Empreendedorismo
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Empreendedorismo feminino: por que a formalização ainda é um obstáculo e como destravar esse caminho

O problema não é a falta de empreendedoras, é um sistema que ainda não foi feito para elas. Este artigo mostra por que a formalização ainda é um obstáculo estrutural - e como redesenhar o sistema para transformar negócios invisíveis em motores reais de desenvolvimento econômico.
Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República – CDESS. Presidente do W20, grupo de engajamento do G20. Conselheira da UAM/Grupo Ânima. Reconhecida no ranking Melhores Líderes do Brasil da Merco e por prêmios como: Bloomberg 500 mais influentes da América Latina 2024, Melhores e Maiores 2024, Empreendedor Social 2023, Executivo de Valor 2023 e Forbes Brasil Mulheres Mais Poderosas 2019. Autora do livro “Negócios: um assunto de mulheres - A força transformadora do empreendedorismo feminino".

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O Brasil é um país de empreendedoras. São mais de 10 milhões à frente de seus próprios negócios e em 2025 houve recorde no número de CNPJs abertos por mulheres. Entre os pequenos empreendedores brasileiros, mulheres já são cerca de metade, assim como a maior parte delas são chefes de família e sustentam suas famílias com uma renda média de R$ 2,4 mil reais, que tem crescido.

Mesmo com esses números, uma parcela significativa dessas iniciativas permanece à margem da formalização. E esse não só é um dado econômico, mas é reconhecidamente também um sintoma estrutural.

A informalidade feminina vai muito além de apenas uma causa. Ela é sintoma de diversos efeitos adversos de um sistema feito para só um tipo (e gênero) de empreendedor. Esse sistema que foi construído sem olhar para as especificidades dessa massa de pessoas que traz produtividade ao país, faz girar a economia e é responsável pela criação direta das crianças e adolescentes que formarão a próxima geração brasileira.

A razão central do por que essas mulheres não se formalizam na verdade deveria vir de outra questão: como o sistema deve ser redesenhado para que elas consigam fazê-lo.

A informalidade como resposta racional

Quando observamos o comportamento das empreendedoras brasileiras, vemos uma crescente ambição, vontade de crescimento e razoabilidade diante de um ambiente adverso. Mas as condições ainda não favorecem tanto a formalização como poderiam. Seriam necessários benefícios específicos que realmente melhorassem a vida dessa parcela enorme da população que, além do seu negócio, trabalha em média 20 horas por semana nos cuidados com a casa e pela família sem receber nada por isso. Estamos falando de impostos melhores, crédito e financiamento, facilitação de burocracia e condições que atendam melhor seus desafios.

Dados da nossa pesquisa nacional anual do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) mostram que 74,5% das mulheres que acessam crédito acabam o fazendo como pessoa física, não como pessoa jurídica. Isso revela um desalinhamento importante: o negócio existe, mas o sistema financeiro não o reconhece plenamente.

A informalidade, nesse contexto, é estratégia de sobrevivência e otimização de tempo. Formalizar um negócio exige tempo para lidar com burocracias, entender regimes tributários, organizar documentação e manter obrigações acessórias. Para quem já opera no limite do tempo disponível, essa jornada se torna quase inviável.

Estudos do Banco Mundial e da OCDE já apontam que, em países emergentes, o custo de formalização, somado à baixa previsibilidade de receita, é um dos principais fatores que afastam pequenos negócios do ambiente formal. Para mulheres, esse cenário é agravado por barreiras adicionais: menor acesso a redes de contato, menor patrimônio para oferecer como garantia e maior responsabilidade sobre o cuidado familiar.

No Brasil, essa realidade ganha contornos ainda mais claros. A maior parte das empreendedoras começa com pouco capital, muitas vezes sem acesso a capital e com faturamento concentrado em até R$ 2 mil mensais. Formalizar, nesse estágio, pode significar assumir custos fixos que o negócio ainda não suporta.

Formalização não pode ser um fim em si mesma

Durante anos, tratamos a formalização como um objetivo isolado, quase um selo de maturidade empresarial. Em qualquer business, a maior parte das ações são pautadas pelo que gera valor. Em um cenário no qual a maior parte da receita gerada ainda acaba indo em para sustentar a vida da empreendedora (já bem apertada) e não para reinvestimento no empreendimento, muitas vezes a formalização não parece fazer sentido, porque não mostra que gera valor claro para o negócio e para a vida dela.

Se não há acesso facilitado a crédito, se os tributos são percebidos como desproporcionais, se o ambiente regulatório é complexo, a formalização deixa de ser uma alavanca e passa a ser um risco.

Não por acaso, mesmo entre mulheres que participam de programas estruturados de capacitação, apenas cerca de 40% formalizam seus negócios após o processo. Isso mostra que conhecimento é necessário, mas não suficiente. Na Rede Mulher Empreendedora, esse indicador é maior, mas isso porque os programas da RME ficam muito próximos da mulher para ajudar em várias pontas.

Não adianta só preparar as empreendedoras para ele. É preciso dar estrutura e ir mudando mais rápido o sistema.

O papel das empresas e do ecossistema e como destravar

Aqui está uma oportunidade estratégica ainda pouco explorada. Empresas, instituições financeiras e governos têm um papel decisivo na transformação desse cenário que vai além do impacto social e mexe muito o ponteiro do desenvolvimento econômico.

Quando uma mulher formaliza seu negócio e cresce, ela não cresce sozinha. Ela gera renda, movimenta cadeias produtivas e reinveste até 90% de seus ganhos em sua comunidade, impactando positivamente quatro pessoas, pelo menos.

A economia feminina é um motor de desenvolvimento local. Mas, para que ela prospere ainda mais, é necessário construir novos caminhos, três em especial.

O primeiro é simplificação real, não apenas normativa. O Brasil avançou com o MEI e políticas sociais atreladas nos últimos anos, mas ainda há muito espaço para melhorias. Processos precisam ser mais intuitivos, digitais e acessíveis, especialmente para quem tem baixa familiaridade com a linguagem jurídica, financeira e contábil.

O segundo caminho é vincular formalização a benefícios mais concretos. Acesso a financiamentos, investimentos e crédito com melhores condições, inclusão em cadeias de fornecimento de grandes empresas e proteção social são exemplos claros. Quando o ganho é tangível, a adesão cresce.

O terceiro é integrar políticas públicas e iniciativas privadas. Programas que combinam capacitação, acesso a mercado e suporte financeiro têm mostrado resultados mais consistentes. Na Rede Mulher Empreendedora, observamos que quando esses elementos atuam de forma conjunta, o impacto na geração de renda e na sustentabilidade dos negócios é significativamente maior .

Uma agenda estratégica para o país

Formalizar mulheres empreendedoras é uma agenda central para o crescimento do Brasil. Estamos falando de milhões de negócios que já operam e geram renda. Ignorar essa realidade significa abrir mão de uma parte fundamental do potencial econômico do país.

A boa notícia é que já há algumas pavimentações desses caminhos. Menos burocracia, mais valor percebido, maior integração entre atores do ecossistema. Quando essas dimensões avançam juntas, a formalização deixa de ser um obstáculo e passa a ser uma escolha mais vantajosa.

O desafio não está nas mulheres. Está na estrutura, em como estruturamos o ambiente para que elas possam prosperar plenamente com segurança, além de ter mais previsibilidade e acesso a oportunidades.

Formalizar, no fim das contas, é reconhecer. E o Brasil ainda precisa reconhecer melhor quem, todos os dias, já está fazendo a economia acontecer.

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Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República – CDESS. Presidente do W20, grupo de engajamento do G20. Conselheira da UAM/Grupo Ânima. Reconhecida no ranking Melhores Líderes do Brasil da Merco e por prêmios como: Bloomberg 500 mais influentes da América Latina 2024, Melhores e Maiores 2024, Empreendedor Social 2023, Executivo de Valor 2023 e Forbes Brasil Mulheres Mais Poderosas 2019. Autora do livro “Negócios: um assunto de mulheres - A força transformadora do empreendedorismo feminino".

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