Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
5 minutos min de leitura

“Dormir é perda de tempo”: Por que empresas estão reaprendendo o valor do descanso

A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.
CEO da Luuna no Brasil. Formado em Engenharia Aeroespacial pela Universidade de Lisboa e com MBA pelo INSEAD, acumula cerca de 15 anos de experiência em estratégia, negócios e desenvolvimento de empresas. Ao longo da carreira, atuou em consultorias globais como a McKinsey & Company, além de liderar iniciativas nas áreas de produto, marketing e tecnologia na Linio, uma investida da Rocket Internet. Antes de assumir o comando da Luuna no país, foi responsável pela instalação e arranque da fábrica do grupo no México.

Compartilhar:

Há uma frase que circula silenciosamente em escritórios, grupos de WhatsApp de trabalho e legendas de LinkedIn: “vou dormir quando morrer”. Ela resume o espírito de uma geração criada para acreditar que descanso é preguiça, que sono é tempo roubado da produtividade e que cansaço é prova de esforço. O problema é que essa lógica, além de falsa, tem preço, e o preço está nos números.

Reconheço esse roteiro de perto. Nos primeiros anos da minha carreira, fiz o mesmo: trabalhava com frequência mais de 80 horas por semana e ainda reservava tempo para me divertir durante a semana, no espírito do work hard, play harder. Hoje tenho plena consciência de que essa lógica me custou anos de vida.

A conta que já está sendo paga

Na cultura hustle, dormir quatro ou cinco horas por noite virou quase um troféu. Funciona como sinal de resiliência, de compromisso, de que a pessoa “quer mais” do que as outras. A ciência do sono desmonta essa narrativa há décadas: mesmo a privação moderada, de seis horas ou menos por noite, já compromete o desempenho cognitivo, com efeitos comparáveis aos da privação total. E há um agravante: quem acumula sono atrasado costuma não perceber o próprio declínio. A pessoa se sente produtiva enquanto, na prática, rende menos.

Em escala macroeconômica, esse desempenho perdido tem valor calculado. Em um dos estudos mais citados sobre o tema, publicado em 2016, a RAND Corporation estimou que a falta de sono custa até US$ 411 bilhões por ano à economia dos Estados Unidos, o equivalente a 2,3% do PIB. No Japão, cuja cultura de excesso de trabalho é tão extrema que originou a palavra karoshi (“morte por excesso de trabalho”), a perda chega a quase 3% do PIB. O mesmo estudo traz o dado mais irônico de todos: se as pessoas que dormem menos de seis horas passassem a dormir entre seis e sete, isso poderia adicionar US$ 226 bilhões à economia americana. Ou seja, dormir mais aumentaria exatamente a produtividade que a cultura hustle promete perseguir.

O quadro global de esgotamento acompanha essa curva. Segundo o relatório State of the Global Workplace, da Gallup, o engajamento dos funcionários no mundo caiu para 20% em 2025, o menor patamar desde 2020, e o baixo engajamento representou perda estimada de US$ 10 trilhões em produtividade em 2024, cerca de 9% do PIB global.

No Brasil, os efeitos aparecem com clareza nos dados do INSS. Os afastamentos por síndrome de burnout saltaram de pouco mais de 800 registros em 2021 para quase 4,9 mil em 2024. De forma mais ampla, os afastamentos por transtornos mentais passaram de cerca de 220 mil concessões em 2023 para 368 mil em 2024. O impacto financeiro segue o mesmo desenho: os gastos do INSS com benefícios por incapacidade relacionados à saúde mental subiram de R$ 19 bilhões em 2022 para R$ 32 bilhões em 2024, alta de 68% em dois anos. Não é coincidência que, desde 1º de janeiro de 2025, o país adote a CID-11, da Organização Mundial da Saúde, que classifica o burnout sob o código QD85 e o associa formalmente ao contexto de trabalho. O corpo está cobrando a fatura que a cultura da produtividade tentou empurrar para depois.

O pêndulo virou: descanso como estratégia

A boa notícia é que esse discurso já não é unânime. Depois de anos glorificando a exaustão, dormir bem virou prioridade na cultura de bem-estar e passou a ser tratado como estratégia preventiva de saúde metabólica, imunológica, cardiovascular e cognitiva. Segundo o relatório Global State of Health & Wellness 2025, da NielsenIQ, 63% dos consumidores no mundo dizem priorizar sono de qualidade e saúde mental mais do que priorizavam cinco anos atrás.

O mercado sentiu a virada. De acordo com o Global Wellness Economy Monitor 2025, do Global Wellness Institute, a economia global do bem-estar alcançou US$ 6,8 trilhões em 2024, e o Brasil movimentou US$ 125 bilhões no mesmo período, o equivalente a quase 6% do PIB, o que faz do país o maior mercado da América Latina e o 11º maior do mundo. Dentro desse universo, o sono deixou de ser coadjuvante: o mercado global de sleep tech, que reúne dispositivos, sensores, aplicativos e materiais voltados ao descanso, foi avaliado em US$ 25 bilhões em 2025, com projeção de US$ 58 bilhões em 2030, ritmo de 18% ao ano, segundo a consultoria The Business Research Company. É nesse contexto que marcas de colchão deixaram de vender apenas um lugar para deitar: o desenvolvimento passou a partir de variáveis mensuráveis, como temperatura da superfície, dissipação de calor, distribuição de pressão e ergonomia. Na prática, a categoria saiu da lógica de móvel e entrou na de equipamento de saúde, o que muda o que se pesquisa, o que se testa e o que se promete ao consumidor.

O erro central da cultura hustle é tratar sono e produtividade como lados opostos de uma balança, como se cada hora dormida fosse uma hora roubada do trabalho. Os dados mostram o contrário: o sono insuficiente não libera tempo produtivo, ele o destrói silenciosamente, por meio de presenteísmo, erros, afastamentos e adoecimento. Repensar essa lógica é também repensar o próprio conceito de sucesso: trocar o orgulho de aguentar com menos horas de sono pelo reconhecimento de que noites bem dormidas são, na verdade, o investimento mais rentável que existe.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que os lugares ensinam sobre controle

Marca de empresa é criada, marca de lugar é descoberta. Os gestores corporativos têm muito o que aprender com o “place branding” sobre gerir algo que não tem dono

Circulando pelo mundo, com sotaque brasileiro

Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Organizações vivas: o que o levain ensina a quem lidera?

Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Inovação farmacêutica brasileira: um ponto de inflexão nas análises do setor

Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento.
Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

Direito, Regulação & Compliance
23 de setembro de 2026 08H00
A crescente complexidade regulatória da armazenagem e distribuição de agroquímicos elevou o nível de responsabilidade das empresas do setor. O que antes era visto como uma exigência burocrática agora impacta diretamente a sustentabilidade financeira, jurídica e reputacional das organizações.

Antonio Sousa - Gerente corporativo de HSE da Bravo Serviços Logísticos

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de setembro de 2026 14H00
Ao eliminar distorções fiscais e reduzir a antecipação do recolhimento do ICMS em determinados produtos, as novas regras trazem mais equilíbrio tributário para fabricantes e distribuidores. A mudança não reduz necessariamente a carga tributária, mas pode melhorar o fluxo de caixa, simplificar operações e impulsionar a competitividade do setor.

Alexandro Ferreira de Souza - Superintendente de Planejamento Econômico e Financeiro da Termomecanica

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de setembro de 2026 08H00
Durante anos, as empresas disputaram espaço na tela dos usuários por meio de aplicativos, portais e plataformas digitais. Agora, a ascensão das interfaces de inteligência artificial inaugura uma nova lógica: em vez de buscar atenção, os softwares passam a competir para estar presentes no momento exato em que uma decisão é tomada.

Fulvio Mascara - Head global de inovação da Foursys

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
21 de setembro de 2026 14H00
Da carta assinada por milhares de pesquisadores aos recentes pedidos de desaceleração feitos por líderes da OpenAI, Anthropic e DeepMind, cresce o debate sobre os riscos e os limites da inteligência artificial. O desafio talvez não seja decidir se devemos continuar avançando, mas descobrir como fazê-lo sem perder o controle do rumo que estamos escolhendo.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
21 de setembro de 2026 08H00
Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

8 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de setembro de 2026 14H00
Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

5 minutos min de leitura
Geopolítica
20 de setembro de 2026 08H00
A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos - energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva - que pode transformar sua posição internacional.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de setembro de 2026 14H00
A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

Matheus Fonseca - Fundador da Leapy

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de setembro de 2026 08H00
Profissionais de alto impacto já conseguem pesquisar, analisar, testar hipóteses e executar entregas com um nível de autonomia impensável há poucos anos. O problema é que muitas organizações ainda operam com estruturas, processos e planos de carreira desenhados para limitar exatamente esse potencial.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

8 minutos min de leitura
Liderança
18 de setembro de 2026 14H00
A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução