A morte sempre foi tratada como um tema tabu, reservado a momentos de perda, silêncio e, muitas vezes, isolamento. Essa postura, predominante nos países ocidentais, vem passando por uma importante mudança cultural, acelerada principalmente pela pandemia de covid-19, que colocou a morte no centro da experiência coletiva, provocando uma nova relação com a perda.
O painel “How Death Became the New Wellness Frontier” (“Como a morte se tornou a nova fronteira do bem-estar”), que reuniu David Oliver, editor-adjunto de bem-estar do jornal USA Today, Rebecca Feinglos, fundadora e CEO da Grieve Leave e os doulas da morte, Darnell Lamont Walker e Jamie Thrower, trouxe para o centro do debate os novos formatos de apoio emocional ao luto.
Os profissionais conhecidos como doulas da morte atuam como acompanhantes em processos de fim de vida e luto e ajudam pessoas e famílias a lidar com decisões, emoções e significados relacionados à morte. Um papel que encontra um paralelo no Brasil no trabalho de psicólogos especializados em luto, mas com abordagem distinta, voltada ao apoio psicológico durante o processo.
O debate trouxe também à tona uma transformação na forma como o luto é vivido e compartilhado. Em um mundo mais conectado, experiências como funerais online, grupos de apoio virtuais e comunidades digitais de acolhimento surgem como alternativas para reduzir o isolamento.
Segundo os painelistas, nas empresas, o tema começa a ganhar espaço dentro da agenda de bem-estar, porém ainda de forma tímida. A maioria das organizações oferece suporte limitado, geralmente restrito ao cumprimento da legislação sobre licença, e ainda não prepara lideranças para lidar com colaboradores enlutados.
Outro ponto relevante é a falta de diversidade nos espaços de apoio ao luto. Grupos tradicionais nem sempre contemplam diferentes identidades, como pessoas LGBTQIA+, que podem vivenciar a perda de forma ainda mais isolada e, muitas vezes, invisibilizadas.
Mas como esse movimento ressoa nos brasileiros?
Pesquisa online conduzida pela Hibou, realizada nos dias 19 e 20 de março, ouviu 1.585 pessoas maiores de 18 anos, de todas as classes sociais e gêneros, com margem de erro de 2,5%.
Os resultados mostram que 54,7% dos participantes dizem que se sentem confortáveis em falar sobre morte e luto, enquanto 22,6% afirmam sentirem-se pouco confortáveis, com 8,5% nada confortáveis com o tema. Mais da metade (51,6%) acredita que as pessoas estão mais abertas a falar sobre morte e luto do que no passado, embora 27,5% afirmem não perceber mudanças nesse sentido.


Quando o assunto é tratar o luto como parte natural da vida e do bem-estar emocional, 78,3% dizem concordar total ou parcialmente. Ainda assim, 48,5% dizem se sentir pouco ou nada preparados emocionalmente para lidar com perdas importantes, enquanto 33,9% afirmam se sentir muito ou um pouco preparados.


A família (67,2%), aparece como principal fonte de apoio, seguida pela religião e a espiritualidade (60,2%), amigos (52,6%) e terapia/psicólogos (45,4%). Apenas uma parcela pequena recorre a comunidades, grupos ou conteúdos online, o que indica que os brasileiros ainda estão distantes da realidade apresentada no painel.
Mesmo assim, 58,3% consideram válido o surgimento de novos profissionais e serviços para apoio ao luto, como as doulas da morte. Esse dado se conecta a outro resultado relevante, já que 66,6% concordam que as pessoas lidam com o luto de forma mais solitária do que deveriam.



Saí do painel com a convicção de que precisamos reaprender a lidar com a morte como parte da vida e que a escuta e o cuidado coletivo têm um papel importante nesse processo. Embora os brasileiros ainda vivam essa experiência de forma mais reservada, o fato de muitos não se sentirem preparados para enfrentar a perda abre espaço para abordagens mais conscientes, acolhedoras e compartilhadas.




