Estratégia, Gestão de recursos
4 minutos min de leitura

Gastar como país rico, decidir como país desorganizado

A teoria dos jogos expõe o erro estrutural por trás do modelo reativo que consome bilhões sem gerar resultados proporcionais. Este artigo mostra que não falta dinheiro na saúde, falta estratégia para usar.
Anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu

Compartilhar:

Antes de qualquer diagnóstico, vale olhar para os números: segundo o OECD Health Statistics 2024, o Brasil destinou 9,4% do PIB à saúde em 2022, praticamente o mesmo patamar da média da OCDE, de 9,2%, e mais do que gasta a maioria dos vizinhos latino-americanos. Pela proporção, operamos como um sistema de país desenvolvido. O problema aparece quando se abre essa conta. O setor público, somando SUS e esquemas compulsórios, financiou cerca de 45% do total, algo em torno de 4,2% do PIB. Os outros 55%, perto de 5,2% do PIB, saíram do bolso das famílias e dos planos de saúde. Na maioria dos países da OCDE é o Estado que banca a maior parte da conta. Aqui, é o cidadão, e na saúde suplementar é o beneficiário, que paga a mensalidade e ainda divide o custo na coparticipação. Recurso, portanto, não é o que falta neste setor. O que falta é estratégia para alocá-lo.

A prova está nos hospitais. Um levantamento da plataforma Valor Saúde Brasil, conduzido pela DRG Brasil e pela IAG Saúde em 2021 a partir de mais de 4,09 milhões de altas em 340 hospitais, mostrou que 53% dos custos assistenciais se perdem em desperdício. Gastamos como um sistema desenvolvido no total e decidimos como um sistema sem governança. Nenhum orçamento resolve sozinho essa contradição.

O preço não é só financeiro. O 2º Anuário da Segurança Assistencial Hospitalar do IESS, com dados de 2017, estimou 54,76 mil mortes por eventos adversos graves em internações, o equivalente a cerca de seis por hora, ou uma a cada dez minutos. Dessas, 36,17 mil seriam evitáveis. A maior parte não decorre de limitação técnica, e sim de processos não planejados, decisões tomadas sob pressão e ausência de protocolos definidos com antecedência. É gestão reativa. E há uma ironia nisso. As mesmas instituições que protocolam cada etapa de um procedimento cirúrgico quase nunca protocolam suas decisões de investimento. Não é um traço exclusivo da saúde. Qualquer setor que disciplina a operação e improvisa a estratégia reconhece o padrão.

Em “A arte da estratégia”, Avinash Dixit e Barry Nalebuff descrevem o erro mais comum em ambientes competitivos, a miopia do jogador, aquele que enxerga apenas o lance imediato e ignora as consequências futuras da própria decisão. Na saúde brasileira, essa miopia tem forma e endereço conhecidos. São contratos firmados sob pressão de fornecedor, tecnologia comprada pela urgência da fila e não pelo mapa epidemiológico, remuneração médica que premia volume em vez de valor. Cada uma dessas decisões, isolada, parece racional. Somadas, produzem um resultado ruinoso.

Na anestesiologia, o momento crítico nunca é a emergência, e sim o planejamento que vem antes dela. O anestesiologista que entra na sala sem revisar o histórico do paciente, sem checar o equipamento e sem ter um plano B e um plano C já perdeu o controle antes de começar. Quem se formou nesta escola clínica deveria saber disso melhor do que ninguém. Por que, então, tantos param de aplicar esse raciocínio justamente quando deixam a sala cirúrgica e assumem um cargo de gestão?

A teoria dos jogos não é uma receita, é uma disciplina de leitura de sistemas. Aplicada à saúde, ela pede três movimentos concretos. O primeiro é mapear incentivos antes de formular qualquer política interna, porque contratos mal calibrados geram desperdício por mais recurso que exista em caixa. O segundo é negociar com fornecedores e parceiros na lógica de jogos repetidos, em que reputação e confiança valem mais do que um desconto pontual. O terceiro é planejar investimentos por cenários epidemiológicos de longo prazo, e não pela demanda do mês.

O setor que mais lida com risco no mundo ainda decide como se o risco só começasse dentro do hospital. A sustentabilidade da saúde brasileira não virá de mais verba nem de mais tecnologia comprada às pressas. Virá de quem tiver coragem de reconhecer que o modelo de gestão atual é reativo por escolha, e disciplina para jogar de outro jeito.

Fontes: OECD Health Statistics 2024; IESS, 2º Anuário da Segurança Assistencial Hospitalar, dados de 2017; DRG Brasil e IAG Saúde, Plataforma Valor Saúde Brasil, 2021; Dixit e Nalebuff, A Arte da Estratégia (Campus/Elsevier).

Compartilhar:

Artigos relacionados

As pessoas vão permanecer mais tempo, sua empresa está pronta?

Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

A decisão mais difícil do roadmap de IA não é técnica

Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Liderança
15 de maio de 2026 07H00
Não é a idade que torna líderes obsoletos - é a incapacidade de abandonar ideias antigas em um mundo que já mudou. Este artigo questiona o mito da liderança geracional e aponta qual o verdadeiro divisor de águas.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

0 min de leitura
Marketing
14 de maio de 2026 15H00
Executivo tende a achar que, depois de um certo ponto, não é mais preciso contar o que faz. O case da co-founder do Nubank prova exatamente o contrário.

Bruna Lopes de Barros

4 minutos min de leitura
Liderança
14 de maio de 2026 08H00
À luz do Aikidô, este artigo analisa a transição da liderança coercitiva para a liderança que harmoniza sistemas complexos, revelando como princípios como Wago, Awase e Shugi‑Dokusai redefinem estratégia e competitividade na era da incerteza.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

10 minutos min de leitura
Liderança
13 de maio de 2026 15H00
Em um mundo dominado pela urgência e pelo excesso de estímulos, este artigo provoca uma reflexão essencial: até que ponto estamos tomando decisões - ou apenas reagindo? E por que recuperar a capacidade de pausar, escolher e agir com intenção se tornou um diferencial crítico para líderes e organizações.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

7 minutos min de leitura
Finanças, Inovação & estratégia
13 de maio de 2026 08H00
Entre pressão por resultados imediatos e apostas de longo prazo, este artigo analisa como iniciativas de CVC podem sobreviver ao conservadorismo corporativo e construir valor além do retorno financeiro.

Rafael Siciliani - Gerente de New Business Development na Deloitte

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
12 de maio de 2026 14H00
O que antes era visto como informalidade agora é diferencial: este artigo explora como a cultura brasileira vem ganhando espaço global - e se transformando em ativo estratégico nas empresas.

Bell Gama - Sócia-fundadora da Air Branding

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
12 de maio de 2026 08H00
Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão - e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
11 de maio de 2026 15H00
A troca no comando da Apple reacende um dilema central da liderança: como assumir um legado sem se tornar refém dele - e por que repetir o passado pode ser o maior risco em qualquer processo de sucessão.

Maria Eduarda Silveira - CEO da BOLD HRO

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de maio de 2026 08H00
Vivara, Natura, Blip, iFood e Endeavor já estão usando o Open Talent para ganhar agilidade e impacto. Este artigo revela por que a liderança por projeto e o talento sob demanda estão redesenhando o futuro do trabalho.

Cristiane Mendes - CEO da Chiefs.Group

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
10 de maio de 2026 15H00
Em certas empresas, estar certo não basta - é preciso ser relevante na sala onde as decisões realmente acontecem. Este artigo revela por que, em estruturas de controle concentrado, a influência do CFO depende menos da planilha e mais da capacidade de ler pessoas, contexto e poder.

Darcio Zarpellon - Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF)

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão