Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
5 minutos min de leitura

Você está ai? O silêncio digital no expediente virou estratégia de produtividade

A disponibilidade constante passou a ser confundida com produtividade. Mas, enquanto profissionais são cobrados por respostas rápidas, cresce a necessidade de concentração para realizar atividades que exigem análise, criatividade, julgamento e tomada de decisão. O artigo propõe uma reflexão sobre o valor do silêncio digital no trabalho, mostrando por que organizações que desejam melhores resultados precisam aprender a proteger a atenção das pessoas, e não apenas monitorar sua presença online.
Pesquisadora pHd de bem-estar digital

Compartilhar:

Um profissional passa uma hora concentrado em uma análise e, ao voltar às mensagens, encontra uma cobrança: “Você está aí?”. A entrega avançou, mas sua presença foi colocada em dúvida. A cena revela uma contradição na gestão: esperamos que as pessoas desenvolvam trabalhos complexos enquanto exigimos sinais contínuos de disponibilidade.

Quando responder rapidamente vira demonstração de comprometimento, a concentração passa a ter um custo. É preciso justificar o tempo longe dos grupos, avisar que ficará indisponível e, às vezes, interromper uma tarefa apenas para mostrar que está trabalhando. A atenção fica subordinada à necessidade de ser visto.

É por isso que o silêncio digital durante o expediente merece espaço na agenda de RH e das lideranças. Trata-se de estabelecer períodos combinados em que os profissionais possam realizar suas atividades sem acompanhar continuamente mensagens, e-mails e notificações. A tecnologia necessária ao trabalho continua em uso. O acordo é sobre a disponibilidade para interrupções.

Experiências recentes ajudam a mostrar como isso pode funcionar. Em um balanço publicado no início de 2026, o Dropbox relatou projetos piloto que orientavam funcionários a ativar o modo “não perturbe” do Slack durante blocos de concentração e reuniões. Também incentivou vídeos gravados para substituir encontros que dispensavam discussão em tempo real.

Em outro piloto, realizado em 2025 com equipes de desenvolvimento, a empresa combinou todas as quartas-feiras sem reuniões, redução de encontros recorrentes e comunicação assíncrona. Segundo o Dropbox, houve queda de 27% nas horas semanais de reunião e aumento de 28% no tempo dedicado à programação. Os resultados refletem esse conjunto de mudanças, mas oferecem um exemplo de como rever a rotina pode abrir espaço para a execução.

Na bunny.net, empresa de infraestrutura de internet com equipe distribuída, a iniciativa partiu da escuta dos profissionais. Após pedidos por mais tempo de foco em uma pesquisa interna, a organização experimentou quintas-feiras sem reuniões internas e revisou compromissos recorrentes. Em seu blog, em setembro de 2025, a empresa explicou que as equipes poderiam usar esse tempo para desenvolver projetos, fazer atualizações assíncronas e reservar horas com o Slack no modo “não perturbe”. A prática continuava entre os benefícios divulgados em janeiro de 2026, com flexibilidade para funções e demandas externas.

O aspecto mais relevante dessas experiências é a concordância organizacional. A pessoa ganha respaldo para concentrar-se. Isso faz diferença em ambientes nos quais silenciar um aplicativo pode ser interpretado como desinteresse, dificuldade de colaboração ou falta de agilidade.

Os dados ajudam a entender por que essa discussão ganhou urgência. No Work Trend Index 2025, da Microsoft, 80% dos participantes disseram não ter tempo ou energia suficientes para realizar seu trabalho. O levantamento ouviu 31 mil trabalhadores do conhecimento em 31 mercados. Já a edição de 2026 acrescenta outra dimensão ao debate. Entre os 20 mil usuários de IA ouvidos em dez países, 46% apontaram o pensamento crítico como uma das competências humanas que ganham importância à medida que a tecnologia assume mais tarefas. Esse resultado merece atenção das lideranças: avaliar uma resposta, conferir informações e decidir como utilizá-las também exige concentração. Se a expectativa é que os profissionais exerçam esse julgamento, precisamos reservar espaço para isso na rotina.

Já o State of the Workplace 2026, da ActivTrak, analisou mais de 443 milhões de horas de atividade digital em 1.111 organizações. Na base estudada, a duração média das sessões de foco caiu 9%, para aproximadamente 13 minutos, enquanto cresceram os indicadores de colaboração e multitarefa. Esses dados não testam uma política de silêncio digital, mas ajudam a questionar uma rotina em que a comunicação ocupa espaço crescente.

Para quem lidera, o primeiro passo é combinar com a equipe quais situações exigem uma interrupção e quais podem esperar. Esses acordos precisam caminhar junto com a gestão individual do tempo. Cabe também a cada profissional planejar suas prioridades, reservar períodos de concentração e avaliar quando consultar mensagens, em vez de interromper uma tarefa a cada notificação. A empresa precisa dar condições para o foco, e as pessoas precisam aprender a se proteger e usar esse tempo.

O RH pode ajudar a construir acordos sobre canais, prazos de resposta e períodos protegidos. Também precisa observar se os critérios de reconhecimento sustentam esses acordos. Se quem responde imediatamente recebe elogios constantes, enquanto quem entrega bem precisa explicar sua ausência do grupo, a equipe entende qual comportamento é valorizado.

A liderança dá credibilidade à mudança quando respeita os horários combinados e organiza uma forma de encaminhar urgências (como estabelecer um canal de ‘linha direta’ ou ligação telefônica apenas para emergências reais, liberando o chat diário). Cada área exige um desenho: atendimento, vendas e planejamento têm necessidades distintas. É possível testar blocos de concentração, prever cobertura entre colegas e acompanhar qualidade, prazos, continuidade do serviço e percepção dos profissionais.

Há uma questão fundamental que precisa acompanhar essa discussão: o tempo reservado para concentração não pode custar uma segunda jornada à noite. Se o profissional consegue avançar em uma análise durante o dia, mas precisa responder às mensagens acumuladas depois do expediente, o problema apenas mudou de horário. Proteger a atenção exige também repensar o volume de demandas, a organização individual do tempo e as expectativas sobre o prazo e a qualidade das respostas.

Na perspectiva do bem-estar digital, importa compreender como a tecnologia participa das relações de trabalho. Um aplicativo pode facilitar a cooperação e, ao mesmo tempo, servir de instrumento informal de cobrança de presença. Cabe à gestão reconhecer essa diferença.

Concentrar-se não deveria exigir uma defesa. Se a empresa espera reflexão, criatividade e boas decisões, precisa permitir que alguém trabalhe por algum tempo sem perguntar: “Você está aí?”.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Você está ai? O silêncio digital no expediente virou estratégia de produtividade

A disponibilidade constante passou a ser confundida com produtividade. Mas, enquanto profissionais são cobrados por respostas rápidas, cresce a necessidade de concentração para realizar atividades que exigem análise, criatividade, julgamento e tomada de decisão. O artigo propõe uma reflexão sobre o valor do silêncio digital no trabalho, mostrando por que organizações que desejam melhores resultados precisam aprender a proteger a atenção das pessoas, e não apenas monitorar sua presença online.

Inspirar o mercado é diferente de copiar

Mais do que proteger ideias, a discussão convida empresas a construírem uma cultura em que o pioneirismo sirva de estímulo para novas criações, e não de atalho para replicar o trabalho de quem inovou primeiro.

O fim da educação cega: Learner 360 – uma nova forma de enxergar quem aprende

O artigo discute por que a personalização da aprendizagem exige ir além dos indicadores tradicionais e apresenta o conceito de Learner 360, uma proposta para construir uma visão mais integrada, dinâmica e significativa do aprendiz, capaz de apoiar decisões educacionais mais precisas e trajetórias de desenvolvimento verdadeiramente centradas no indivíduo.

O futuro do trabalho será criativo, conectado e escalável

A IA vai tirar empregos ou reinventar o trabalho? A pergunta mais comum sobre inteligência artificial ainda gira em torno da substituição de empregos. O artigo propõe uma reflexão sobre o futuro das carreiras, questionando a estrutura tradicional das organizações e defendendo um modelo em que pessoas se concentram cada vez mais em criar, conectar, verificar e escalar, enquanto a IA assume grande parte das atividades operacionais.

Criatividade deixou de ser campanha. Tornou-se estratégia.

O artigo defende que a criatividade deixou de ser um recurso pontual para se tornar uma capacidade organizacional capaz de conectar tecnologia, inovação, cultura e estratégia, sustentando o crescimento contínuo e a relevância das empresas no longo prazo.

Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de setembro de 2026 14H00
Dois jovens iniciaram a carreira no mesmo programa de trainees, com formações semelhantes e perspectivas promissoras. Trinta anos depois, vivem realidades profissionais e financeiras muito diferentes. A partir dessa história, o artigo propõe uma reflexão sobre como empresas podem contribuir para trajetórias mais sustentáveis e equitativas ao longo de toda a vida.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de setembro de 2026 08H00
Enquanto algumas organizações reduzem contratações de profissionais em início de carreira graças aos ganhos de produtividade proporcionados pela inteligência artificial, outras fazem exatamente o oposto e ampliam seus programas de formação. O motivo é simples: toda vaga júnior eliminada hoje pode se transformar em uma escassez de profissionais experientes amanhã.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
28 de setembro de 2026 14H00
Lideranças são constantemente cobradas a desenvolver equipes engajadas, seguras e resilientes. Mas o que acontece quando elas recebem a responsabilidade pela mudança sem tempo, recursos ou autonomia para promovê-la? Uma reflexão sobre o limite entre responsabilidade individual e responsabilidade organizacional.

Indira Leite - Consultora em Educação Corporativa e Mestre em Psicologia Organizacional, Especialista em Engajamento de Equipes.

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
28 de setembro de 2026 08H00
Conversar com um assistente para resolver uma demanda parece simples para o usuário. Para as organizações, porém, isso exige uma transformação muito mais profunda: explicitar processos, organizar capacidades de negócio e construir uma arquitetura capaz de conectar intenção, decisão e execução de forma confiável. É nesse encontro entre inteligência artificial e arquitetura headless que surge uma nova lógica para o futuro das operações empresariais.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

12 minutos min de leitura
Cultura organizacional
27 de setembro de 2026 14H00
O artigo mostra como o recuo estratégico do ego, a escuta hospitaleira e a responsabilidade pelo vínculo podem transformar relações em uma poderosa infraestrutura de alta performance.

Daniela Cais - Designer de Relações Profissionais, TEDx Speaker, Mentora de Comunicação para Carreiras e Negócios

6 minutos min de leitura
Diversidade, ESG, Gestão de pessoas
27 de setembro de 2026 08H00
Inovação não garante inclusão por si só. Para que a inteligência artificial amplie oportunidades para pessoas com deficiência, será necessário combinar tecnologia, governança, acessibilidade e mediação humana qualificada.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
26 de setembro de 2026 18H00
Mais do que uma questão tecnológica, o crescimento do Shadow AI evidencia a necessidade de fortalecer políticas internas, educação digital e governança para proteger um dos ativos mais valiosos das empresas: seus dados.

Adriano Pinhal - Superintendente de Inteligência Artificial da Mapfre

3 minutos min de leitura
Educação
26 de setembro de 2026 12H00
Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Vinicius Tondolo - Diretor executivo da Fundação Sagres

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de setembro de 2026 07H00
Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

Ana Luiza Oliveira e Ellen Couto - Integrantes do LabJornalismo, projeto da HSM Management em parceria com a Anhembi Morumbi

6 minutos min de leitura
ESG
25 de setembro de 2026 15H00
Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Luiz Martha - Diretor de Conhecimento e Impacto do IBGC- Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e Rodolfo Fücher - Líder do Grupo Curador do 27º Congresso IBGC.

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução