

Pressão não precisa gerar medo

A Copa do Mundo mostra que grandes resultados exigem preparo, disciplina e foco, mas as equipes mais bem-sucedidas raramente são aquelas movidas pelo medo. São aquelas que conseguem transformar pressão em confiança, o mesmo vale para as organizações. Ao longo de mais de quarenta anos trabalhando com saúde mental, aprendi que o sofrimento raramente começa nos grandes eventos. Ele costuma surgir nos pequenos silêncios, em perguntas que deixam de ser feitas, em preocupações que deixam de ser compartilhadas, em discordâncias que deixam de ser expressas. Curiosamente, um dos sinais que mais me chamam a atenção é quando a fricção interpessoal desaparece por completo.

À primeira vista, isso pode parecer harmonia, nem sempre é. Muitas vezes, significa apenas que as pessoas desistiram de participar. O silêncio passa a ocupar o espaço que antes pertencia ao diálogo e à discordância. Talvez a pergunta mais importante para os líderes não seja como aumentar a produtividade.

Talvez seja outra: “As pessoas da minha equipe sentem-se seguras para dizer aquilo que realmente pensam?”

Porque, no final, resultados são produzidos por pessoas. E pessoas florescem onde existe confiança.

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