Empreendedorismo
6 minutos min de leitura

Empreendedorismo feminino: por que a formalização ainda é um obstáculo e como destravar esse caminho

O problema não é a falta de empreendedoras, é um sistema que ainda não foi feito para elas. Este artigo mostra por que a formalização ainda é um obstáculo estrutural - e como redesenhar o sistema para transformar negócios invisíveis em motores reais de desenvolvimento econômico.
Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República – CDESS. Presidente do W20, grupo de engajamento do G20. Conselheira da UAM/Grupo Ânima. Reconhecida no ranking Melhores Líderes do Brasil da Merco e por prêmios como: Bloomberg 500 mais influentes da América Latina 2024, Melhores e Maiores 2024, Empreendedor Social 2023, Executivo de Valor 2023 e Forbes Brasil Mulheres Mais Poderosas 2019. Autora do livro “Negócios: um assunto de mulheres - A força transformadora do empreendedorismo feminino".

Compartilhar:

O Brasil é um país de empreendedoras. São mais de 10 milhões à frente de seus próprios negócios e em 2025 houve recorde no número de CNPJs abertos por mulheres. Entre os pequenos empreendedores brasileiros, mulheres já são cerca de metade, assim como a maior parte delas são chefes de família e sustentam suas famílias com uma renda média de R$ 2,4 mil reais, que tem crescido.

Mesmo com esses números, uma parcela significativa dessas iniciativas permanece à margem da formalização. E esse não só é um dado econômico, mas é reconhecidamente também um sintoma estrutural.

A informalidade feminina vai muito além de apenas uma causa. Ela é sintoma de diversos efeitos adversos de um sistema feito para só um tipo (e gênero) de empreendedor. Esse sistema que foi construído sem olhar para as especificidades dessa massa de pessoas que traz produtividade ao país, faz girar a economia e é responsável pela criação direta das crianças e adolescentes que formarão a próxima geração brasileira.

A razão central do por que essas mulheres não se formalizam na verdade deveria vir de outra questão: como o sistema deve ser redesenhado para que elas consigam fazê-lo.

A informalidade como resposta racional

Quando observamos o comportamento das empreendedoras brasileiras, vemos uma crescente ambição, vontade de crescimento e razoabilidade diante de um ambiente adverso. Mas as condições ainda não favorecem tanto a formalização como poderiam. Seriam necessários benefícios específicos que realmente melhorassem a vida dessa parcela enorme da população que, além do seu negócio, trabalha em média 20 horas por semana nos cuidados com a casa e pela família sem receber nada por isso. Estamos falando de impostos melhores, crédito e financiamento, facilitação de burocracia e condições que atendam melhor seus desafios.

Dados da nossa pesquisa nacional anual do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) mostram que 74,5% das mulheres que acessam crédito acabam o fazendo como pessoa física, não como pessoa jurídica. Isso revela um desalinhamento importante: o negócio existe, mas o sistema financeiro não o reconhece plenamente.

A informalidade, nesse contexto, é estratégia de sobrevivência e otimização de tempo. Formalizar um negócio exige tempo para lidar com burocracias, entender regimes tributários, organizar documentação e manter obrigações acessórias. Para quem já opera no limite do tempo disponível, essa jornada se torna quase inviável.

Estudos do Banco Mundial e da OCDE já apontam que, em países emergentes, o custo de formalização, somado à baixa previsibilidade de receita, é um dos principais fatores que afastam pequenos negócios do ambiente formal. Para mulheres, esse cenário é agravado por barreiras adicionais: menor acesso a redes de contato, menor patrimônio para oferecer como garantia e maior responsabilidade sobre o cuidado familiar.

No Brasil, essa realidade ganha contornos ainda mais claros. A maior parte das empreendedoras começa com pouco capital, muitas vezes sem acesso a capital e com faturamento concentrado em até R$ 2 mil mensais. Formalizar, nesse estágio, pode significar assumir custos fixos que o negócio ainda não suporta.

Formalização não pode ser um fim em si mesma

Durante anos, tratamos a formalização como um objetivo isolado, quase um selo de maturidade empresarial. Em qualquer business, a maior parte das ações são pautadas pelo que gera valor. Em um cenário no qual a maior parte da receita gerada ainda acaba indo em para sustentar a vida da empreendedora (já bem apertada) e não para reinvestimento no empreendimento, muitas vezes a formalização não parece fazer sentido, porque não mostra que gera valor claro para o negócio e para a vida dela.

Se não há acesso facilitado a crédito, se os tributos são percebidos como desproporcionais, se o ambiente regulatório é complexo, a formalização deixa de ser uma alavanca e passa a ser um risco.

Não por acaso, mesmo entre mulheres que participam de programas estruturados de capacitação, apenas cerca de 40% formalizam seus negócios após o processo. Isso mostra que conhecimento é necessário, mas não suficiente. Na Rede Mulher Empreendedora, esse indicador é maior, mas isso porque os programas da RME ficam muito próximos da mulher para ajudar em várias pontas.

Não adianta só preparar as empreendedoras para ele. É preciso dar estrutura e ir mudando mais rápido o sistema.

O papel das empresas e do ecossistema e como destravar

Aqui está uma oportunidade estratégica ainda pouco explorada. Empresas, instituições financeiras e governos têm um papel decisivo na transformação desse cenário que vai além do impacto social e mexe muito o ponteiro do desenvolvimento econômico.

Quando uma mulher formaliza seu negócio e cresce, ela não cresce sozinha. Ela gera renda, movimenta cadeias produtivas e reinveste até 90% de seus ganhos em sua comunidade, impactando positivamente quatro pessoas, pelo menos.

A economia feminina é um motor de desenvolvimento local. Mas, para que ela prospere ainda mais, é necessário construir novos caminhos, três em especial.

O primeiro é simplificação real, não apenas normativa. O Brasil avançou com o MEI e políticas sociais atreladas nos últimos anos, mas ainda há muito espaço para melhorias. Processos precisam ser mais intuitivos, digitais e acessíveis, especialmente para quem tem baixa familiaridade com a linguagem jurídica, financeira e contábil.

O segundo caminho é vincular formalização a benefícios mais concretos. Acesso a financiamentos, investimentos e crédito com melhores condições, inclusão em cadeias de fornecimento de grandes empresas e proteção social são exemplos claros. Quando o ganho é tangível, a adesão cresce.

O terceiro é integrar políticas públicas e iniciativas privadas. Programas que combinam capacitação, acesso a mercado e suporte financeiro têm mostrado resultados mais consistentes. Na Rede Mulher Empreendedora, observamos que quando esses elementos atuam de forma conjunta, o impacto na geração de renda e na sustentabilidade dos negócios é significativamente maior .

Uma agenda estratégica para o país

Formalizar mulheres empreendedoras é uma agenda central para o crescimento do Brasil. Estamos falando de milhões de negócios que já operam e geram renda. Ignorar essa realidade significa abrir mão de uma parte fundamental do potencial econômico do país.

A boa notícia é que já há algumas pavimentações desses caminhos. Menos burocracia, mais valor percebido, maior integração entre atores do ecossistema. Quando essas dimensões avançam juntas, a formalização deixa de ser um obstáculo e passa a ser uma escolha mais vantajosa.

O desafio não está nas mulheres. Está na estrutura, em como estruturamos o ambiente para que elas possam prosperar plenamente com segurança, além de ter mais previsibilidade e acesso a oportunidades.

Formalizar, no fim das contas, é reconhecer. E o Brasil ainda precisa reconhecer melhor quem, todos os dias, já está fazendo a economia acontecer.

Compartilhar:

Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República – CDESS. Presidente do W20, grupo de engajamento do G20. Conselheira da UAM/Grupo Ânima. Reconhecida no ranking Melhores Líderes do Brasil da Merco e por prêmios como: Bloomberg 500 mais influentes da América Latina 2024, Melhores e Maiores 2024, Empreendedor Social 2023, Executivo de Valor 2023 e Forbes Brasil Mulheres Mais Poderosas 2019. Autora do livro “Negócios: um assunto de mulheres - A força transformadora do empreendedorismo feminino".

Artigos relacionados

74% das marcas poderiam desaparecer – e ninguém sentiria falta

No ritmo do mundo, só permanece quem sabe se adaptar. Este artigo mostra por que a relevância das marcas não depende mais de presença ou investimento, mas da capacidade de interpretar o tempo, integrar diversidade e transformar propósito em ação concreta.

O Brasil na corrida farmacêutica global

Este é o segundo artigo de uma série que explora o setor farmacêutico brasileiro, suas capacidades industriais, dependências e posição na nova corrida global da saúde. Para sua elaboração, foram consideradas contribuições de Reginaldo Braga Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil, entidade que reúne algumas das principais fabricantes nacionais de medicamentos. Recomenda-se também a leitura do primeiro artigo da série.

Sem operação, agentes inteligentes são apenas promessas

IA sem operação é só experimento caro. Este artigo revela por que a maioria das iniciativas ainda não gera impacto real – e como o verdadeiro desafio não está na tecnologia, mas na capacidade de estruturar, governar e operar processos em escala.

Marketing & growth
12 de maio de 2026 14H00
O que antes era visto como informalidade agora é diferencial: este artigo explora como a cultura brasileira vem ganhando espaço global - e se transformando em ativo estratégico nas empresas.

Bell Gama - Sócia-fundadora da Air Branding

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
12 de maio de 2026 08H00
Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão - e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
11 de maio de 2026 15H00
A troca no comando da Apple reacende um dilema central da liderança: como assumir um legado sem se tornar refém dele - e por que repetir o passado pode ser o maior risco em qualquer processo de sucessão.

Maria Eduarda Silveira - CEO da BOLD HRO

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de maio de 2026 08H00
Vivara, Natura, Blip, iFood e Endeavor já estão usando o Open Talent para ganhar agilidade e impacto. Este artigo revela por que a liderança por projeto e o talento sob demanda estão redesenhando o futuro do trabalho.

Cristiane Mendes - CEO da Chiefs.Group

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
10 de maio de 2026 15H00
Em certas empresas, estar certo não basta - é preciso ser relevante na sala onde as decisões realmente acontecem. Este artigo revela por que, em estruturas de controle concentrado, a influência do CFO depende menos da planilha e mais da capacidade de ler pessoas, contexto e poder.

Darcio Zarpellon - Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF)

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de maio de 2026 08H00
Este artigo revela como contratações executivas mal calibradas - ou decisões adiadas - geram custos invisíveis que travam crescimento, atrasam decisões e comprometem resultados no longo prazo.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
9 de maio de 2026 15H00
Em um setor marcado por desafios constantes, este artigo revela por que a verdadeira vantagem competitiva está na capacidade de evoluir com consistência, fortalecer relações e entregar valor sustentável no longo prazo.

Rodrigo M. Bortolini - Diretor-presidente da Selgron

5 minutos min de leitura
ESG, Liderança
9 de maio de 2026 09H00
Em um mundo de incerteza crescente, manter conselhos homogêneos deixou de ser conforto - passou a ser risco. Este artigo deixa claro que atingir massa crítica de diversidade não é agenda social, é condição para decisões mais robustas e resultados superiores no longo prazo.

Anna Guimarães - Presidente do Conselho Consultivo do 30% Club Brasil, conselheira e ex-CEO.

5 minutos min de leitura
Lifelong learning
8 de maio de 2026 08H00
Neste artigo, a capacidade de discordar surge como um ativo estratégico: ao ativar a neuroplasticidade, líderes e organizações deixam de apenas reagir ao novo e passam a construir transformação real, sustentada por pensamento crítico, consistência e integridade cognitiva.

Andre Cruz - Founder da Neura.cx

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
8 de maio de 2026 07H00
Ao colocar lado a lado a Reforma Tributária e o avanço da inteligência artificial, este artigo mostra por que a gestão empresarial no Brasil entrou em um novo patamar - no qual decisões em tempo real, dados integrados e precisão operacional deixam de ser vantagem e passam a ser condição de sobrevivência.

Odair Benke - Gestor de operações com o mercado na WK.

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão