Melhores para o Brasil 2022

Gestor(A) de futuro

Chefes de gabinete (“chiefs of staff”, em inglês) são uma tendência no Brasil, como explica Debora Mattos, uma das pioneiras aqui
Sandra Regina da Silva é colaboradora de HSM Management.

Compartilhar:

Marco Túlio Tirão (Marcus Tullius Tiro, em latim) foi mais do que um escravo do célebre Cícero, advogado, político, escritor, orador e filósofo da Roma Antiga. Tirão era seu braço direito, atuando como colaborador literário, secretário, estrategista político, cobrador de dívidas por quase 40 anos, na última década já liberto. Em suas cartas, Cícero elogia o valor e a lealdade de Tirão, que é apontado como o inventor da escrita taquigráfica. Com as lentes de hoje, Tirão poderia ser considerado o chief of staff (COS) de Cícero – uma posição equivalente à de vice-presidente.

Chief of staff – ou chefe de gabinete – não é função restrita ao âmbito governamental, como alguns pensam. Vários CEOs e executivos C-level de grandes empresas se renderam aos benefícios de ter um COS ao seu lado, principalmente em países como os Estados Unidos. Há vários COS nas equipes norte-americanas de Google e LinkedIn. No Brasil, a função está começando a ganhar visibilidade dentro das corporações, despontando como uma tendência de futuro. Percebemos isso dando um rápido passeio pelo Linked­In. Há COS em empresas como QuintoAndar, Dasa, Loft, Accor, Avenue, BNDES, BRF e a lista segue crescendo…
Por ser um cargo recente, as atribuições dos COS variam de uma para outra empresa, mas há quem resuma assim: o COS é um “sombra” do executivo sênior a quem está ligado. Em geral, alinha sua comunicação, está em todas as reuniões, representa-o em algumas, e mais. Isso descentraliza poder e fortalece conceitos como “liderança compartilhada”. [Veja quadro à direita.]

Trata-se também de um cargo-chave para acelerar carreiras de profissionais promissores – sob medida para uma época em que se busca uma liderança mais diversa, por alavancar pessoas que, por questões como gênero, raça e idade, ainda não avançaram tanto quanto poderiam. Há uma tendência clara de mulheres ocuparem o cargo.

HSM Management procurou Debora Mattos para falar sobre esse perfil gerencial de futuro. Ela acaba de assumir como chief of staff do presidente para a América Latina da The Coca-Cola Company, Henrique Braun. Mattos é mulher, negra e mais jovem que os demais vice-presidentes – tem 38 anos. A seguir, ela fala com exclusividade sobre esse cargo do futuro.

## Quando você virou chief of staff?
Assumi como chief of staff no início de janeiro de 2021, quando foi finalizado o processo de fundir as 27 unidades de negócios da companhia no mundo em nove unidades operativas, sendo a América Latina uma delas. Henrique Braun, que presidia a Coca-Cola do Brasil, foi promovido a presidente para a América Latina. E me chamou para lhe dar esse suporte.
No Brasil e em algumas das demais unidades operacionais da Coca-Cola, o cargo é novo, mas na companhia já existia. Por exemplo, o CEO global, James Quincey, tem um chief of staff, assim como o COO, Brian Smith.

## O que é exatamente esse cargo?
Posso dizer que sou a pessoa de confiança do Henrique Braun. E o meu sucesso está muito ligado ao sucesso dele. Minha responsabilidade, basicamente, é garantir o dia a dia do gabinete. Para isso, filtro os assuntos e temas que têm realmente de chegar a ele, a fim de que possa tomar decisões com maior precisão, seja mais eficiente e tenha tempo para pensar na visão estratégica do negócio. É parte da minha função, inclusive, fazer mediações, principalmente com os meus pares, que são os VPs, e assim garantir o que é prioritário.
Além disso, tenho de estar atenta e transmitir a ele o que acontece de importante, o clima da organização etc. Por isso, é posição de confiança.

## Quais são suas atribuições no dia a dia? Quais os maiores desafios?
Não tem um job description, mas digo que está sendo uma experiência incrível. Literalmente, o olhar é como um general manager mesmo, um generalista, atuando em rede, para garantir os resultados. A atuação é em todas as frentes: RH, comunicação, pontos de negócio… Além disso, há as demandas do executivo. O COS precisa ter a sensibilidade para entrar em tudo o que puder agregar. Ou seja, você faz o cargo do tamanho que quer.
O grande desafio é contribuir para que o negócio continue com crescimento sustentável, mantendo o portfólio superforte no mercado, e impactando positivamente a sociedade. Neste momento de Covid-19, por exemplo, precisamos entender o que precisamos e o que podemos fazer como empresa. O desafio é orquestrar tudo, no timing da Coca-Cola.

## Quais as skills mais importantes para um COS?
Estou há seis anos na empresa e passei pelas áreas de finanças e de operações (que lida com as chamadas franquias, que são nove fabricantes no Brasil). Porém, muito mais do que a experiência profissional em si, eu destacaria a curiosidade, o querer aprender. Minha carreira é holística e me considero uma desbravadora – sempre busquei aprender mais e mais sobre o negócio, entender como tudo se conecta.
O segundo ponto é o relacionamento. O COS precisa trabalhar bem em equipe, de modo colaborativo, ter ótimo relacionamento com as pessoas. Destaco ainda a vulnerabilidade, que é a base para bons relacionamentos, e a humildade, porque a pessoa tem o mandato do presidente. Quando você fala numa reunião, os outros sabem que traz a palavra dele. Precisa saber usar isso, com humildade na fala.

Fortalecendo o Ecossistema

Liderança compartilhada é o conceito essencial por trás do “chief of staff”, e isso tem tudo a ver com a necessidade de atuar em rede, que é própria dos ecossistemas – a Coca-Cola e suas franquias são um ecossistema.
“A atuação em rede já está tão estabelecida na Coca-Cola que adotamos os collective genius, conceito segundo o qual a melhor pessoa em cada área, independentemente de hierarquia, tem que estar na sala na hora de tomar uma decisão”, explica Debora Mattos, que, em sua carreira na empresa, atuou com as franquias da marca.
A maior horizontalização da gestão promovida pelo chief of staff também favorece o ecossistema e a inovação. (S.R.S.)

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando a liderança encontra a vida real

Este artigo mostra que quando cinco gerações convivem nas empresas e nas famílias, a liderança deixa de ser apenas um papel corporativo e passa a exigir coerência, empatia e presença em todos os espaços da vida.

Diversidade não gera performance. O que gera é a forma como ela é operada

Diversidade amplia repertório, mas também multiplica complexidade. Este artigo mostra por que equipes diversas só performam quando há uma arquitetura clara de decisão, comunicação e gestão de conflitos – e como a falta desse sistema transforma inclusão em ruído operacional e perda de velocidade competitiva.

Liderança, ESG
21 de março de 2026 11H00
Entre progressos estruturais e desafios persistentes, o Brasil passa por uma transformação profunda e se vê diante da urgência de consolidar conselhos mais plurais, estratégicos e preparados para os dilemas do século 21.

Felipe Ribeiro - Sócio e cofundador da Evermonte Executive & Board Search

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de março de 2026 06H00
Se a Governança de Dados não engaja a alta liderança, não é por falta de relevância - é porque ninguém mobiliza executivo algum com frameworks indecifráveis, Data Owners sem autoridade ou discursos tecnicistas que não resolvem problema real. No fim, o que trava a agenda não são os dados, mas a incapacidade de traduzi-los em poder, decisão e resultado

Bergson Lopes - Fundador e CEO da BLR DATA e vice-presidente da DAMA Brasil

0 min de leitura
User Experience, UX, Marketing & growth
20 de março de 2026 14H00
Entenda como experiências simples, contextualizadas e humanas constroem marcas que duram.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

9 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
20 de março de 2026 08H00
Este artigo provoca uma pergunta incômoda: por que seguimos tratando o novo com lentes velhas? Estamos vivendo a maior revolução tecnológica desde a internet - e, ainda assim, as empresas estão tropeçando exatamente nos mesmos erros da transformação digital.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

6 minutos min de leitura
Lifelong learning
19 de março de 2026 17H00
Entre escuta, repertório e prática, o que conversas com executivos revelam sobre desenvolvimento profissional no novo mercado.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de março de 2026 08H00
Enquanto as empresas correm para adotar IA, pouquíssimas fazem a pergunta que realmente importa: o que somos quando nosso modelo de negócio muda completamente?

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de março de 2026 13H00
Nada destrói uma empresa tão rápido - e tão silenciosamente - quanto um líder mal escolhido. Uma única nomeação equivocada corrói cultura, paralisa times, distorce decisões e drena resultado. Este artigo expõe por que insistir nesse erro não é só imprudência: é um passivo estratégico que nenhuma organização deveria tolerar.

Sylvestre Mergulhão - CEO e fundador da Impulso

3 minutos min de leitura
Estratégia
18 de março de 2026 06H00
Sua estratégia de 3 anos foi desenhada para um ambiente que já virou história. O custo de continuar executando um mapa desatualizado é mais alto do que você imagina.

Atila Persici Filho - COO da Bolder

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
17 de março de 2026 17H15
Direto do SXSW 2026, surge um alerta: E se o maior risco da IA não for errar, mas concordar demais?

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Empreendedorismo
17 de março de 2026 11H00
No SXSW 2026, Lucy Blakiston mostrou como uma ideia criada na faculdade se transformou na SYSCA, um ecossistema de mídia com impacto global.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...