Liderança, Cultura organizacional
8 minutos min de leitura

Hoje, faz um mês que a nossa seleção foi eliminada da Copa do Mundo: fora de campo, para onde o Brasil vai?

A mobilização que o maior evento esportivo do mundo desperta revelou algo poderoso sobre os brasileiros: nossa capacidade de nos unir em torno de um objetivo comum. Mas por que essa mesma energia raramente se traduz em avanços estruturais para o país?
Administradora de empresas, consultora e mentora. Com mais de quatro décadas de experiência em organizações nacionais e multinacionais. Ao longo de sua trajetória profissional, Laura tem ampla vivência internacional e já atuou em posições estratégicas relacionadas à gestão de operações, supply chain, processos organizacionais e planejamento estratégico, participando de iniciativas voltadas à melhoria de eficiência, desenvolvimento de vantagem competitiva, integração de cadeias de suprimentos e fortalecimento da governança corporativa. Atualmente dedica-se à consultoria e à educação executiva, apoiando empresas e lideranças no desenvolvimento de visão sistêmica, na qualificação da tomada de decisão e no aprimoramento da gestão organizacional, para melhorar resultados, reter inteligência e desenvolver talentos.

Compartilhar:


“Vai, Brasil!”
Essa foi uma das frases mais ouvidas por ocasião dos jogos da Copa.
Mas, mais uma vez, o Brasil não foi.

Como acontece em praticamente todas as edições do torneio, o país parou para acompanhar a Seleção, torcer, discutir escalações, compartilhar expectativas e reviver a esperança de mais um título. Em um país apaixonado por futebol, poucos eventos geram tamanho nível de envolvimento emocional, mobilização e sentimento de pertencimento. Durante os noventa minutos de uma partida decisiva, diferenças políticas, sociais, econômicas e ideológicas são temporariamente colocadas de lado. Milhões de brasileiros passam a compartilhar o mesmo objetivo, a mesma esperança e a mesma torcida.

Então, eu me pergunto: por que esse notável fenômeno não se reproduz com a mesma intensidade em outras esferas da sociedade? Imaginem se tivéssemos essa paixão obstinada para cobrar uma educação de ponta, para construir uma visão estratégica capaz de atravessar governos e gerações ou para destravar a nossa produtividade e tecnologia. Imaginem se torcêssemos pelo futuro do país com a mesma garra com que torcemos pela Seleção.

Mais do que os resultados dentro de campo, grandes competições esportivas costumam nos oferecer um espelho. Elas revelam nossa capacidade de mobilização coletiva, nossa disposição para acreditar em um projeto comum e o quanto somos capazes de nos unir em torno de um objetivo.

É justamente nesse ponto que o futebol nos provoca a refletir sobre o país que desejamos construir.

O Brasil possui uma extraordinária riqueza e diversidade cultural, étnica e regional. Possui uma das maiores biodiversidades do planeta, uma matriz energética privilegiada, abundância de recursos naturais, um agronegócio competitivo, uma posição geográfica estratégica e um povo reconhecido pela criatividade e adaptabilidade.

Diante de tantas vantagens, por que ainda patinamos para transformar potencial em desenvolvimento, produtividade, inovação e prosperidade? Talvez a primeira resposta doa, mas seja cultural: não fomos educados para pensar no longo prazo. Crescemos imediatistas. Existe, também, a urgência de compreender as transformações em curso, ler cenários com precisão e traçar estratégias para um amanhã complexo e competitivo que já bate à porta.

E essa lição de casa não diz respeito apenas aos governos. Ela é de todos nós. Começa dentro das nossas empresas, nas mesas dos conselhos, nas universidades, nas instituições e na própria sociedade. Para enxergar esse panorama completo, a verdadeira “big picture” do nosso lugar no mundo, o ponto de partida precisa ser um mergulho profundo no tabuleiro onde o jogo real é jogado: a geopolítica e a geoeconomia.

Desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, esses temas deixaram de ser mero “noticiário internacional” e passaram a figurar como fatores de risco que afetam diretamente o fluxo de caixa, o custo das matérias-primas e o acesso a mercados globais. Hoje, com as tensões envolvendo potências como os Estados Unidos e o Irã, novas tarifas norte-americanas e a aguardada ratificação do acordo entre União Europeia e Mercosul, o assunto virou debate obrigatório. Virou até conversa de bar.

Está evidente que as relações internacionais passam por profundas transformações. A busca por segurança energética, autonomia tecnológica e resiliência das cadeias de suprimentos está redesenhando fluxos comerciais, produtivos e de investimentos. Novos blocos de influência surgem, alianças históricas são revistas e a competição por recursos estratégicos se intensifica, reorganizando o poder e as cadeias globais de valor.

Além disso, as maiores economias do mundo têm tornado suas doutrinas e prioridades cada vez mais explícitas. Ao expressarem seus posicionamentos, enviam sinais claros não apenas aos seus cidadãos, mas também a parceiros comerciais, investidores, fornecedores e concorrentes.

Nesse contexto, o maior perigo para as organizações é a ruptura aliada à instabilidade. As empresas podem sofrer com a quebra nas cadeias de suprimentos e a consequente escassez de insumos estratégicos. Podem, também, ficar vulneráveis a sanções econômicas, barreiras técnicas e alfandegárias, tarifas punitivas, subsídios governamentais e práticas de dumping. Esse conjunto de fatores resulta em aumento de custos, perda de competitividade e, no limite, exclusão de mercados.

Mas há o outro lado da moeda: um horizonte repleto de oportunidades para a indústria, o agronegócio e o setor de serviços. Este momento singular de reorganização das cadeias globais de valor está provocando mudanças estruturais relevantes, consolidando tendências como nearshoring, reshoring e friendshoring.

Como em todo rearranjo de forças, surgem espaços para novos players. A busca de governos e grandes corporações por segurança, despertada pela pandemia, que escancarou fragilidades do sistema, cria mercados valiosos. Soma-se a isso a crescente disputa global por energia, minerais críticos, alimentos e tecnologias estratégicas.

Embora o Brasil não seja um beneficiário clássico do nearshoring, possui atributos ideais para estratégias de friendshoring e segurança de abastecimento. Nossa tradição diplomática de neutralidade, somada à abundância de recursos naturais, à matriz energética limpa e à liderança no agronegócio, nos posiciona como um parceiro estratégico evidente.

Para aproveitar essa oportunidade, entretanto, será fundamental fortalecer relacionamentos, ampliar a confiabilidade operacional e garantir a continuidade do fornecimento. A lógica tradicional do menor custo vem sendo substituída pela valorização da resiliência e da regionalização produtiva. Como vetor essencial de desenvolvimento e prosperidade, o comércio internacional viabiliza o acesso a insumos e tecnologias, impulsiona a escala de produção e atrai investimentos. Essa dinâmica gera um ciclo virtuoso de empregos, fomenta a inovação e eleva o padrão de qualidade e a competitividade.

Nesse sentido, o comércio exterior brasileiro foi recentemente remodelado para atender padrões internacionais, por meio do Acordo de Facilitação de Comércio da Organização Mundial do Comércio (OMC). Ferramentas e metodologias atuais asseguram previsibilidade e produtividade às operações de importação e exportação.

Paralelamente, diversos Regimes Aduaneiros Especiais, como Entreposto Aduaneiro, Drawback, RECOF, Admissão Temporária, Zonas de Processamento de Exportação, além do Programa OEA (Operador Econômico Autorizado), oferecem facilidades logísticas e benefícios financeiros capazes de reduzir custos e aumentar a competitividade.

Outro aspecto que merece atenção diz respeito às Trading Companies, que passarão por mudanças significativas com a Reforma Tributária. A principal vantagem histórica associada à arbitragem de ICMS perderá relevância com o novo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), desenhado para extinguir a guerra fiscal e deslocar a tributação para o destino do consumo.

Com isso, a decisão de utilizar uma trading deixa de ser predominantemente fiscal e assume um caráter estratégico, integrando-se à arquitetura da cadeia de suprimentos e à gestão de riscos. Vale a pena investigar esse recurso. Ressalto, contudo, que esses mecanismos não substituem uma estratégia mais ampla de competitividade internacional. Devem ser compreendidos como instrumentos de apoio, e não como a estratégia em si.

Voltando ao Brasil que todos desejamos para o futuro, há algo que me preocupa de forma particular: a velocidade com que transformamos conhecimento em produtividade real. Trata-se de um dos maiores gargalos das nossas organizações.

