Inovação
9 min de leitura

iF Design Awards, Brasil e criação de riqueza

A importância de entender como o design estratégico, apoiado por políticas públicas e gestão moderna, impulsiona o valor real das empresas e a competitividade de nações como China e Brasil.
Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

Compartilhar:

É impossível comparecer à cerimônia de premiação do iF Design Awards e não sentir a orientação ao desenvolvimento que sempre permeou o hemisfério norte. Foi assim neste ano em Berlim, com a premiação de 2025.

Dar condições a seus habitantes de destravarem seu potencial, explorar sua criatividade e gerar riqueza para si e para suas comunidades sempre foi o objetivo orientador desses países.

Foi surpreendente ver Lord Norman Foster, sua genialidade, e suas palavras perfeitamente combinadas. Um ballet cognitivo.

Provocante a presença das equipes de produto de empresas como Ferrari, Apple, Philips, IBM, Sony, Samsung, Canon e Panasonic, e tantas outras que estão presentes em nossas vidas, ali mesmo, acessíveis, como se o mundo do design global estivesse disponível a todos no evento.

E, finalmente, sentimentos contraditórios tomaram conta quando a premiação que abriu a noite foi Brasileira.

A prova inequívoca que políticas públicas feitas com seriedade produzem resultados reais foram os inúmeros prêmios conquistados por chineses para produtos dotados de uma sensibilidade renascentista das quais eles não gozavam até poucos anos atrás.

Pelos longos anos que estive na Ásia, testemunhei a dificuldade que os chineses tinham com atributos de grande abstração, além de, nos primeiros anos do século, terem pouca habilidade com ferramentas de precisão.

Em pouco mais de 20 anos, dentro de uma geração, eles mudaram essa realidade. Hoje competem de igual para igual em bens duráveis – eletrodomésticos, automóveis, áudio e vídeo, ferramentas e outros itens – que antes eram ocidentais por vocação. É bem provável que parte do PIB chinês seja originado pelo design nos dias de hoje.

O Brasil foi representado por mais de 50 equipes de desenvolvimento, que acumularam 85 troféus em diferentes categorias, dando especial destaque a Gustavo Greco e Lumini, ganhadores do Gold Award, prêmio máximo conferido aos competidores. Foi Gustavo quem abriu a noite em Berlim, para o encantamento dos corações dos Brasileiros presentes.

Considerando a relevância e o alcance dessas premiações, cabe uma reflexão: até que ponto os principais stakeholders dessas equipes criativas estão cientes da magnitude dessa conquista? É possível que não plenamente.
Muitas associações de classe, setores industriais e até mesmo instâncias de governo — em níveis regional e nacional — talvez ainda não conheçam os vencedores do prêmio de 2025, ou, mais sensivelmente, não estejam familiarizados com as dinâmicas que impulsionam essas criações, tampouco com os mecanismos de estímulo adotados por governos em contextos mais maduros de inovação.

É bem provável que essas instituições tenham envelhecido, ou para não cometer injustiças, tenham se debruçado por muito tempo em ideias envelhecidas.

Mas esse conjunto de artigos deixará de lado questões de políticas públicas e tratará de organizações e de sua gestão profissional.

Tratará, especificamente, de como os investimentos em pesquisa, design e desenvolvimento de produtos ocorrem a partir da perspectiva dos tomadores de decisão, sejam eles sócios ou executivos profissionais – CEO, CFO e CMO.

A importância do design nas empresas

A consultoria McKinsey realizou uma ampla pesquisa entre 2013 e 2018 sobre o tema. Esse trabalho, que pesquisou 300 empresas listadas publicamente, mais de 100 mil iniciativas de design e 2 milhões de registros financeiros, teve a participação de um brasileiro, Fabrício Dore. Fabrício era responsável pela representação da América Latina nessa iniciativa à época.

A pesquisa, que se transformou em um observatório do tema, demonstra que empresas com bons projetos de design aumentam sensivelmente suas receitas e têm quase o dobro de retorno para seus acionistas comparado com os pares na mesma indústria.

Ao mesmo tempo, chama atenção a proposição do trabalho de que menos de 5% das empresas que a McKinsey entrevistou acreditavam que seus executivos podiam tomar decisões objetivas de design, tal como desenvolver novos produtos ou entrar em novos setores.

Por outro lado, nas empresas que conseguiam trazer o design para os níveis estratégicos da organização e em que havia a adoção da técnica denominada IDM (inovação dirigida pelo mercado), os líderes entendiam que design é um tema da direção da empresa e seguiam suas métricas de performance com o mesmo rigor que aplicavam à receita ou à rentabilidade.

Para o quartil superior de empresas que performavam bem à época da pesquisa, os líderes eram bons nos 4 temas do IDM – compreensão das necessidades do mercado, alinhamento estratégico, processo disciplinado de inovação e colaboração multidisciplinar – e carregavam esses conceitos implicitamente compreendidos.

A McKinsey apontou mais tarde, em 2022, que 40% das maiores empresas globais já tinham um Chief Design Officer.

Um dos principais desafios relatados pelos executivos dessa empresas é fazer com que a orientação para o design esteja plenamente incorporada à mentalidade dos diretores da organização.

O desafio de gestão na criação de riqueza

Primeiramente vamos investigar a notação desses investimentos nos movimentos contábeis e financeiros das empresas.

Vamos descobrir, de acordo com o CPC (código de pronunciamento contábil), onde são devidamente registradas essas despesas e como são feitos os cálculos e anotadas as projeções de receita acrescida pelas atividades de design em períodos futuros.

Dividiremos os projetos de design de produtos e serviços por duas fases características – estar em fase de estudo de alternativas ou ter protótipos prontos para ir ao mercado – e alçaremos compreensão do devido tratamento contábil.

O primeiro caso é a fase de estudos. E aqui há simplicidade: são despesas operacionais não recuperáveis. Não têm qualquer ligação com projeções futuras de fluxo de caixa. Sejam equipes, viagens, gastos com instalação, tudo é despesa sem possibilidade de amortização (CPC 04, 54 a 56).

No caso de projetos em fase comprovada de viabilidade técnica, comercial e financeira, ou seja, prontos para ir a mercado, suas despesas podem ser ativadas como ativo intangível, sob critérios rígidos do CPC 04 (57 a 61), mas não podem ter caráter especulativo, ou seja, ter valoração diferente dos custos realmente incorridos (CPC 04, 65).

Se tratarmos de marcas, fundos de comércio (Goodwill), segmentação de clientes (carteira), entre outros, essas não podem ser reconhecidas como ativo intangível (CPC 04, 48), a não ser que tenham sido adquiridas de terceiros (CPC 04, 69 e CPC 15, B31). Nos faz pensar que aquisições podem trazer valor e novos conhecimentos para as organizações, inclusive na capacidade de criar produtos e serviços.

Podemos perceber que há bastante rigor na avaliação das amortizações de despesas em desenvolvimento de produtos, e é vedado projeções de ganhos econômicos na perspectiva contábil. O item 104 do CPC pronuncia: “A amortização de um ativo intangível com vida útil definida deve ser realizada de forma sistemática ao longo da sua vida útil. O método de amortização deve refletir o padrão de consumo dos benefícios econômicos futuros esperados.”

Deve haver evidência confiável de que a receita representa adequadamente o consumo de benefícios econômicos.

A Receita Federal e órgãos de fiscalização também exigem que esse critério seja documentado e justificado, sobretudo para evitar distorções na apuração de resultados e tributos.

Por outro lado, o pensamento gerencial moderno preconiza, em uma linha pós-moderna (ou pós-industrial), que a marca, ou nesse caso o conjunto dos resultados de design, são responsáveis por um acréscimo de preço e por certa estabilidade nas projeções em razão da preferência dos consumidores. Essas características em conjunto – marca, design e características funcionais – terão um efeito positivo nos valores presentes dos fluxos de caixa futuros para a empresa, e essas diferenças acabam sendo relatadas no valor do Goodwill em transações de fusão e aquisição, por exemplo.

Em um mercado eficiente, o preço de mercado de empresas reflete os lucros potenciais da empresa e seus dividendos, os riscos do negócio, os riscos financeiros decorrentes da estrutura de capital da empresa e o valor dos ativos, bem como as variáveis ambientais e outros fatores intangíveis que possam afetar o valor da empresa. Ou seja, reflete o valor presente dos fluxos de caixa futuros para os sócios.

Em outras palavras, há um reconhecimento gerencial de que projetos bem-sucedidos de P&D certamente impulsionarão preços, reconhecimento da marca, fidelidade dos consumidores, lucros e, em última instância, o valor da empresa.

No entanto, esses ganhos projetados pertencem ao domínio da gestão estratégica — onde impera a subjetividade. E subjetividade, convenhamos, é território reservado aos gênios.

Essa qualidade de gestão acaba ocorrendo em empresas mais modernas em termos gerenciais e de liderança, onde diferentes vozes têm espaço, equipes multidisciplinares trabalham em alinhamento às decisões estratégicas e não há a formação de silos. Tema de teoria organizacional que exploraremos em outros artigos.

