Cultura organizacional, Inovação & estratégia
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Inclusão precisa deixar de ser discurso e entrar no centro da estratégia de valor das empresas

Inclusão não é pauta social, é estratégia: entender a neurodiversidade como valor competitivo transforma culturas, impulsiona inovação e constrói empresas mais humanas e sustentáveis.
É psicólogo, especialista em terapia comportamental cognitiva em saúde mental, mestre em psicologia da saúde. Faz parte do grupo de trabalho sobre Direitos Humanos nas Empresas da rede brasileira do Pacto Global da ONU e é diretor geral da Specialisterne no Brasil.

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O tema diversidade já chegou as organizações está presente em relatórios de sustentabilidade ou ESG, mas o que é necessário para avançarmos neste tema?

Apenas falar sobre inclusão já não é suficiente. O mercado precisa enxergar que a neurodiversidade não é apenas uma pauta social, mas pode ser uma estratégia de valor, inovação e sustentabilidade. Cada vez mais, as organizações que desejam ser relevantes no futuro entendem que diversidade cognitiva é sinônimo de inteligência coletiva e também diferencial competitivo.

Contratação de pessoas neurodivergentes no Brasil

Cada vez mais, empresas têm reconhecido o valor da diversidade e inclusão como pilares fundamentais para o crescimento sustentável e a inovação.

Nesse cenário, a contratação de pessoas neurodivergentes – como autistas, pessoas com TDAH, dislexia, entre outras condições – tem se mostrado um passo essencial rumo a ambientes de trabalho mais criativos, produtivos e humanos.

Mais do que uma pauta de responsabilidade social, a inclusão de pessoas neurodivergentes é uma estratégia inteligente de desenvolvimento humano e empresarial.

Um ponto importante

É comum ver a inclusão de pessoas autistas sendo justificada pelo argumento de que “são pessoas mais concentradas”, “mais inovadoras” ou “mais produtivas”. Mas esse tipo de discurso pode ser perigoso. Quando defendemos a inclusão apenas pela utilidade ou possível vantagem competitiva, reduzimos a pessoa unicamente ao que ela é capaz de entregar.

A inclusão não deve acontecer somente porque alguém pode performar mais, e sim porque todas as pessoas têm o direito de trabalhar, pertencer e serem reconhecidas. As pessoas com deficiência ou neurodivergencias, não devem ser consideradas heróis ou coitadinhos, mas sim como  pessoas! O valor humano deve vir antes da produtividade. A performance será uma agradável consequência.

Pela lei de cotas, empresas com cem ou mais funcionários deveriam empregar entre 2% e 5% de pessoas com deficiência. Na prática, isso significaria ao menos 1 milhão de trabalhadores formais. A realidade é outra: pouco mais de 500 mil vínculos ativos foram registrados em 2023, segundo o Ministério do Trabalho. Metade da meta nunca saiu do papel, deixando pessoas talentosas fora da formalidade.

A face invisível da exclusão

Entre as diferentes deficiências, há uma dimensão ainda mais invisível: a das pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). Não é incomum encontrar profissionais autistas altamente qualificados, como programadores, analistas de dados, designers, pesquisadores, que nunca ultrapassaram a barreira da entrevista de emprego. O problema não está na competência técnica, mas nas normas sociais implícitas, em processos seletivos engessados e na ausência de ambientes adaptados.

De acordo com o The Office for National Statistics mostra que apenas 22% dos adultos autistas estão empregados em algum tipo de emprego. É um índice que escancara o paradoxo: enquanto empresas clamam por inovação e diversidade de pensamento, continuam excluindo justamente aqueles que poderiam oferecer novas perspectivas.

Não se trata apenas de cumprir uma lei. Trata-se de reconfigurar a cultura organizacional. Incluir pessoas autistas e pessoas com deficiência em geral, significa repensar reuniões, flexibilizar rotinas, adaptar sistemas de comunicação e reconhecer talentos que muitas vezes não se expressam pelos mesmos códigos sociais.

Pesquisas da Harvard Business Review mostrou que equipes diversas são 20% mais eficientes em inovação. Isso não acontece por acaso, a diversidade cognitiva, de modos de pensar, processar informações e resolver problemas amplia as possibilidades de resposta em cenários cada vez mais incertos. O autismo, nesse contexto, não é apenas um diagnóstico clínico, mas uma lente que enriquece o repertório coletivo.

Do relatório à vida real

É nesse ponto que se distingue o discurso da prática. Empresas que transformam não apenas entregam resultados melhores, mas também constroem uma sociedade mais justa. A inclusão de autistas e de pessoas com deficiência não pode se limitar a relatórios ou a fotos em campanhas de marketing. É preciso desenhar ambientes onde todos possam não apenas estar presentes, mas contribuir, crescer e prosperar.

Inclusão é a certeza de um futuro próspero para todos

O Presidente Global da Specialisterne, Ramon Bernat, tem uma fala que eu gosto muito de lembrar quando ele diz que trabalhar com pessoas neurodivergentes nos desafia a sermos mais efetivos, a ter uma comunicação mais clara e transparente, e nos transforma a cada dia em seres humanos mais empáticos e verdadeiramente humanos.  

Entender a neurodiversidade como estratégia é o segredo para inclusão que impulsiona inovação dentro das corporações. Empresas que abraçam a neurodiversidade constroem o futuro mais próspero e humano.

Finalizo dizendo que a neurodiversidade é o presente que transforma o futuro. E as organizações que entenderem isso hoje estarão um passo à frente amanhã.

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