Habitualmente, citamos os desafios de atrair investimentos ou ingressar em cadeias globais de valor. Mas o verdadeiro desafio estratégico do Brasil está em desenvolver lideranças e pessoas capazes de aprender continuamente e traduzir esse conhecimento em inovação, produtividade e competitividade na ponta.

A esse desafio acrescento a necessidade imperativa de preservar a inteligência organizacional. Quantas empresas perdem conhecimento crítico todos os dias sem perceber?

Profissionais experientes se aposentam, processos são alterados e o conhecimento acumulado ao longo de décadas simplesmente desaparece. Não me refiro a procedimentos documentados, mas ao legítimo conhecimento tácito: aquele que permite antecipar os sinais fracos do mercado, realizar análises e projeções e tomar decisões difíceis diante do inédito.

É a capacidade de responder com segurança ao clássico questionamento: “What if?” Se o inesperado acontecer, o que faremos?

Esse patrimônio invisível e intangível ainda não possui uma linha específica no balanço patrimonial, mas faz toda a diferença no bottom line e pode representar uma das fontes mais robustas e sustentáveis de vantagem competitiva de uma organização. É ele que faz os verdadeiros golaços.

Sejamos críticos, mas também realistas: virar esse jogo exige investimentos consistentes em educação, qualificação profissional e capacidade de execução. Exige lideranças que pensem estrategicamente e empresas dispostas a aprender todos os dias. Essa engrenagem não depende apenas de políticas públicas. Ela se move dentro das nossas próprias organizações.

Voltando ao nosso querido futebol, as grandes competições esportivas nos lembram que talento bruto, sozinho, não garante vitórias. É necessário preparo, disciplina, estratégia, capacidade de execução e visão de longo prazo. São exatamente os mesmos elementos que diferenciam nações e organizações capazes de transformar potencial em resultados concretos.

Como dito, o Brasil tem recursos de sobra, criatividade e talento. A grande pergunta é se seremos capazes de transformar esse potencial em um projeto consistente de desenvolvimento, posicionando o país na economia do conhecimento das próximas décadas.

Afinal, gritar “Vai, Brasil!” durante uma Copa do Mundo é uma demonstração bonita de pertencimento. O verdadeiro desafio é manter esse compromisso vivo todos os dias, trabalhando para que o Brasil avance também fora dos gramados.

Vamos juntos?

Compartilhar:

Artigos relacionados

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de agosto de 2026 18H00
Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Finanças
17 de agosto de 2026 14H00
Hiperpersonalização, agentes inteligentes, analytics em tempo real e IA generativa já deixaram de ser tendências isoladas e começam a formar uma nova arquitetura para o setor financeiro. O desafio das lideranças passa a ser transformar essas tecnologias em capacidades organizacionais escaláveis, seguras e conectadas aos objetivos estratégicos do negócio.

Diego Souza - Principal Technical Manager no CESAR, e Maria Tereza Nagel - Gerente de Projetos no CESAR

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de agosto de 2026 08H00
À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Eliana Camejo - Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli e conselheira de Administração pelo IBGC

3 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças
16 de agosto de 2026 15H00
O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Anderson Farias - CEO da TopSaúde Hub

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de agosto de 2026 10H00

Denise Joaquim Marques - Consultora internacional de negócios, especialista em Vendas e Marketing

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
15 de agosto de 2026 14H00
Sistemas desconectados, estoques imprecisos e perdas recorrentes tornam o hortifrúti uma das operações mais complexas do varejo alimentar. Ao contrário das promessas de transformação total, a inteligência artificial vem demonstrando valor justamente onde consegue reconstruir informações, prever demanda e apoiar decisões com impacto direto sobre vendas e desperdício.

Marco Perlman - CEO da Aravita

3 minutos min de leitura
Estratégia, Ecossistema
15 de agosto de 2026 08H00
Embora a maioria das empresas reconheça o potencial dos ecossistemas de parceiros para gerar receita e ampliar mercados, poucas conseguem transformar essa ambição em resultados consistentes. O artigo explora por que a construção de um ecossistema eficaz vai muito além da criação de um canal comercial, exigindo arquitetura, governança, ativação e uma estratégia capaz de conectar parceiros aos objetivos de crescimento do negócio.

Juliana Tubino e Nara Vaz Guimarães - Cofundadoras do Ecossistema Octo e coautoras do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing
14 de agosto de 2026 13H00
Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Antonio Carlos Matos da Silva - Conselheiro independente associado ao IBGC

5 minutos min de leitura
Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução