Inovação
6 min de leitura

“Meu MBA foi uma perda de tempo”? O futuro do mercado de trabalho discorda

Olhar para um MBA como perda de tempo é um ponto cego que tem gerado bastante eco ultimamente. Precisamos entender que, num mundo complexo, cada estudo constrói nossas perspectivas para os desafios cotidianos.
É Diretora Acadêmica de Pós-Graduação Lato Sensu da ESPM, onde atua diretamente em todas as praças que possuem operação da Escola. Atualmente, a Escola já está em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Salvador, Goiânia e Belo Horizonte. Realizou seu Pós-Doutorado na área de economia comportamental no PPGA/ESPM. Doutora em Administração com ênfase em marketing pela UNISINOS, com estágio doutoral no departamento de Latin American Studies pela University of Oxford (2015) e Mestre em Administração com ênfase em finanças pela Escola de Administração (PPGA/UFRGS).
É coordenador do Master em Foresight Estratégico e Design de Futuros e do Master em Creator Economy: gestão do mercado de influência, ambos na ESPM, onde também leciona nos cursos de graduação de Comunicação e Publicidade e de Administracao de Empresas. É co-fundador e diretor da Associação Brasileira de Futuristas. Foi economista-sênior da LCA Consultores, onde foi responsável pelas análises de Consumo e pela construção de cenários alternativos, além de inúmeras entrevistas comentando o comércio varejista nos principais veículos de comunicação: Valor Econômico, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo. Atuou também na Consultoria GO Associados, onde colaborou na coordenação de produção de estudos e pareceres econômicos, além de relatórios de análise econômico-financeira sobre o

Compartilhar:

Na última semana, uma declaração de Bill Winters, CEO do banco britânico Standard Chartered , viralizou: “Meu MBA foi uma perda de tempo.” Esta frase, publicada em entrevista à Bloomberg, e replicada pelo Estadão, parecia endossar um sentimento crescente entre parte da geração Z: investir em educação formal deixou de ser essencial.

Mas essa seria uma conclusão válida? Ou apenas uma simplificação perigosa diante de um cenário cada vez mais complexo?

Winters argumenta que “as habilidades que aprendeu se degradaram ao longo dos 40 anos seguintes”. Ele critica o excesso de foco técnico e afirma que as máquinas já fazem melhor muito do que antes chamávamos de “carreira sólida”. Para ele, o diferencial agora está em saber pensar com empatia e comunicar com clareza. E nisso, convenhamos, ele está correto!

Mas o ponto cego da crítica de Winters talvez esteja justamente aí: as competências humanas que ele valoriza, ao contrário do que ele sugere, não nascem espontaneamente. Elas precisam ser cultivadas. E é exatamente nesse território que a educação de qualidade pode, e deve, operar.

No início deste ano, um levantamento realizado pela Falconi Consultoria apontou que pelo menos 80% dos CEOs brasileiros continuam estudando após a graduação. Ou seja, indo na contramão de Winters, a própria elite executiva segue apostando na educação como ferramenta de reposicionamento, reinvenção e liderança. A questão, em nosso entender, não é abandonar os MBAs ou pós-graduações, mas transformar esses programas em experiências mais adaptadas a um mundo em transição.

A revolução em curso não é nada silenciosa. Ela se manifesta na reorganização de funções e na ansiedade crescente diante da inteligência artificial. O que é menos evidente é a velocidade com que estamos naturalizando essa transformação sem o devido preparo estratégico, ético e educacional.

A IA generativa barateia processos, acelera decisões e amplia exponencialmente o alcance de tarefas antes restritas a especialistas. De um lado vemos o custo marginal da IA tendendo a zero. De outro, o trabalho humano seguindo valorizado, e sob pressão. Essa tensão escancara um impasse: como competir num mundo em que a IA e a automatização se tornam mais baratas e eficientes, e o humano, mais caro e exigido? A resposta está em transformar a qualificação em estratégia.

Temos estimativas que tentam quantificar essas tensões. O World Economic Forum (WEF), em 2023, estimou que 83 milhões de empregos devem desaparecer e 69 milhões surgirão nos próximos anos. No relatório Future of Jobs 2025 de 2025, o WEF projeta que, em 2030, apenas 33% das tarefas serão executadas exclusivamente por humanos, contra atuais 47%. Contudo, estas estimativas não podem nos colocar numa rota catastrofista, afinal, esse movimento não é novo: a automação acompanha o capitalismo desde suas origens. No Brasil, nos anos 1970, plantas industriais que precisavam ser operacionalizadas com 40 mil operários, passaram a funcionar com menos de 10 mil no início dos anos 2000, isto é, antes mesmo da IA. O que muda agora é a escala, a velocidade e, sobretudo, o alcance cognitivo desta transformação.

Em relação aos efeitos cognitivos, uma pista bastante contundente foi publicada este ano no Financial Times, que noticiou a queda no QI médio de jovens em países desenvolvidos, invertendo décadas de ganhos mensurados pelo “Efeito Flynn”, fenômeno identificado nos anos 1980 que indicava o aumento progressivo da inteligência média a cada geração. Enquanto a IA avança, nossa capacidade de leitura crítica, empatia e raciocínio complexo dá sinais de estagnação.

Não é difícil perceber que, nesse contexto, todas as profissões serão impactadas. Como disse a economista-chefe do LinkedIn, Karin Kimbrough, também ao Financial Times: “As empresas estão deixando de perguntar: ‘Qual é a nossa estratégia de IA?’ para começar a experimentar, implementando a IA generativa em seus processos”, o que tem potencial de transformar absolutamente todas as profissões nos próximos anos.

Mais do que nunca, o que protege o profissional não é saber o que fazer, é saber como pensar, adaptar-se e decidir. Segundo o Relatório mais recente do WEF, 85% das profissões de 2030 ainda não foram inventadas. Isso significa que a formação para o futuro precisa ensinar a aprender, e não apenas a aplicar o que já se sabe.

Essa virada exige um modelo de educação que vá além da técnica. Exige formação em julgamento ético, adaptabilidade, visão sistêmica, criatividade, capacidade antecipatória e liderança, isto é, habilidades humanas que resistem à automação e que definem o novo valor do humano.

Nesse cenário, indo em direção oposta aos comentários de Bill Winters, a realidade sugere que pós-graduação, mais do que nunca, ressurge como espaço estratégico de desenvolvimento crítico e liderança. Ela deixa de ser uma etapa formal e se torna um ciclo contínuo de reinvenção.

Essas transformações foram amplamente debatidas no ESPM Next Live EAD, evento que reuniu especialistas e executivos para refletir sobre os rumos do mercado de trabalho. A questão fundamental nos parecer ser menos se vale a pena estudar e mais como se aprende, para que se aprende, e com quem se aprende. Masters, MBAs e pós-graduações que permanecem presos ao modelo técnico de 1990 talvez sejam, sim, perda de tempo. Mas aqueles que formam repertório, articulam teoria com prática, integram pensamento ético com ação estratégica, esses não apenas continuam essenciais, como se tornam indispensáveis.

O futuro será mais tecnológico, sabemos. Mas, paradoxalmente, isso só reforça a necessidade de que ele seja mais humano. Por isso, qualificar-se, hoje, é proteger a inteligência que realmente importa: a humana.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Cargo versus competências

O futuro do trabalho não está nos cargos. Este artigo revela por que a competitividade das empresas passa a depender menos do organograma e mais da capacidade de mapear, desenvolver e combinar competências.

Para quem você escreve: pra pessoas ou pros algoritmos?

Em meio à queda de alcance e às mudanças constantes dos algoritmos, este artigo propõe um ajuste de rota: mais do que tentar “jogar o jogo” das plataformas, a verdadeira conexão, e relevância, ainda nasce da capacidade de ser humano, autêntico e presente nas interações.

Confiança demais, conhecimento de menos

Pior do que não saber é achar que já sabe. Este artigo expõe um risco silencioso nas organizações: não é a falta de conhecimento que mais compromete decisões, mas a combinação perigosa entre entendimento superficial e confiança excessiva.

Quando a inteligência fica barata, o seu modelo de negócio entra em risco

Dentro dos bilhões investidos em IA existe uma única aposta: a de que a inteligência vai deixar de ser escassa. Se ela se confirmar, não vai apenas cortar os seus custos. Vai dissolver os fossos competitivos sobre os quais as partes mais lucrativas da sua empresa foram construídas, muitas vezes sem ninguém perceber.

Marketing, Inovação & estratégia
29 de maio de 2026 12H00
No ritmo do mundo, só permanece quem sabe se adaptar. Este artigo mostra por que a relevância das marcas não depende mais de presença ou investimento, mas da capacidade de interpretar o tempo, integrar diversidade e transformar propósito em ação concreta.

Pedro Del Priore - CEO da Agência Ginga

4 minutos min de leitura
Estratégia, Marketing
29 de maio de 2026 08H00
Este artigo revela por que o diferencial das marcas deixou de ser produção e passou a ser sensibilidade - a capacidade humana de interpretar cultura, criar significado e, sobretudo, ser lembrada.

Maurício Mansur - Fundador da IAMKT

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de maio de 2026 17H00
Este é o segundo artigo de uma série que explora o setor farmacêutico brasileiro, suas capacidades industriais, dependências e posição na nova corrida global da saúde. Para sua elaboração, foram consideradas contribuições de Reginaldo Braga Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil, entidade que reúne algumas das principais fabricantes nacionais de medicamentos. Recomenda-se também a leitura do primeiro artigo da série.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

20 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
28 de maio de 2026 13H00
IA sem operação é só experimento caro. Este artigo revela por que a maioria das iniciativas ainda não gera impacto real - e como o verdadeiro desafio não está na tecnologia, mas na capacidade de estruturar, governar e operar processos em escala.

Daniel Torres - CEO da Roboteasy

3 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
28 de maio de 2026 08H00
Este artigo mostra como o mercado voluntário de carbono foi da narrativa ambiental para a lógica de investimento - e por que empresas que ainda tratam o tema como reputação estão ignorando uma nova infraestrutura de valor global.

Eduardo Joaquim da Silva - Coordenador do Comitê Estratégico e Expansão de Negócios da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de maio de 2026 17H00
Este artigo traz um compilado dos principais insights que emergiram da edição do ATD Summit 2026. Realizada em Los Angeles, entre os dias 17 e 20 de maio, as reflexões desse evento global precisam entrar, com urgência, na agenda de líderes e organizações.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de maio de 2026 14H00
Ao propor o conceito PACE, este artigo argumenta que a inteligência artificial não apenas intensificou o caos, mas criou uma nova infraestrutura de ação - deslocando o foco da sobrevivência para a capacidade de operar, decidir e criar valor em um mundo reprogramável.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT e membro do Conselho de Administração da IMA

13 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
27 de maio de 2026 08H00
A crise do trabalho não é de esforço - é de estrutura. Este artigo mostra que nunca se investiu tanto em produtividade, e nunca o trabalho pareceu tão insustentável.

Tiago Amor - CEO na Lecom

3 minutos min de leitura
Estratégia
26 de maio de 2026 14H00
O problema das govtechs não é a burocracia - é tratar o governo como cliente quando ele deveria ser parceiro.

Luiz Costa - Gerente de Inovação da Dome Ventures e Lincoln Ferdinand - Gerente de Marketing da Dome Ventures

3 minutos min de leitura
Estratégia, Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de maio de 2026 07H00
Ao criticar abordagens superficiais e reativas, este artigo mostra por que cumprir a norma não basta - e como organizações precisam ir além do diagnóstico de risco para construir, de fato, ambientes que sustentem o florescimento humano.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

11 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão