Antes de qualquer diagnóstico, vale olhar para os números: segundo o OECD Health Statistics 2024, o Brasil destinou 9,4% do PIB à saúde em 2022, praticamente o mesmo patamar da média da OCDE, de 9,2%, e mais do que gasta a maioria dos vizinhos latino-americanos. Pela proporção, operamos como um sistema de país desenvolvido. O problema aparece quando se abre essa conta. O setor público, somando SUS e esquemas compulsórios, financiou cerca de 45% do total, algo em torno de 4,2% do PIB. Os outros 55%, perto de 5,2% do PIB, saíram do bolso das famílias e dos planos de saúde. Na maioria dos países da OCDE é o Estado que banca a maior parte da conta. Aqui, é o cidadão, e na saúde suplementar é o beneficiário, que paga a mensalidade e ainda divide o custo na coparticipação. Recurso, portanto, não é o que falta neste setor. O que falta é estratégia para alocá-lo.
A prova está nos hospitais. Um levantamento da plataforma Valor Saúde Brasil, conduzido pela DRG Brasil e pela IAG Saúde em 2021 a partir de mais de 4,09 milhões de altas em 340 hospitais, mostrou que 53% dos custos assistenciais se perdem em desperdício. Gastamos como um sistema desenvolvido no total e decidimos como um sistema sem governança. Nenhum orçamento resolve sozinho essa contradição.
O preço não é só financeiro. O 2º Anuário da Segurança Assistencial Hospitalar do IESS, com dados de 2017, estimou 54,76 mil mortes por eventos adversos graves em internações, o equivalente a cerca de seis por hora, ou uma a cada dez minutos. Dessas, 36,17 mil seriam evitáveis. A maior parte não decorre de limitação técnica, e sim de processos não planejados, decisões tomadas sob pressão e ausência de protocolos definidos com antecedência. É gestão reativa. E há uma ironia nisso. As mesmas instituições que protocolam cada etapa de um procedimento cirúrgico quase nunca protocolam suas decisões de investimento. Não é um traço exclusivo da saúde. Qualquer setor que disciplina a operação e improvisa a estratégia reconhece o padrão.
Em “A arte da estratégia”, Avinash Dixit e Barry Nalebuff descrevem o erro mais comum em ambientes competitivos, a miopia do jogador, aquele que enxerga apenas o lance imediato e ignora as consequências futuras da própria decisão. Na saúde brasileira, essa miopia tem forma e endereço conhecidos. São contratos firmados sob pressão de fornecedor, tecnologia comprada pela urgência da fila e não pelo mapa epidemiológico, remuneração médica que premia volume em vez de valor. Cada uma dessas decisões, isolada, parece racional. Somadas, produzem um resultado ruinoso.
Na anestesiologia, o momento crítico nunca é a emergência, e sim o planejamento que vem antes dela. O anestesiologista que entra na sala sem revisar o histórico do paciente, sem checar o equipamento e sem ter um plano B e um plano C já perdeu o controle antes de começar. Quem se formou nesta escola clínica deveria saber disso melhor do que ninguém. Por que, então, tantos param de aplicar esse raciocínio justamente quando deixam a sala cirúrgica e assumem um cargo de gestão?
A teoria dos jogos não é uma receita, é uma disciplina de leitura de sistemas. Aplicada à saúde, ela pede três movimentos concretos. O primeiro é mapear incentivos antes de formular qualquer política interna, porque contratos mal calibrados geram desperdício por mais recurso que exista em caixa. O segundo é negociar com fornecedores e parceiros na lógica de jogos repetidos, em que reputação e confiança valem mais do que um desconto pontual. O terceiro é planejar investimentos por cenários epidemiológicos de longo prazo, e não pela demanda do mês.
O setor que mais lida com risco no mundo ainda decide como se o risco só começasse dentro do hospital. A sustentabilidade da saúde brasileira não virá de mais verba nem de mais tecnologia comprada às pressas. Virá de quem tiver coragem de reconhecer que o modelo de gestão atual é reativo por escolha, e disciplina para jogar de outro jeito.
Fontes: OECD Health Statistics 2024; IESS, 2º Anuário da Segurança Assistencial Hospitalar, dados de 2017; DRG Brasil e IAG Saúde, Plataforma Valor Saúde Brasil, 2021; Dixit e Nalebuff, A Arte da Estratégia (Campus/Elsevier).