O alto grau de subjetividade também é a razão pela qual as empresas Brasileiras preferem design incremental de baixo impacto. O alto custo de capital no país e a intensa tributação aos capitais usados em desenvolvimento de novos produtos, além da nossa indelével instabilidade institucional, afugentam até os mais bem intencionados.

Se os investimentos forem grandes a ponto de alterar a estrutura de capital da organização – envolvendo novas tecnologias, investimentos em bens de capital, ativos fixos de qualquer natureza – a situação se complica ainda mais. Mesmo dentro de empresas de receita recorrente e portfolios com boa proteção, teremos um projeto com ares de startup e taxa de risco nas alturas.

Voltando ao conceito de Goodwill, podemos considerar que essa medida é consequente do MVA (Market Value Added), ou simplesmente valor de mercado adicionado, medida que indica se há agregação de riqueza.

Para uma noção intuitiva, o MVA é igual ao valor de mercado da empresa subtraindo-se o capital investido a preço de mercado. É a conta de quanto a sua empresa vale menos o que lhe custou colocar ela em pé.

E o fator determinante para tal geração de riqueza é a capacidade de gerar resultados positivos no futuro em sua riqueza agregada: prêmios de preço, de posição, de barreiras tecnológicas, de domínio de setor.

Buscando a referência de Alexandre Assaf Neto:

“Um ativo somente agregará valor se seus fluxos operacionais de caixa esperados, descontados a uma taxa que reflete as expectativas de risco dos proprietários de capital, produzirem um valor presente líquido (goodwill) maior que zero. Ou seja, riqueza absoluta.

O objetivo enunciado de maximização de riqueza de um negócio somente é alcançado quando o todo – a empresa em funcionamento com seus valores tangíveis e intangíveis vale mais que a soma de suas partes (ativos). E essa diferença em excesso de todo o negócio em relação ao investimento realizado pelos proprietários do capital, conhecida pelo Valor Agregado pelo Mercado (MVA), é que se entende como o genuíno conceito de riqueza.” 

E é a partir dessa premissa que os líderes das empresas premiadas no iF Design Awards 2025, principalmente as que tem caráter industrial, em algum momento se convenceram, seja por metodologia empírica, seja por sua experiência de mercado, que as taxas de retorno desses projetos estavam em algum lugar no futuro. Um alvo móvel, mas ainda assim capturável.

É gestão por criação de riqueza, não por caixa, que envolve o design propriamente dito, marcas e patentes, pesquisa e desenvolvimento de produtos, imagem e tradição, sistemas de prestação de serviços, interfaces de usuário, e inúmeros outros exemplos.

Falamos com alguns líderes das empresas vencedoras do iF Design Awards 2025 e outras organizações de interesse para ouvir suas perspectivas e experiências no tema. Ao longo das próximas semanas, toda segunda traremos a perspectiva a partir de um dos ganhadores neste evento fantástico.

Compartilhar:

Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

Artigos relacionados

Essa reunião podia ser um agente

Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão – e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Tecnologia & inteligencia artificial
18 de abril de 2026 09H00
Este é o quarto texto da série "Como promptar a realidade" e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência - mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

27 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
17 de abril de 2026 15H00
Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater - quando a inteligência artificial vira espetáculo - e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
17 de abril de 2026 09H00
Este é o terceiro texto da série "Como promptar a realidade". Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado - e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

11 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
16 de abril de 2026 14H00
Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita - sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Marcos Ráyol - CTO do Lance!

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
16 de abril de 2026 09H00
Este é o segundo artigo da série "Como promptar a realidade" e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia - reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

13 minutos min de leitura
Liderança
15 de abril de 2026 17H00
Se liderar ainda é, para você, dar respostas e controlar processos, este artigo não é confortável. Liderança criativa começa quando o líder troca certezas por perguntas e controle por confiança.

Clarissa Almeida - Head de RH da Yank Solutions

2 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Foresight, Tecnologia & inteligencia artificial
15 de abril de 2026 08H00
Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento - e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

23 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de abril de 2026 18H00
Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais, introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Marta Ferreira

4 minutos min de leitura
Liderança
14 de abril de 2026 14H00
Este é o primeiro artigo da nova coluna "Liderança & Aikidô" e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

7 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
14 de abril de 2026 07H00
Com a ascensão dos agentes de IA, nos deparamos com uma profunda mudança no papel do designer, de executor para curador, estrategista e catalisador de experiências complexas. A discussão de UX evolui para o território do AX (Agent Experience), onde o foco deixa de ser somente a interação humano-máquina em interfaces e passa a considerar como agentes autônomos agem, decidem e colaboram com pessoas em sistemas inteligentes

Victor Ximenes - Senior Design Manager do CESAR

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão