Há uma frase que circula silenciosamente em escritórios, grupos de WhatsApp de trabalho e legendas de LinkedIn: “vou dormir quando morrer”. Ela resume o espírito de uma geração criada para acreditar que descanso é preguiça, que sono é tempo roubado da produtividade e que cansaço é prova de esforço. O problema é que essa lógica, além de falsa, tem preço, e o preço está nos números.
Reconheço esse roteiro de perto. Nos primeiros anos da minha carreira, fiz o mesmo: trabalhava com frequência mais de 80 horas por semana e ainda reservava tempo para me divertir durante a semana, no espírito do work hard, play harder. Hoje tenho plena consciência de que essa lógica me custou anos de vida.
A conta que já está sendo paga
Na cultura hustle, dormir quatro ou cinco horas por noite virou quase um troféu. Funciona como sinal de resiliência, de compromisso, de que a pessoa “quer mais” do que as outras. A ciência do sono desmonta essa narrativa há décadas: mesmo a privação moderada, de seis horas ou menos por noite, já compromete o desempenho cognitivo, com efeitos comparáveis aos da privação total. E há um agravante: quem acumula sono atrasado costuma não perceber o próprio declínio. A pessoa se sente produtiva enquanto, na prática, rende menos.
Em escala macroeconômica, esse desempenho perdido tem valor calculado. Em um dos estudos mais citados sobre o tema, publicado em 2016, a RAND Corporation estimou que a falta de sono custa até US$ 411 bilhões por ano à economia dos Estados Unidos, o equivalente a 2,3% do PIB. No Japão, cuja cultura de excesso de trabalho é tão extrema que originou a palavra karoshi (“morte por excesso de trabalho”), a perda chega a quase 3% do PIB. O mesmo estudo traz o dado mais irônico de todos: se as pessoas que dormem menos de seis horas passassem a dormir entre seis e sete, isso poderia adicionar US$ 226 bilhões à economia americana. Ou seja, dormir mais aumentaria exatamente a produtividade que a cultura hustle promete perseguir.
O quadro global de esgotamento acompanha essa curva. Segundo o relatório State of the Global Workplace, da Gallup, o engajamento dos funcionários no mundo caiu para 20% em 2025, o menor patamar desde 2020, e o baixo engajamento representou perda estimada de US$ 10 trilhões em produtividade em 2024, cerca de 9% do PIB global.
No Brasil, os efeitos aparecem com clareza nos dados do INSS. Os afastamentos por síndrome de burnout saltaram de pouco mais de 800 registros em 2021 para quase 4,9 mil em 2024. De forma mais ampla, os afastamentos por transtornos mentais passaram de cerca de 220 mil concessões em 2023 para 368 mil em 2024. O impacto financeiro segue o mesmo desenho: os gastos do INSS com benefícios por incapacidade relacionados à saúde mental subiram de R$ 19 bilhões em 2022 para R$ 32 bilhões em 2024, alta de 68% em dois anos. Não é coincidência que, desde 1º de janeiro de 2025, o país adote a CID-11, da Organização Mundial da Saúde, que classifica o burnout sob o código QD85 e o associa formalmente ao contexto de trabalho. O corpo está cobrando a fatura que a cultura da produtividade tentou empurrar para depois.
O pêndulo virou: descanso como estratégia
A boa notícia é que esse discurso já não é unânime. Depois de anos glorificando a exaustão, dormir bem virou prioridade na cultura de bem-estar e passou a ser tratado como estratégia preventiva de saúde metabólica, imunológica, cardiovascular e cognitiva. Segundo o relatório Global State of Health & Wellness 2025, da NielsenIQ, 63% dos consumidores no mundo dizem priorizar sono de qualidade e saúde mental mais do que priorizavam cinco anos atrás.
O mercado sentiu a virada. De acordo com o Global Wellness Economy Monitor 2025, do Global Wellness Institute, a economia global do bem-estar alcançou US$ 6,8 trilhões em 2024, e o Brasil movimentou US$ 125 bilhões no mesmo período, o equivalente a quase 6% do PIB, o que faz do país o maior mercado da América Latina e o 11º maior do mundo. Dentro desse universo, o sono deixou de ser coadjuvante: o mercado global de sleep tech, que reúne dispositivos, sensores, aplicativos e materiais voltados ao descanso, foi avaliado em US$ 25 bilhões em 2025, com projeção de US$ 58 bilhões em 2030, ritmo de 18% ao ano, segundo a consultoria The Business Research Company. É nesse contexto que marcas de colchão deixaram de vender apenas um lugar para deitar: o desenvolvimento passou a partir de variáveis mensuráveis, como temperatura da superfície, dissipação de calor, distribuição de pressão e ergonomia. Na prática, a categoria saiu da lógica de móvel e entrou na de equipamento de saúde, o que muda o que se pesquisa, o que se testa e o que se promete ao consumidor.
O erro central da cultura hustle é tratar sono e produtividade como lados opostos de uma balança, como se cada hora dormida fosse uma hora roubada do trabalho. Os dados mostram o contrário: o sono insuficiente não libera tempo produtivo, ele o destrói silenciosamente, por meio de presenteísmo, erros, afastamentos e adoecimento. Repensar essa lógica é também repensar o próprio conceito de sucesso: trocar o orgulho de aguentar com menos horas de sono pelo reconhecimento de que noites bem dormidas são, na verdade, o investimento mais rentável que existe.




