Liderança, Times e Cultura

Mente de principiante

Conseguir desaprender para aprender algo novo, sem legados, é um imenso trunfo para negócios e carreiras, mas ainda pouco utilizado. Esta reportagem reconhece a dificuldade de fazer isso e propõe maneiras sistemáticas para consegui-lo.
Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios, com mais de 30 anos de experiência como redatora, repórter, editora e revisora. Colaboradora de HSM Management e de MIT Sloan Management Review Brasil.

Compartilhar:

No século 20, desaprender algo era um movimento indesejável, porque uma pessoa só evoluía com o acúmulo de conhecimento, que lhe dava vantagens competitivas perante outras pessoas. Mas agora, no século 21, passamos a ter excesso de informação, e passa a importar mais como a pessoa busca e utiliza a informação, não necessariamente seu acúmulo, que pode ser automatizado.

Para dificultar as coisas, a velocidade e a abrangência das mudanças fazem aumentar a importância de um profissional que consegue adquirir aprendizados novos rapidamente. O problema? Quase ninguém aprendeu verdadeiramente a aprender. Em geral, as pessoas aprenderam a decorar. Aprender implica desaprender.

Quem faz essa análise é Marcelo Nakagawa, professor do Insper, Fundação Dom Cabral e FIA que é referência em empreendedorismo. Ele não tem dúvidas de que o analfabeto do futuro não será a pessoa que não aprendeu a ler e a escrever, mas “aquela que não aprendeu a aprender, a desaprender e a reaprender”. O grande recurso será a chamada “mente de principiante”

![Marcelo Nakagawa PB](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/3dmQY8tRe9BXHa3yIbN83d/5c344f72c1f9fce7a4741f07d1665fe1/Marcelo_Nakagawa_PB.jpg)
*Marcelo Nakagawa, professor do Insper, Fundação Dom Cabral e FIA*

Conceito que vem do zen-budismo japonês (e é traduzido no ideograma que ilustra este artigo), o “shoshin” remonta ao mestre Eihei Dogen, mais de dez séculos atrás, que defendia a necessidade de desenvolver a mente de principiante, porque a mente de especialista nos torna arrogantes e, no fundo, frágeis, embora aparentemente fortes. Então, no século 20, o mestre Shunryu Suzuki, do livro Mente Zen, Mente de Principiante, foi a São Francisco (EUA) montar lá um centro zen budista e, certo dia, lá apareceu um jovem de 17 anos chamado Steve Jobs.
Muitas das inovações da Apple tiveram influência do zen-budismo e é daí que vem a famosa frase do cofundador da Apple “stay hungry, stay fullish”, no sentido de continue com fome (de aprender), mas ingênuo, com mente de principiante.

Com Jobs, esse ensinamento começou a permear um pouco a cultura do Vale do Silício. Nos dias atuais, o grande defensor do shoshin é Mark Benioff, fundador e CEO da Salesforce. Ele mesmo pratica o conceito de mente de principiante na reunião de planejamento anual da companhia. Todos são convidados a esquecer o passado e a olhar para frente, fazer o que é possível e sem enviesar. Inclusive, Benioff criou o método V2MOM, sigla que significa visão e valores (V2), em combinação com métodos, obstáculos e medidas (MOM). É um método que, ao ser aplicado, desenvolve a mente de principiante.

O shoshin já vem sendo institucionalizado no discurso de algumas empresas. Por exemplo, um dos valores da Amazon é “todo dia é day one”, como se hoje fosse sempre o primeiro dia, não importa o que se faça. No Brasil, o Itaú mudou recentemente seu conjunto de valores e um dos novos é “Não sabemos tudo”, atestando que é importante reconhecer que não se sabe tudo. Na sede da Ambev, está escrito numa parede gigantesca: “Ambev. De uma empresa que sabe tudo para uma empresa que aprende tudo”. “Essa frase foi copiada de Satya Nadella, CEO da Microsoft. Em um dos capítulos do seu livro Aperte o F5, ele escreve que um de seus desafios na Microsoft era mudar a liderança que sabe tudo para uma liderança que aprende tudo”, conta Nakagawa.

Não é à toa que boa parte das start-ups e scaleups de sucesso foi fundada por pessoas que não eram especialistas na área. Para dar alguns exemplos, Jeff Bezos, da Amazon, não era especialista em comércio varejista ou e-commerce, e sim no mercado financeiro; David Vélez, do Nubank, não veio do mercado bancário; e Gabriel Braga, fundador do Quinto Andar, nunca trabalhou no mercado imobiliário.

## Duas orientações a seguir

Nakagawa compartilha duas orientações com quem quer desenvolver a mente de principiante. A primeira, que é mais fácil, é ficar o tempo todo se desafiando, em situações de aprendizado de coisas muito novas. “Por exemplo, comecei a fazer em 2023 o crossfit. Tinha preconceito, mas fui fazer uma aula-teste e gostei, e agora pratico de cinco a seis vezes por semana. Em vários movimentos, sou bem ruim, mas tudo bem, porque estou desenvolvendo a mente de principiante e trabalho a humildade intelectual”, diz ele.

A segunda é a meditação zen budista. A pessoa fica sentada na posição de lótus ou semilótus, de frente para a parede, com olhos semiabertos, em total silêncio. Tem que prestar atenção ao pensamento que surge e, em seguida, deixá-lo ir embora. Aí vem outro pensamento e de novo deixa-se ele ir embora. O cachorro late, deixa ir embora. Um avião passa, deixa ir. A duração é de 40 ou 90 minutos (sendo 40 minutos sentado, 10 minutos andando e mais 40 minutos sentado). É o mindfulness no Ocidente, a atenção plena. “Temos que aprender a esvaziar as nossas xícaras mentais de tempos em tempos, para podermos criar coisas e abordagens novas, ter novos olhares. Se continuarmos com a nossa xícara cheia, não sobra espaço para o novo”, ensina Nakagawa.

__Ia gera uma oportunidade__

![Ercília Galvão Bueno PB](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/5Spr8DeuioouaprgUcZdEL/1d31161aa44f52a9f9bf1fe44181c22c/Erci_lia_Galva_o_Bueno_PB.jpg)

Inteligência artificial é uma oportunidade de recomeçar do zero a área de atendimento ao cliente das empresas. “Sofremos pressão para trazer IA aos processos de atendimento ao cliente. E toda vez que há um salto evolutivo de tecnologia que nos leva a repensar processos, dois movimentos são possíveis: buscar redução imediata de custos e reproduzir os processos já existentes ou pensar toda a jornada novamente, como se não houvesse legado”, diz Ercilia Galvão Bueno, fundadora e CEO da Try Consultoria, especialista em design de marca e de experiência do usuário (UX). Como se tomaria o caminho? Com uma atitude de desapego ao que existe e alguns passos: (1) fazer uma análise da jornada atual com atendentes e consumidores, mapeando as principais e mais recorrentes dores, bem como as oportunidades de melhoria; (2) buscar benchmarkings no mercado, o que ajuda a libertar a imaginação para novas possibilidades; (3) estudar as possibilidades técnicas, levando em conta tecnologia, tempo e orçamento e, prototipar uma ou mais soluções, testando-as com clientes.

Um alerta de Galvão Bueno: num projeto grande que envolve custos altos e muita pressão de resultados, é importante manter vivos os objetivos mais intangíveis.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Se o estagiário lidera a reunião, quem é o líder?

Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
19 de julho de 2026 08H00
Pensamento estratégico, julgamento humano, curadoria de ferramentas digitais, desaprendizagem contínua e construção de significado despontam como as competências que diferenciarão profissionais em uma era em que inteligência e execução estão cada vez mais distribuídas entre pessoas e máquinas.

Denis Caldeira - CEO da Caldeira Growth e autor de "Cresça ou Desapareça"

8 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Cultura organizacional, User Experience, UX
18 de julho de 2026 14H00
À medida que os eventos se consolidam como ferramentas de cultura, engajamento e construção de relacionamentos, a escolha dos destinos deixa de ser uma decisão operacional. Este artigo explora como experiências, conexões humanas e identidade local estão redefinindo o papel dos encontros corporativos e transformando cidades em plataformas de desenvolvimento econômico e cultural.

Aziz Camali Constantino - Idealizador e cofundador do Oxigênio Ilhabela

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de julho de 2026 07H00
Enquanto a maioria das empresas não pode se dar ao luxo de substituir sistemas críticos da noite para o dia, startups vêm assumindo um papel estratégico na construção de uma transformação tecnológica mais rápida, modular e segura.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI e líder do TQI Ventures

3 minutos min de leitura
Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de julho de 2026 13H00
Ferramentas de IA já produzem textos, avaliações, vídeos e conteúdos em segundos. Mas a transformação mais importante talvez não esteja na velocidade da produção, e sim na capacidade de redesenhar experiências de aprendizagem que desenvolvam pensamento crítico, prática, feedback e autonomia humana.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
17 de julho de 2026 08H00
A sensação constante de apagar incêndios não é apenas um problema de produtividade. Este artigo mostra por que organização, gestão da agenda e definição de limites são competências essenciais para preservar desempenho, reduzir o esgotamento e recuperar o controle sobre a própria rotina profissional.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
16 de julho de 2026 14H00
Copa do Mundo, Olimpíadas, Super Bowl ou Black Friday: toda vez que a atenção coletiva se concentra em um grande evento, o mercado de mídia muda de comportamento. Entender esse movimento pode ser a diferença entre capturar demanda reprimida ou pagar, mais uma vez, o preço do improviso.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de julho de 2026 08H00
Robôs humanoides deixaram de ser protótipo e entraram em produção comercial em série. Enquanto conselhos ainda debatem a IA generativa, a automação física avança sem esperar. O atraso não aparece no balanço, mas se acumula como dívida de reação.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Empreendedorismo
15 de julho de 2026 15H00
Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

Sandra Regina da Silva - Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios

12 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth, User Experience, UX
15 de julho de 2026 08H00
Enquanto a IA assume processos, diagnósticos e tarefas repetitivas, cresce a importância de competências exclusivamente humanas. O desafio das lideranças não é automatizar mais, mas decidir onde a presença humana gera valor que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
14 de julho de 2026 18H00
Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

16 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo