Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
5 minutos min de leitura

Empresas preparadas para a próxima década não usam IA. Elas se reorganizam ao redor dela.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.
Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B, +20 anos de experiência nos mercados de tecnologia da informação, computação em nuvem, cibersegurança, inteligência artificial e transformação digital. Ao longo de sua trajetória, liderou iniciativas de crescimento, go-to-market, desenvolvimento de negócios, vendas complexas. É Engenheiro Eletricista pela UNESP, pós-graduado em Administração de Empresas pela FGV EAESP e possui especialização em Inteligência Artificial e Estratégia de Negócios pelo MIT Sloan School of Management. Atua como membro de comitês estratégicos e conselhos consultivos, além de mentor, palestrante e professor de MBA, contribuindo para o desenvolvimento de lideranças e para a formação de organizações mais inovadoras, competitivas e preparadas para os desafios da nova economia.

Compartilhar:

A ansiedade em torno da tecnologia não desapareceu. Ela apenas mudou de natureza. Hoje, o desconforto já não nasce apenas do medo de “ficar para trás”, mas da percepção de que o trabalho está sendo reconfigurado em tempo real, enquanto as novas regras ainda estão em formação. O AI Index 2026, de Stanford, ajuda a traduzir esse clima: 59% das pessoas se dizem otimistas em relação aos benefícios da IA, mas 52% também afirmam sentir nervosismo diante dela. Em outras palavras, entusiasmo e insegurança passaram a conviver no mesmo ambiente — dentro das empresas, nas equipes e na cabeça das lideranças.

Nos últimos 12 meses, três movimentos aceleraram essa tensão. O primeiro foi a transição da IA assistiva para a IA agentica: sistemas capazes não apenas de apoiar tarefas pontuais, mas de pesquisar, planejar, executar etapas encadeadas e interagir com ferramentas e ambientes digitais. O segundo foi a convergência das plataformas: dados, modelos, automação, busca, arquivos, conectores e execução começaram a deixar de funcionar como peças soltas para formar ambientes mais integrados. O terceiro foi o avanço de protocolos e fundações abertas, em uma tentativa de reduzir a fragmentação entre modelos, aplicações e ferramentas. Não por acaso, 82% dos líderes ouvidos pela Microsoft afirmam que 2025 foi um ano decisivo para repensar estratégia e operações, enquanto 81% esperam agentes integrados à estratégia de IA da empresa nos próximos 12 a 18 meses.

Esse é o centro da transformação: a convergência já não é apenas tecnológica; ela é organizacional. O que começa a se unificar agora não são só sistemas, mas etapas do trabalho que antes viviam separadas. Buscar informação, consolidar dados, gerar hipóteses, produzir entregáveis, validar inconsistências, revisar exceções e executar ações passam a caber em um mesmo fluxo. A empresa que entende isso deixa de perguntar “onde posso usar IA?” e passa a fazer uma pergunta mais ambiciosa, e mais estratégica: “quais fluxos críticos precisam ser redesenhados do zero?”. A McKinsey vem insistindo nesse ponto ao mostrar que o valor da IA agêntica depende justamente da reconstrução dos fluxos de trabalho, com dados, arquitetura, governança e papéis humanos repensados em conjunto.

É nesse contexto que a autodisrupção ganha um sentido mais maduro. Ela não é uma corrida para testar toda novidade, nem um culto à reinvenção permanente. Autodisrupção, agora, é a capacidade de abandonar rapidamente processos que perderam validade, mesmo quando ainda parecem funcionar. É trocar eficiência local por eficácia sistêmica. É entender que o ganho relevante não virá de usar IA para escrever e-mails um pouco mais rápido, mas de reorganizar a forma como marketing, vendas, RH, finanças, operações e tecnologia tomam decisões e distribuem a execução entre pessoas e agentes. Quando isso não acontece, a IA melhora tarefas isoladas, mas não altera o desempenho da organização. Quando acontece, a inteligência deixa de ser apoio e passa a funcionar como infraestrutura.

Essa mudança ajuda a explicar por que a ansiedade cresce justamente nas empresas mais avançadas. A BCG identificou que, nas organizações que estão redesenhando fluxos de trabalho com IA, 46% dos profissionais se dizem mais preocupados com segurança no emprego, contra 34% nas empresas menos maduras. Ao mesmo tempo, apenas 13% afirmam ver agentes profundamente integrados ao seu fluxo diário, e só um terço diz ter recebido treinamento adequado. O que esses números mostram é simples: o medo aumenta quando a transformação deixa de ser discurso e começa a mexer, de fato, em papel, escopo e identidade profissional. O erro de muitas lideranças é tratar esse desconforto como resistência cultural, quando, na prática, ele costuma nascer da falta de tradução, formação e direção.

Por isso, inteligência coletiva deixa de ser um valor abstrato e passa a ser um modelo operacional. Na era agêntica, ninguém escala sozinho: nem o profissional isolado, nem a área que compra uma ferramenta sem redesenhar processos, nem o CEO que delega o tema exclusivamente à tecnologia. Os casos mais promissores apontam para outra lógica: times pequenos, multidisciplinares, com contexto compartilhado, métricas claras e supervisão humana bem definida. A Anthropic observou que as implementações mais eficazes de agentes não surgiram, em geral, de estruturas excessivamente complexas, mas de padrões simples e combináveis. A Microsoft, por sua vez, projeta a ascensão do agent boss: o profissional capaz de delegar, supervisionar e combinar agentes especializados para ampliar impacto. O novo diferencial competitivo não será apenas saber usar IA, mas saber coordená-la em rede.

Para a liderança, isso pede uma agenda menos performática e mais disciplinada. O primeiro passo é mapear dois ou três fluxos ponta a ponta em que a lentidão, o retrabalho ou a perda de contexto estejam realmente destruindo valor. O segundo é separar, com clareza, onde a autonomia dos agentes pode acelerar resultados e onde o julgamento humano continua inegociável. O terceiro é formar gestores capazes de atuar como orquestradores, e não apenas como cobradores de adoção. O quarto é medir o que de fato importa: impacto em produtividade, qualidade, velocidade de decisão e satisfação do cliente interno ou externo, não volume de prompts nem número de licenças contratadas. Esse pragmatismo importa porque o retorno existe, mas tende a aparecer quando a empresa concentra energia em poucos casos de alto impacto e integra a IA a processos mais sofisticados e conectados, em vez de espalhar pilotos sem dono.

No fundo, a abundância tecnológica não elimina a ansiedade; ela muda a pergunta. Antes, o receio era ser substituído por uma máquina. Agora, o risco maior é continuar operando com um desenho de trabalho que já se tornou obsoleto. A resposta não está em resistir à tecnologia, nem em celebrá-la de forma ingênua. Está em construir uma organização capaz de aprender mais rápido do que o mercado muda, distribuir melhor a inteligência entre humanos e agentes e transformar medo difuso em capacidade coletiva. A autodisrupção, nesse contexto, deixa de ser um ato individual de coragem e passa a ser uma competência institucional. E é isso que vai separar empresas apenas digitalizadas daquelas realmente preparadas para a próxima década.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Empresas preparadas para a próxima década não usam IA. Elas se reorganizam ao redor dela.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

O que separa empresas inovadoras das que apenas fazem inovação

Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Pare de tentar prever o mundo. Construa uma empresa que aguenta vários.

Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Contratar, promover ou buscar fora: a decisão que separa o líder do gestor

Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

ESG, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 14H00
Rampas, tecnologias assistivas e conformidade regulatória são apenas o ponto de partida da inclusão. Entre a conformidade técnica e a adoção real existe um elemento frequentemente negligenciado: a cultura. Este artigo explora como a Inteligência Cultural pode determinar o sucesso ou o fracasso de estratégias globais de inclusão.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Clara Choen - Fundadora da Savant Consulting

12 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 08H00
Inspirado pelo legado de Oscar Motomura, o artigo questiona uma das crenças mais difundidas da gestão contemporânea: a ideia de que a transformação acontece apenas por meio das pessoas. A verdadeira mudança, argumenta o autor, depende da capacidade de revisar as estruturas invisíveis que moldam comportamentos, decisões e culturas organizacionais.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
27 de julho de 2026 14H00
Após anos de perda de passageiros e desafios financeiros, o transporte coletivo brasileiro ganha um novo marco regulatório que busca ampliar fontes de financiamento, reduzir desequilíbrios tarifários e criar condições para mais investimentos em qualidade, eficiência e experiência do usuário.

Vinicius Ladeira - Diretor Adjunto Nacional do SEST SENAT

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
27 de julho de 2026 08H00
Enquanto o debate sobre inteligência artificial continua concentrado em modelos, automação e produtividade, uma outra transformação acontece nos bastidores: a tensão gerada entre a democratização e a concentração de poder que pode definir a próxima fase da economia global.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

8 minutos min de leitura
Liderança
26 de julho de 2026 13H00
Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional - planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente - são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

Caio Fontenelle - Fundador dos restaurantes Figueira, Oliv e Pepper Jack

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de julho de 2026 07H00
A IA pode economizar horas em atividades operacionais, mas seu maior valor talvez esteja em outro lugar: ampliar perspectivas, conectar ideias e elevar a qualidade das decisões. O desafio é entender quando estamos ganhando velocidade e quando estamos construindo algo melhor.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
25 de julho de 2026 14H00
Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

3 minutos min de leitura
Liderança
25 de julho de 2026 08H00
Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Chieko Aoki - Fundadora e presidente da Blue Tree Hotels

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, User Experience, UX
24 de julho de 2026 14H00
Impulsionado pelo avanço do wellness e pela busca crescente por experiências com significado, o setor de turismo enfrenta um novo desafio: deixar de vender viagens para entregar transformação, criando vínculos de longo prazo e novas vantagens competitivas.

João Biancardi - Diretor de Marketing e Experiencia do Cliente do Grupo Mabu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
24 de julho de 2026 08H00
A preocupação com dinheiro já impacta produtividade, saúde mental e permanência no emprego. Diante desse cenário, organizações começam a repensar seu papel e a buscar formas de apoiar colaboradores sem invadir sua autonomia financeira.

Vivian Pardini - Coordenadora de compliance da Biz

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo